Fliparacatu: Gustavo Ziller e Rita von Hunty encerram programação do primeiro dia do festival

Com o Auditório esgotado, Rita von Hunty, Gustavo Ziller e Marcelino Freire encerraram a programação de quarta-feira, dia 26, numa conversa sobre corpo, género, literatura, natureza e as ideias de limite e transformação

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Gustavo Ziller e Rita von Hunty. Foto: 4.º Fliparacatu/montagem
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O Auditório do “4.º Fliparacatu” estava esgotado quando Rita von Hunty e Gustavo Ziller chegaram para conversar sobre “Corpo e Travessia”. Mediado por Marcelino Freire, o encontro reuniu dois percursos aparentemente muito distantes: de um lado, a crítica cultural, educadora popular e autora de Formas de narrar um corpo; do outro, o atleta, apresentador e escritor de Escalando Sonhos, que transformou a sua experiência no Everest numa reflexão sobre limites, vulnerabilidade e propósito.

O “4.º Fliparacatu – Festival Literário Internacional de Paracatu” traz como tema “Sertão em Nós: Meu Lugar no Mundo”, numa homenagem aos patronos desta edição, o escritor João Guimarães Rosa, nos 70 anos de publicação do livro Grande Sertão: Veredas, e o geógrafo Milton Santos, em seu centenário de nascimento. O festival acontece entre os dias 26 e 30 de agosto, no centro histórico de Paracatu.

Ao longo da noite do primeiro dia, com a presença de Rita von Hunty e Gustavo Ziller, porém, as distâncias diminuíram. A conversa passou por catástrofes climáticas, violência de género, infância, masculinidades, literatura e democracia para chegar a uma pergunta maior: que narrativas estamos a usar para compreender o mundo e que mundo ajudam elas a construir?

Marcelino Freire abriu a última conversa da noite desta quarta-feira (26) recordando a tragédia recente na região do Nepal e do Tibete, onde uma avalanche provocada por um sismo rompeu uma barragem natural e deixou mortos e desaparecidos. A escolha não foi casual. Para uma mesa sobre corpo e travessia, falar de uma catástrofe numa região tão ligada ao percurso de Ziller significava começar pelo corpo perante algo que não pode ser controlado.

Rita lembrou que o mundo atravessa uma sequência de catástrofes climáticas e aproximou o episódio de outras tragédias brasileiras, como Brumadinho. No decorrer da conversa, recuperou um pensamento que a marcou: estamos a experimentar o colapso global como uma sucessão de vídeos de tragédias vistos nos ecrãs dos telemóveis, até ao dia em que seremos nós as pessoas dentro desses vídeos. A imagem é incómoda precisamente porque fala de distância. O desastre chega primeiro como notícia, como imagem, como conteúdo que aparece no ecrã e desaparece para dar lugar ao seguinte. A sensação de que aquilo acontece sempre noutro lugar, porém, pode não durar para sempre.

Para Ziller, a discussão tinha uma dimensão ainda mais pessoal. Com um percurso marcado pelas montanhas e por expedições em várias partes do mundo, contou ter um amigo desaparecido na tragédia. Falou sobre a tristeza perante as famílias atingidas e, no final, deixou uma mensagem: “Nosso amor para esse povo, desde Paracatu”.

Gustavo Ziller, Marcelino Freire e Rita von Hunty. Foto: e 4.º Fliparacatu/montagem/@BLEIA

Noutro momento, Rita apresentou algumas das questões de Formas de narrar um corpo, livro em que investiga as relações entre género, sexualidade, linguagem e poder. “Que diabo é género? Que diabo é sexualidade?”, provocou. Para Rita, o sistema sexo-género chegou a um ponto de falência. O número de feminicídios, os atentados e a violência contra mulheres, crianças e pessoas LGBTQIA+ seriam, na sua leitura, sinais de que as formas tradicionais de organizar e hierarquizar os corpos já não podem continuar a ser tratadas como naturais ou inevitáveis.

Rita aproximou esta discussão de acontecimentos e fenómenos contemporâneos, como o caso Epstein, a série Adolescência, da Netflix, e o caso de Gisèle Pelicot, que se tornou símbolo internacional da luta contra a violência sexual. Apresentou estes episódios como manifestações claras de uma estrutura de poder. “As formas de violência são um enunciado político sendo comunicado entre homens numa hierarquia de poder”, afirmou, ao criticar também o movimento Red Pill e as comunidades virtuais que propagam determinadas ideias sobre masculinidade e relações entre homens e mulheres.

A conclusão surgiu em tom de alerta e também de convocação: “Esse sistema faliu, e a gente vai precisar criar outra coisa no lugar disso”. A intervenção ajudou a deslocar o sentido da palavra corpo na mesa. Não se tratava apenas do corpo físico, mas dos significados que a sociedade coloca sobre ele, das expectativas que o acompanham e das relações de poder que determinam quais corpos são autorizados, protegidos, desejados ou violentados.

