
A escritora, editora, empresária e mentora de desenvolvimento de negócios Dany Franco anunciou a criação da “Contraste Editora e Livraria”, um novo espaço dedicado à promoção de escritores independentes, durante a sua participação na Feira do Livro de Lisboa 2026, realizada no Parque Eduardo VII, entre os dias 27 de maio e 14 de junho.
Em entrevista à Agência Incomparáveis no âmbito do evento, Dany Franco abordou os desafios enfrentados pelos autores independentes, explicou a origem do novo projeto editorial que irá desenvolver no norte de Portugal e apresentou a visão que pretende implementar através da Contraste Editora e Livraria, iniciativa lançada no âmbito da agenda da “Suíça Literatura Network” em Lisboa, sob a liderança de Linia Brandt.
Ao abordar a génese do projeto, esta responsável explicou que a ideia surgiu da constatação de que muitos autores continuam sem acesso a espaços adequados de divulgação e promoção. Sobre essa realidade, destacou a necessidade de criar respostas para os escritores independentes.
“Esse desejo veio muito da necessidade de perceber que autores independentes não estavam tendo o espaço adequado. Eu sei que as grandes editoras também tiveram de sofrer muitas adaptações por conta do advento da tecnologia e da alta globalização, mas é bem verdade que nasceram muitos novos escritores”, começou por explicar.
“E no meio dessa adaptação, muitas histórias estão ficando esquecidas, ficando nas prateleiras”, afirmou.
Segundo Dany Franco, a nova estrutura pretende devolver protagonismo aos autores e reconhecer plenamente a propriedade intelectual das suas obras.
“A ideia da minha editora e da minha livraria é trazer à luz um espaço para o escritor independente e mostrar que aquilo que ele escreve é património imaterial dele. Não pertence exatamente a ninguém, a nenhuma editora, nem mesmo à minha editora irá pertencer”, salientou.
“Essa é a ideia, trazer um formato ainda mais moderno e novo, trazendo principalmente o objetivo de que o escritor deve ser independente. O património dele é imaterial e é a intelectualidade dele e é realmente a escrita dele. Pertence ao autor”, acrescentou, além de dizer também que a divulgação continuará a ser um dos maiores desafios do setor editorial.

“Fazer o trabalho de divulgação, que nós já conversamos anteriormente, é um trabalho muito complexo, é um trabalho que demanda tempo e que precisa ser feito diariamente. E muitos escritores, às vezes, não compreendem como funciona esse universo. Devemos trazer um novo formato aos escritores e aos editores, para que a gente olhe para a literatura com o olhar mesmo de democratização, que é assim que deve ser feito”, defendeu.
Questionada sobre a escolha da Feira do Livro de Lisboa para apresentar o projeto, Dany Franco explicou que considera estes eventos fundamentais para a afirmação dos autores e das suas obras. Sobre a importância dos salões e feiras internacionais, deixou uma comparação que considera particularmente elucidativa.
“A estratégia é a reunião de autores, que nós já temos, claro, e não existe lugar melhor, como eu digo, para um escritor e um editor estar do que em salões e feiras internacionais de livros. Muitos escritores me buscam e me perguntam: ‘Ah, você acha importante? Ou acha que devo ir?’. E eu costumo falar, o Oscar da literatura está em uma feira, em um salão internacional do livro”, sustentou.

Residente em Portugal há oito anos, Dany Franco, natural do Brasil, refletiu também sobre a forma como a experiência da imigração transformou a sua visão do mundo e da própria identidade. Ao recordar esse percurso, descreveu as mudanças pessoais que viveu ao longo dos anos.
“É uma imigrante que teve sua personalidade remodelada. A imigração faz muito isso com a gente. Nós acabamos pertencendo a dois mundos e essa Dany se transformou muito. Ganhei muita maturidade e uma visão diferente do que é a interculturalidade, o respeito às culturas, a integração de modo adequado, sem ferir ninguém e também sem deixar de ser ferido”, referiu.
Na mesma linha, destacou a influência dessa experiência na sua atividade editorial.
“É uma Dany que aprendeu com a imigração e se tornou muito mais madura. Contudo, e com tudo isso, tenho coragem de ousar em territórios portugueses com a editora escrevendo em português e português do Brasil, a maioria da minha escrita, porque eu acho que a língua transcende qualquer tipo de ideia, preconceitos ou aprisionamentos estruturais”, revelou.
