“O mais lindo da minha arte é que ela não tem fronteiras”

Claudia Regina Gasparotto, cantora lírica brasileira e residente na Suíça, participará, em maio, em Zurique, na abertura oficial da Antologia Internacional “Mulheres que Mudaram o Destino”, projeto liderado por Ângela Brodbéck

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Claudia Regina Gasparotto. Foto: divulgação
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Claudia Regina Gasparotto será a atração musical da abertura oficial da Antologia Internacional “Mulheres que Mudaram o Destino”, uma obra que reúne 60 coautoras de diferentes países, incluindo Portugal, Suíça, Alemanha, Itália, Espanha, França, Israel e Brasil. O evento celebra “trajetórias de coragem, liderança e transformação social”, e será realizado no dia 20 de maio, na cidade de Zurique.

Claudia reside há 20 anos em Lausanne, Suíça, país que escolheu para viver, constituir família e desenvolver a sua carreira musical. Cantora lírica formada e experiente, a artista combina a vida de mãe e esposa com apresentações em concertos e recitais internacionais, mantendo forte ligação com as suas raízes.

A carreira de Claudia inclui formação com professores de renome, como Maurizio Martinazzo e Ioana Bentoiu, e um repertório que abrange grandes compositores da ópera, incluindo Puccini e Verdi, interpretados em seis idiomas.

Em entrevista à Agência Incomparáveis, a cantora, natural de Jundiaí, São Paulo, Brasil, considera que a música é uma forma de conectar pessoas, provocar emoções e celebrar a universalidade da arte, transmitindo a sua paixão a públicos de diferentes culturas.

Como é viver na Suíça?

Embora eu não aprecie as temperaturas baixas, viver na Suíça é muito bom, pois todas as outras coisas positivas acabam por compensar o clima gelado. A segurança é algo muito importante para mim, principalmente sendo mãe de duas meninas, e esse é um ponto muito positivo aqui na Suíça. É considerado por muitos como um dos países mais lindos do mundo, com suas montanhas e lagos que são cartões-postais perfeitos. A parte cultural também é riquíssima, com quatro idiomas oficiais, muita história, e um povo muito respeitoso.

O que a Suíça significa para si?

Significa o país que escolhi viver e que me acolheu. Onde constituí a minha família. Vivo aqui há 20 anos e sou grata por viver num país pacífico e maravilhoso. É um lugar de paz para mim.

Como e por que foi viver nesse país?

O que me fez vir morar na Suíça foi exatamente o facto de me ter casado com um suíço. As coisas aconteceram de maneira rápida: nove meses depois do nosso primeiro contacto já estávamos a casar. Tudo ocorreu naturalmente, sem complicações. E isso foi há 20 anos! Nem dá para acreditar quando penso em como o tempo passou rápido.

A sua relação com a música começou ainda na infância em Jundiaí. Que memórias guarda desse primeiro contacto com o canto e de que forma esse período moldou a artista que se tornaria mais tarde?

A música sempre fez parte da minha vida, desde muito nova, com o estudo de piano por quase cinco anos. São memórias que guardo com muito carinho. Eu estudava todos os dias na casa da professora de piano, pois não tínhamos piano em casa. Andava bastante para poder estudar por uma hora e voltava para casa. Isso todos os dias. Às sextas-feiras tinha aula com a professora. Não era fácil estudar um instrumento sem tê-lo para praticar, mas isso mostra o meu amor pela música e os esforços que fizemos para que eu pudesse estudar. O canto veio naturalmente, quase como uma evidência, pois eu cantava mais do que falava.

Durante vários anos integrou corais e bandas de baile, interpretando música popular. Que aprendizagens dessa fase ainda permanecem na sua forma de cantar música clássica?

Cantar em bandas de baile é uma excelente escola. Tem que cantar de tudo, vários géneros musicais, até o que não gostamos! Temos de tentar agradar a todas as “tribos”. Foram anos muito bons, onde se adquire experiência de palco e interação com o público. Tenho muito boas lembranças desse tempo e dos amigos músicos que me acompanharam. A música lírica aparecia em doses homeopáticas, nas cerimónias de graduação, em casamentos. Trabalhei no Japão por dois anos, cantando em casamentos, e o lirismo e vibrato da minha voz me conduziram naturalmente para o clássico.

