Opinião: “Liberdade de pensar é liberdade para renascer”, por Ana Poltera

“No Dia Mundial da Liberdade de Pensamento, 20 de julho, um convite para que as mulheres recuperem a própria voz”

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Ana Poltera, empresária, mentora em Fertilidade & Identidade, criadora do Método Gerar e líder do movimento “E.L.A.S  - Foram Chamadas para Gerar”. Foto: divulgação/acervo pessoal
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Há uma liberdade que ninguém consegue medir. Não aparece nas estatísticas, não depende de fronteiras nem de passaportes. É a liberdade de pensar. E, para muitas mulheres, essa continua a ser uma das conquistas mais difíceis.

Costumamos associar a liberdade apenas ao direito de falar, votar ou escolher um caminho profissional. Mas existe uma liberdade que antecede todas as outras. É a capacidade de pensar sem medo, de questionar aquilo que nos disseram durante anos, de compreender que a nossa identidade não precisa de ser construída a partir das expectativas dos outros.

Ao longo da minha vida encontrei mulheres inteligentes, competentes e generosas que perderam essa liberdade sem se aperceberem. Algumas viveram relações abusivas. Outras foram manipuladas por falsas promessas, por dependências emocionais ou por discursos que as convenceram de que nunca seriam suficientes. Há também quem tenha deixado de acreditar em si depois de uma perda, de uma violência ou de uma sucessão de fracassos. O resultado é sempre o mesmo. Quando alguém perde a liberdade de pensar por si própria, perde também a capacidade de decidir o rumo da sua vida.

Foi precisamente essa realidade, entre outros momentos, que me levou a dedicar o meu trabalho à fertilidade, à identidade e aos recomeços. Aprendi que gerar vida vai muito além da maternidade. Gerar vida é voltar a acreditar. É recuperar a coragem de sonhar. É reconstruir projetos que ficaram interrompidos. É permitir que uma mulher volte a reconhecer o seu valor depois de anos de silêncio.

Há também uma força feminina que precisa de ser protegida e reconhecida. Não falo apenas da capacidade de gerar filhos, mas da energia que permite criar caminhos, sustentar famílias, levantar negócios, curar vínculos e transformar dor em direção. Quando uma mulher se liberta de amarras emocionais, de culpas herdadas e de relações que diminuem a sua voz, ela volta a ocupar o seu lugar com presença, consciência e verdade.

Essa liberdade interior permite desfrutar a vida com mais plenitude. Permite escolher sem medo, amar sem dependência, trabalhar sem anulação e sonhar sem pedir licença. Muitas mulheres foram ensinadas a carregar tudo em silêncio, mas chega um momento em que o silêncio deixa de ser proteção e passa a ser prisão. Pensar livremente é também reconhecer esse limite e decidir atravessá-lo.

Vivemos numa época em que nunca houve tanta informação disponível. Ainda assim, nunca foi tão importante aprender a discernir. As redes sociais, os discursos fáceis e as promessas de sucesso imediato podem criar ilusões que afastam as pessoas da sua essência. Pensar livremente exige responsabilidade. Exige fazer perguntas, procurar conhecimento, refletir antes de seguir qualquer voz que prometa soluções para tudo.

É também por isso que o nosso encontro do “Setembro Amarelo”, que realizaremos em Genebra, nasce com um propósito que vai além da prevenção do suicídio. Queremos criar espaços onde as pessoas possam refletir, encontrar apoio e recuperar a capacidade de escolher conscientemente o caminho que desejam seguir. A prevenção começa muito antes de uma crise. Começa quando uma pessoa percebe que a sua vida tem valor e que a sua história não precisa de ser definida pela dor.

Neste Dia Mundial da Liberdade de Pensamento, 20 de julho, deixo uma mensagem especial às mulheres. Não permitam que ninguém pense por vocês. Não entreguem os vossos sonhos, a vossa identidade ou o vosso futuro a quem tenta controlar a forma como olham para si próprias. A liberdade começa dentro de cada uma. É aí que nasce a coragem para dizer “não” ao medo, “não” à manipulação e “sim” a uma vida construída com consciência.

Acredito que todas fomos chamadas a gerar neste mundo. Algumas geram filhos. Outras geram empresas, projetos, conhecimento, solidariedade ou esperança. Mas nenhuma consegue gerar plenamente enquanto viver aprisionada pelas ideias que lhe foram impostas.

A verdadeira liberdade não é fazer tudo o que queremos. É ter consciência suficiente para escolher aquilo que nos aproxima da vida, da dignidade e da verdade. Quando uma mulher recupera essa liberdade, ela não transforma apenas a sua própria história. Ela inspira outras mulheres a fazerem o mesmo. E é assim que começam as mudanças que atravessam famílias, comunidades e gerações.

Quando digo que somos netas de mulheres que não foram livres, não é uma metáfora. É história. Em Portugal, até a Revolução dos Cravos, em 1974, muitas mulheres casadas precisavam da autorização do marido para abrir uma conta bancária, viajar, trabalhar em determinadas profissões e tomar decisões sobre a própria vida.

Foi com a Constituição de 1976 e as mudanças no Código Civil que a igualdade jurídica começou a tornar-se realidade. Isso não aconteceu há séculos. Aconteceu na geração das nossas mães e avós. O corpo ainda carrega essa memória. E talvez seja por isso que tantas mulheres ainda sintam culpa ao escolher a si mesmas, medo de dizer ‘não’ e dificuldade de viver a própria liberdade.

No caso do Brasil, até 1962, uma mulher casada dependia da autorização do marido para exercer plenamente diversos direitos da vida civil. Somente com o Estatuto da Mulher Casada esse cenário começou a mudar. E foi apenas em 1988 que a Constituição Federal reconheceu, de forma definitiva, a igualdade de direitos entre homens e mulheres.

Isso não é um passado distante. É ontem. Ainda ecoa em nós. O corpo guarda memórias que a mente, muitas vezes, tenta esquecer. E eu pergunto: o que acontece com uma menina que cresce vendo sua mãe enfrentar o mundo sozinha, carregando pesos que nunca deveriam ser apenas dela?

Somos filhas e netas de mulheres cansadas, sobrecarregadas. Mulheres que aprenderam a sobreviver, mas não a descansar. Mulheres que silenciaram suas dores para continuar.

Muitas de nós ainda carregamos essas correntes invisíveis. Vivemos como se estivéssemos presas a um destino que não escolhemos, buscando do lado de fora uma liberdade que sempre começou dentro de nós.

A verdadeira liberdade nasce quando uma mulher decide romper os ciclos, ressignificar sua história e assumir o direito de viver com leveza, dignidade e propósito.

A liberdade não está em algum lugar distante.

A liberdade está dentro de cada mulher. ■

Ana Poltera

Empresária, mentora em Fertilidade & Identidade, criadora do Método Gerar e líder do movimento “E.L.A.S – Foram Chamadas para Gerar”

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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