
O caso de Araceli Cabrera Crespo marcou, em 1973, uma das páginas mais dolorosas da história brasileira. Uma menina de apenas oito anos, vítima de violência extrema, transformou-se num símbolo nacional da luta contra o abuso e a exploração sexual infantil. Décadas depois, o 18 de maio permanece como um alerta necessário para uma sociedade que ainda convive com números alarmantes de violência contra crianças e adolescentes. Falar sobre esse tema continua sendo urgente, porque o silêncio ainda protege agressores e aprisiona vítimas.
Ao longo da minha trajetória como mentora de mulheres, hipnoterapeuta e palestrante em diferentes países, aprendi que muitas dores da vida adulta têm raízes em infâncias interrompidas pela violência, pelo medo e pela ausência de acolhimento. Crianças abusadas muitas vezes crescem carregando culpa, vergonha e dificuldades profundas de identidade, relacionamento e autoestima.
O trauma não desaparece com o tempo. Ele se manifesta no corpo, nas emoções e na forma como essa pessoa se enxerga no mundo. Por isso, proteger a infância não é apenas evitar uma violência imediata. É preservar futuros inteiros.
Vivemos uma época em que as crianças estão expostas a riscos dentro e fora do ambiente digital. Redes sociais, jogos online e ambientes familiares desestruturados ampliam vulnerabilidades que exigem atenção constante de pais, educadores, autoridades e da sociedade como um todo.
Escutar uma criança, observar mudanças de comportamento e levar a sério qualquer sinal de sofrimento pode salvar vidas. Denunciar não é interferir. Denunciar é um ato de responsabilidade humana. Nenhuma criança deve carregar sozinha o peso de uma violência que jamais deveria acontecer.
Como mulher, mãe, mentora e alguém que dedica a vida a ajudar pessoas a gerar novos começos, acredito que toda criança merece crescer em segurança, dignidade e amor. O mês de maio nos convida à reflexão, mas essa vigilância precisa existir todos os dias do ano. A infância não pode esperar. O legado de Araceli continua vivo justamente porque ainda há muito a ser feito. Proteger crianças é uma missão coletiva. E a coragem de agir pode ser a diferença entre uma vida marcada pelo trauma e uma história construída com esperança. ■
Ana Poltera
CEO do programa “Gravidez na Maturidade”, líder do movimento “E.L.A.S Foram Chamadas para Gerar”, autora de várias obras, mentora em Fertilidade & Identidade e criadora do método “Gerar”
Instagram: @anapolteraoficial




