Opinião: “Igualdade feminina: conquistamos a liberdade, mas será que nos libertamos?”, por Ana Poltera

"Talvez sejamos uma das primeiras gerações com tantas possibilidades de escolha"

12
Ana Poltera, empresária, mentora em Fertilidade & Identidade, criadora do Método Gerar e líder do movimento “E.L.A.S - Foram Chamadas para Gerar”. Foto: divulgação/acervo pessoal
- Publicidade -

Existe uma mulher que acorda cedo, cuida da casa, trabalha, empreende, resolve problemas, acolhe todo mundo e, quando finalmente deita, ainda sente que não fez o suficiente.

Talvez você conheça essa mulher.

Talvez essa mulher seja você.

Vivemos um tempo em que as mulheres conquistaram direitos que nossas avós sequer podiam imaginar.

Mas essas conquistas não aconteceram por acaso.

Foram mulheres que abriram caminhos. Mulheres que desafiaram regras, enfrentaram julgamentos e disseram: “Eu também tenho o direito de escolher.”

No Brasil, alguns marcos dessa caminhada ajudam a lembrar o quanto avançamos.

Em 1827, meninas passaram a ter acesso à educação formal.

Em 1879, as mulheres conquistaram o direito de frequentar instituições de ensino superior.

Em 1932, conquistamos o direito de votar e de sermos votadas.

Em 1962, o Estatuto da Mulher Casada ampliou a autonomia civil das mulheres.

E, em 1988, a Constituição Federal consolidou a igualdade de direitos e deveres entre homens e mulheres.

Cada uma dessas conquistas abriu uma porta.

E devemos honrar profundamente as mulheres que tiveram coragem de empurrá-las.

Mas existe uma pergunta que talvez precise ser feita agora:

Depois de conquistar tantas liberdades externas, será que aprendemos também a ser livres por dentro?

Porque podemos ter o direito de escolher e, ainda assim, sentir culpa quando escolhemos a nós mesmas.

Podemos ter independência financeira e continuar emocionalmente presas à necessidade de aprovação.

Podemos dizer “não” para algumas pessoas e continuar dizendo “sim” para tudo aquilo que nos esgota.

Podemos ocupar espaços de liderança e, mesmo assim, acreditar que precisamos provar o nosso valor o tempo inteiro.

Somos filhas de mulheres cansadas.

Somos netas de mulheres que muitas vezes precisaram suportar, obedecer, silenciar e sobreviver.

Nossas mães aprenderam a dar conta de tudo.

Da casa.

Dos filhos.

Do marido.

Do trabalho.

Da família.

E, muitas vezes, de todos ao redor.

Aprenderam a não pedir ajuda.

Aprenderam a engolir o choro.

Aprenderam a dizer “sim” quando queriam dizer “não”.

E nós herdamos muito mais do que sobrenomes.

Herdamos comportamentos.

Herdamos crenças.

Herdamos medos.

Herdamos padrões.

Talvez sejamos uma das primeiras gerações com tantas possibilidades de escolha.

Podemos estudar.

Trabalhar.

Empreender.

Viajar.

Escolher com quem queremos nos relacionar.

Escolher se queremos ou não ter filhos.

Construir nossos próprios negócios.

Ocupar espaços de liderança.

Criar uma vida diferente daquela que nossas mães e avós tiveram.

Mas, paradoxalmente, muitas mulheres chegaram a esses espaços carregando uma antiga programação:

“Eu preciso dar conta de tudo.”

E talvez esteja aí uma das grandes contradições da nossa geração.

Conquistamos o direito de ocupar espaços, mas começamos a acreditar que precisamos ocupar todos eles ao mesmo tempo.

Precisamos ser excelentes profissionais.

Excelentes mães.

Excelentes esposas.

Empreendedoras.

Lindas.

Fortes.

Independentes.

Disponíveis.

E ainda precisamos parecer que estamos dando conta de tudo.

Será que liberdade é isso?

Será que igualdade significa provar o tempo inteiro que somos capazes de fazer tudo sozinhas?

Quando a independência vira armadura

Existe uma frase que muitas vezes representa a força feminina:

“Eu não preciso de homem para nada.”

Mas será que não precisar é realmente liberdade?

Ou, em alguns casos, pode ser uma armadura?

Uma mulher pode ser independente e permitir-se receber.

Pode ser forte e permitir-se descansar.

Pode liderar e permitir que alguém caminhe ao seu lado.

Pode construir a própria vida sem transformar a presença do outro em uma ameaça à sua autonomia.

Talvez tenhamos confundido independência com isolamento.

Talvez tenhamos aprendido a não depender de ninguém porque, em algum momento da nossa história, depender significou sofrer.

E então construímos uma mulher extremamente forte por fora, mas muitas vezes exausta por dentro.

Uma mulher que sabe conquistar, mas não sabe receber.

Que sabe produzir, mas não sabe desfrutar.

Que sabe cuidar de todos, mas não sabe perguntar:

“E quem cuida de mim?”

O preço invisível de dar conta de tudo

A mulher entrou no mercado de trabalho e conquistou espaços importantes.