Ziller encontrou um caminho próximo do de Rita a partir de uma experiência completamente diferente. Em Escalando Sonhos, revisita a expedição que o levou ao Everest, depois de um percurso que começou com um diagnóstico de burnout e depressão e com a decisão de abandonar o ritmo frenético da publicidade. A montanha poderia facilmente produzir uma narrativa tradicional de superação: um homem enfrenta os seus limites, chega ao topo e regressa transformado. Mas não foi essa a história que viveu, nem aquela que quis contar.

Ziller observou que, no ambiente das escaladas no Nepal, percebeu uma presença forte de homens a tentar provar alguma coisa uns aos outros. O sofrimento surge, nesse universo, quase como uma espécie de certificado de valor: quem aguenta mais, quem chega mais longe, quem suporta mais dor. Ele contrapõe-se precisamente a essa lógica. Subir uma montanha, explicou, não torna automaticamente ninguém uma pessoa melhor.

E foi ainda mais direto: “Um estuprador vai subir o Everest e vai voltar estuprador. É sobre isso que eu escrevo”. A frase desmonta uma falsa ideia de jornada de superação que poderia envolver a história do Everest. A travessia não é uma máquina de produzir heróis.

Ziller nasceu em Belo Horizonte, Brasil, mas passou grande parte da infância em Belém. Recordou aquele período com carinho, falando das bicicletas, do futebol jogado pelo caminho e da liberdade de estar em contacto com a natureza. “Fui educado em cartilha indígena”, contou, ao falar da sua formação naquele lugar. Lembra-se pouco da infância em Belo Horizonte, mas guarda de Belém imagens sensoriais muito precisas: cor, cheiro e natureza. É também de lá que parece vir uma curiosidade que permanece na sua vida adulta. “Essa história de eu buscar essa curiosidade na natureza, viver a natureza – afinal de contas somos a natureza – vem da minha infância”.

Rita percorreu outro caminho para falar da sua formação. Contou que sempre foi “bicha, bichérrima” e recordou o início do seu percurso como drag queen, incluindo a origem do nome Rita von Hunty. Rita surgiu em homenagem à atriz Rita Hayworth, Von foi inspirado em Dita Von Teese e Hunty veio de uma expressão da cultura drag norte-americana. Mas, por trás da personagem, estava também uma criança rodeada por livros. A avó e a mãe eram professoras e a sua casa tinha uma biblioteca.

“O livro sempre foi e é um lugar da minha infância”, contou. É uma recordação que ilumina Formas de narrar um corpo por outro ângulo. Antes de discutir género como estrutura social, Rita já observava, desde criança, os papéis e as performances que eram esperados das pessoas.

A conversa regressou então à própria imagem de Ziller. Refletiu sobre ser um homem branco, cisgénero e heterossexual e sobre a forma como essa identidade pode ser facilmente aceite, consumida e transformada num produto. É precisamente por isso, explicou, que Escalando Sonhos foi um desafio. Queria contar uma história de superação sem a transformar numa narrativa comercial pronta, daquelas em que o sofrimento produz necessariamente sucesso e o sucesso produz necessariamente uma versão melhor do indivíduo.

Ziller contou também que foi educado para questionar padrões de género, que tenta levar esse exercício para a própria vida e que hoje é um “Gustavo trabalhado na terapia”. A expressão tem humor, mas também resume uma das ideias mais interessantes da mesa. Se a montanha não transforma ninguém magicamente, talvez a reinvenção aconteça precisamente no trabalho quotidiano de olhar para si próprio, para aquilo que aprendemos, repetimos e podemos escolher não repetir.

Rita von Hunty falou ainda sobre a urgência de formar novos leitores. “A democracia é um regime de leitores”, afirmou. Para ela, a democracia depende da “palavra escrita, da palavra lida, da palavra debatida” e da capacidade de deliberação. Ler não seria, portanto, apenas uma atividade cultural ou um hábito individual. É também uma prática política: exige atenção, interpretação, confronto de ideias e disponibilidade.

A defesa da leitura dialoga também com tudo o que tinha sido discutido até então. Se os corpos são moldados por narrativas, se determinadas violências se sustentam através de discursos e se as nossas imagens de nós próprios podem ser transformadas em mercadoria, aprender a ler criticamente essas narrativas passa a ser uma forma de resistência.

A Kinross apresenta a quarta edição do Fliparacatu, através da Lei Rouanet do Ministério da Cultura, com o patrocínio da Caixa e o apoio cultural da Prefeitura de Paracatu, da Academia de Letras do Noroeste de Minas e do Sebrae. Todas as atividades são gratuitas, acessíveis, transmitidas online através do YouTube e estão alinhadas com os princípios ESG, Ambiental, Social e Governança, e com os ODS, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, da ONU, Organização das Nações Unidas.

Conheça a programação em: https://fliparacatu.com.br/

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