Nascida na Bahia, no Brasil, Dany Franco explicou ainda a forte ligação emocional que desenvolveu com a região do Porto, zona onde irá instalar o novo projeto literário.
Ao estabelecer uma comparação entre o norte de Portugal e a sua terra natal, destacou as semelhanças que encontrou entre os dois territórios.
“Quem conhece a Bahia e quem conhece Salvador sabe que a própria geografia do Porto, o desenho arquitetónico do Porto, é como se a gente estivesse nas ruas do Pelourinho. Então, eu moro ali em Vila Nova de Gaia, muito perto da ponte, e quando eu conheci aquele local, entre Gaia e o Porto, eu me apaixonei por aquela visão. De algum modo, era como se eu estivesse em casa, e eu me sentia acolhida pelo Porto, e para mim é muito especial”, sublinhou.
De igual modo, revelou a localização da futura livraria, explicando que o espaço foi pensado para funcionar como um ponto de encontro multicultural. Sobre as características do projeto, indicou que pretende abrir as portas a públicos muito diversos.
“A livraria fica em Valadares, Vila Nova de Gaia, na Avenida António Coelho Moreira, bem ao lado da Junta de Freguesias de Valadares, número 690. É um espaço, como eu falei, multicultural, temos outros serviços, justamente com a ideia de que um mundo muito diverso de pessoas consigam ver o trabalho dos escritores independentes mesmo”, finalizou.
“Nova plataforma para autores independentes”
Mais tarde, durante a apresentação pública do projeto, Dany Franco mobilizou mais detalhes sobre o funcionamento da nova estrutura editorial e literária, reforçando a aposta num modelo inovador orientado para os autores independentes. A empresária explicou que a editora permitirá aos autores publicar e imprimir as suas obras sem perderem o controlo sobre os respetivos direitos.
“Você pode publicar comigo, imprimir comigo, mas você pode fazer isso com quem mais você quiser, porque a obra é efetivamente sua”, declarou.
O projeto incluirá igualmente uma livraria-clube instalada no seu espaço no Porto, apostando num modelo de impressão sob demanda e numa seleção reduzida de títulos para garantir maior visibilidade a cada autor.
Ao explicar essa estratégia, Dany Franco destacou a importância da promoção contínua das obras.
“Eu só terei, no máximo, 300 títulos. Não terei três mil títulos, 10 mil títulos, 50 mil títulos. Porque a ideia é que, diariamente, eu consiga divulgar dez escritores, cinco escritores nas redes sociais”, explicou.
A responsável defendeu que a simples publicação de um livro não é suficiente para garantir o seu sucesso.
“Não adianta eu escrever um livro e colocar na gaveta. Não adianta eu escrever um livro e aparecer numa feira, num salão do livro e esperar que esse livro se venda sozinho. Não é assim que se vende livros”, frisou.
Segundo Dany Franco, a “Contraste” pretende tornar-se uma referência para escritores lusófonos em Portugal.
“Vai ser uma livraria-clube onde os autores vão ter espaço para autógrafos, eventos e workshops por baixíssimos custos, para que seja efetivamente a casa do escritor lusófono em Portugal e no Porto”, realçou.
A empresária explicou ainda que o espaço reunirá diferentes atividades, permitindo que os livros estejam expostos a públicos diversificados.
“Ali não é só uma livraria. Entram clientes que vão fazer outras coisas e, de repente, estão sentados e já me perguntam hoje: ‘que livro é esse?’”, explicou.
Ao resumir a missão do projeto, voltou a enfatizar o objetivo de aproximar a literatura dos autores e leitores.
“O propósito é realmente democratizar a literatura. Trazer a literatura para quem realmente quer escrever e quer ganhar o mundo”, disse.
Por fim, Dany Franco destacou o papel desempenhado pela “Suíça Literatura Network” e por Línia Brandt na concretização desta iniciativa. Reconhecendo o apoio recebido ao longo do processo, sublinhou a importância do trabalho coletivo.
“Precisamos do “nós” para que o escritor independente tenha acesso e possibilidade de levar realmente as suas histórias ao mundo”, concluiu. ■