A mudança para a música lírica surgiu também pela influência do professor Maurizio Martinazzo. De que forma esse encontro orientou a sua transição para o repertório operístico?

O encontro com o professor, barítono e pianista Maurizio, foi muito especial. Ele ajudou-me, além da parte técnica, com a escolha de repertório mais apropriado para a minha voz. Aos poucos, a música popular foi dando lugar ao clássico e ao repertório operístico, onde me sinto confortável e “em casa”. O meu instrumento, que é a minha voz, é ideal para repertório operístico, pelo volume, cor, vibrato, expressividade e amor que tenho em interpretá-la, dando vida aos grandes compositores e seus personagens apaixonantes.

Em 2006 mudou-se para a Suíça e iniciou estudos na École Supérieure de Musique Institut de Ribaupierre, em Lausanne. Como foi esse processo de adaptação artística e cultural num novo país?

Foi muito natural, sem grandes adaptações, pois a linguagem musical clássica é universal. Tenho uma excelente capacidade de adaptação, e isso facilitou muito a minha vida aqui no velho continente, não apenas na música, mas em todos os aspetos.

O trabalho com a cantora lírica e professora Ioana Bentoiu continua a marcar o seu percurso. Que elementos técnicos ou interpretativos foram mais determinantes nesse processo de formação?

O meu encontro com a professora Ioana Bentoiu foi e continua a ser de grande importância para mim. Trabalhamos muito a técnica nos estudos, vocalises, respiração, abertura, posicionamento, estudo dos personagens, interpretação. Ela transmite a técnica de maneira particular, usando analogias e ilustrações imaginárias que ajudam a compreender exatamente o que quer transmitir. Estabelecemos uma relação profunda de admiração mútua, não apenas como professora e aluna, mas como dois seres conectados pela mesma paixão pela música lírica.

Cantar em seis idiomas exige domínio técnico e compreensão cultural das obras. Como prepara cada interpretação?

Falar cinco dos seis idiomas em que canto facilita muito esse processo. Sei exatamente o que estou a cantar, e a interpretação chega naturalmente. Uma vez que conheço o personagem e o panorama histórico, tudo se encaixa. Uma das vantagens e delícias de ser poliglota! 

O seu repertório inclui compositores centrais da ópera como Puccini e Verdi. Que desafios e exigências vocais eles apresentam?

Esses dois compositores são os meus grandes favoritos. Eles, principalmente Puccini, compuseram para vozes como a minha, por isso, me sinto confortável em interpretá-las. Mas não exclui a extrema dificuldade que as suas obras exigem: desafios de respiração, apoio vocal e agudos, que exigem muita técnica.

A sua carreira inclui apresentações em vários países. Como diferentes públicos recebem a música lírica e que diferenças observa entre essas experiências internacionais?

Cantar em diferentes países é extraordinário. Alguns são mais apaixonados pela música clássica/lírica, outros menos. Embora seja considerada uma arte de nicho, vi e vivi experiências lindas em todos os lugares. O que muda são as reações: um público brasileiro é mais caloroso, enquanto uma plateia suíça ou japonesa pode ser mais reservada, mas a conexão sempre acontece.

A participação no evento em Zurique reúne artistas e público de diversas origens. Que significado tem para si integrar um encontro cultural com essa dimensão internacional?

Acho maravilhoso esse evento. Independente de origem ou classe socioeconómica, a arte é universal, e engana-se quem pensa que a ópera não encanta os ouvidos menos habituados. O mais lindo da minha arte é que ela não tem fronteiras. Sinto-me feliz e lisonjeada por proporcionar um momento musical que toque corações.

O que espera dessa experiência e o que vai apresentar ao público?

Espero provocar emoções, apresentar minha arte àqueles que ainda não tiveram contacto com a música lírica e celebrar os escritores da antologia. Quanto ao repertório, surpresa!

Como vive o coração do imigrante na Suíça?

O meu, depois de 20 anos, vive bem. Mas a saudade de quem ficou e da nossa terra estará sempre comigo. Sou otimista e tento olhar as situações de maneira positiva. O meu coração é verde e amarelo, mas também tem espaço para um  pouco de vermelho e branco.

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