Mas, em muitos casos, não deixou para trás as antigas responsabilidades.

A elas foram acrescentadas novas cobranças.

Agora, além de cuidar da família, muitas mulheres também precisam construir uma carreira, administrar uma empresa, alcançar resultados e provar sua competência.

E ainda existe a pressão para fazer tudo isso com um sorriso no rosto.

Não se trata de dizer que trabalhar fora foi um erro.

Muito pelo contrário.

Trata-se de perguntar:

Como podemos construir uma sociedade em que a mulher não precise escolher entre realização profissional, maternidade, descanso, prazer e saúde emocional?

A questão não é voltar para trás.

É avançar de uma maneira diferente.

Porque não queremos trocar uma prisão por outra.

O que recebemos. O que ainda precisamos devolver

Recebemos direitos.

Recebemos oportunidades.

Recebemos portas abertas por mulheres que vieram antes de nós.

Mas talvez precisemos devolver às mulheres algo que se perdeu no caminho:

a permissão para serem inteiras.

Inteiras para sentir.

Para descansar.

Para desejar.

Para dizer não.

Para pedir ajuda.

Para receber.

Para mudar de ideia.

Para não dar conta.

Para não ser perfeita.

Para não precisar vestir uma armadura todos os dias.

Porque existe uma mulher por trás dessa armadura.

E talvez essa mulher esteja cansada.

Cansada de competir.

Cansada de se comparar.

Cansada de provar seu valor.

Cansada de acreditar que precisa ser mais dura para ser respeitada.

Cansada de silenciar o próprio corpo.

Cansada de ignorar suas necessidades para atender às necessidades de todos.

A comparação também aprisiona

Hoje, podemos olhar para outra mulher e pensar:

“Ela avançou mais do que eu.”

“Ela conseguiu.”

“Ela tem mais dinheiro.”

“Ela tem um relacionamento melhor.”

“Ela está mais bonita.”

“Ela já realizou aquilo que eu ainda não realizei.”

E, sem perceber, transformamos a conquista de outra mulher em uma medida contra nós mesmas.

Mas talvez a liberdade feminina também passe por parar de competir umas com as outras.

A mulher que chegou antes não diminui aquela que está começando.

A mulher que tem mais não torna menor aquela que tem menos.

A mulher que escolheu um caminho diferente não precisa ser nossa adversária.

Quando uma mulher se liberta, ela não precisa fechar a porta para outra mulher entrar. Ela pode abrir mais uma.

A mulher é porta

Gosto de pensar na mulher como uma porta.

Uma porta para possibilidades.

Para projetos.

Para negócios.

Para relacionamentos.

Para filhos.

Para ideias.

Para futuros que ainda não existem.

A mulher tem essa capacidade extraordinária de gerar, nutrir e multiplicar.

Mas ninguém consegue gerar frutos permanentemente vivendo em estado de sobrevivência.

Uma terra exausta precisa descansar.

Um solo precisa ser cuidado.

E talvez nossa mente também precise.

Precisamos olhar para os caminhos neurais que repetimos há anos e perguntar:

“Isso ainda pertence à mulher que eu sou hoje ou pertence à mulher que eu precisei ser para sobreviver?”

Essa pergunta pode abrir uma nova porta.

Porque nem tudo aquilo que herdamos precisa continuar conosco.

Podemos honrar nossas mães sem repetir suas dores.

Podemos respeitar nossas avós sem carregar suas impossibilidades.

Podemos agradecer às mulheres que lutaram antes de nós sem transformar a luta delas em uma nova obrigação para nós.

A verdadeira liberdade

Talvez a próxima revolução feminina não seja apenas ocupar mais espaços.

Talvez seja aprender a ocupar a própria vida.

Sem culpa.

Sem comparação.

Sem precisar provar o tempo inteiro que somos fortes.

Sem transformar independência em solidão.

Sem confundir liberdade com excesso de responsabilidade.

Sem abandonar nossa sensibilidade para sermos respeitadas.

Não precisamos voltar ao passado.

Precisamos avançar para um futuro onde a mulher possa ser forte e sensível.

Independente e receptiva.

Profissional e mãe, se assim desejar.

Líder e vulnerável.

Determinada e leve.

Uma mulher que sabe dizer “não”, mas também sabe dizer “sim” para aquilo que realmente deseja.

Porque igualdade não deveria significar que a mulher precisa se tornar igual ao homem para ser reconhecida.

Igualdade deveria significar liberdade para sermos quem somos.

E talvez essa seja a pergunta que fica:

Depois de tantas gerações lutando para abrir portas para nós, teremos coragem de atravessá-las sem levar conosco as antigas correntes?

Talvez o próximo passo não seja conquistar mais uma liberdade externa.

Talvez seja finalmente libertar a mulher que ainda está presa por dentro.

Liberte-se, mulher.

Não para provar que você consegue tudo sozinha.

Mas para descobrir que você não precisa mais viver assim. ■

Ana Poltera

Empresária, mentora em Fertilidade & Identidade, criadora do Método Gerar e líder do movimento “E.L.A.S – Foram Chamadas para Gerar”

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.