
O que é a saudade, quem a sente e que tipo de sentimento a caracteriza? É certamente uma coisa muito portuguesa, que até deu origem a um movimento cultural e filosófico conhecido como “saudosismo”, mas seria demasiada presunção acreditar que se trata de um sentimento exclusivamente português.
É uma emoção algo difusa, que qualquer pessoa de qualquer parte do mundo pode sentir de forma distinta.
No vocabulário português tem uma vida intensa e complexa, labiríntica, para citar Eduardo Lourenço, referindo-se a um estado de alma a navegar entre o passado e o futuro, uma esperança associada a memórias, uma forma de melancolia provocada pela ausência.
Esta demanda está magistralmente descrita por um jornalista e escritor sueco que vive há mais de 20 anos no Brasil e escreveu um livro com o nome “Saudade – Cartografia de um sentimento”, como se quisesse fazer um mapa com os nomes, cores, emoções, lugares, rostos e memórias que povoam os dias. No meio do seu nome sueco, o autor tem um nome de ressonância portuguesa: “Brandão”.
Henrik Brandão Jonsson, fascinado pelo universo da lusofonia e pela saudade que nela se movimenta, iniciou ele próprio uma peregrinação para tentar compreender o que significa este sentimento, e fê-lo indo ao encontro de várias comunidades migrantes, dos açorianos e dos cabo-verdianos nos Estados Unidos e dos madeirenses na Venezuela. Procurou as gentes das ilhas, por achar que nelas a saudade se manifesta de forma mais intensa.
Brandão Jonsson despertou para a saudade através do grande ícone da música cabo-verdiana Cesária Évora, ao sentir-se tocado por essa palavra especial, a transbordar significado, introspeção e até algum misticismo.
Cesária tem um lugar especial na projeção global da saudade, por ter cantado um poema popular de 1954 escrito para acompanhar os emigrantes cabo-verdianos que deixavam a sua terra para irem para São Tomé. Mas, acima de tudo, a saudade foi levada pelos portugueses para os quatro cantos do mundo, exprimindo a forte ligação às origens e a tudo o que deixaram para trás. Com as segundas e terceiras gerações, por vezes existe mesmo a saudade do que não se conhece.
A palavra “soidade” terá sido empregue pela primeira vez por um trovador galego para animar os peregrinos que visitavam Santiago de Compostela e depois apadrinhada e reproduzida por D. Dinis, o rei Trovador. É uma palavra que tem muito a ver com a emigração, com o estar longe de algo ou de alguém de que se sente a falta, materializado num sentimento ambíguo de ausência e melancolia.
Os portugueses sabem bem o que é a emigração e, por isso, também a palavra saudade está sempre presente nos muitos grupos em que a comunidade se organiza, na família, nas associações, entre amigos. É uma história de séculos, num vai e vem constante de partidas e chegadas, que deixou pelo mundo uma presença portuguesa indelével. É por isso que nas veias da saudade corre o mar e a poesia, mas também a distância e a ausência.
A saudade pode ter a palavra cunhada em português, mas o sentimento é universal, mesmo que não se exprima verbalmente da mesma forma, com aproximações como a mistura de nostalgia e melancolia. É o sentimento daqueles que vivem entre dois ou três mundos e culturas.
No fundo, o sentimento de algo que falta que se transforma numa emoção complexa marcada pela saudade é mesmo inerente à condição humana e está em todos nós, mesmo que não tenhamos consciência disso.
Como diz Brandão Jonsson, a saudade é “uma palavra única para um sentimento que está a tornar-se norma”, com a mobilidade crescente dos seres humanos pelo planeta. Habitamos lugares que não nos viram crescer, passamos por outros que depois lembramos com saudade, onde voltamos com a sensação estranha de reconhecer os lugares, mas sentindo ao mesmo tempo que eles já não nos pertencem.
É um sentimento permanente de estranheza, de um desejo mais fundo de querermos e não conseguirmos ser donos do tempo nem da memória, que é talvez o que melhor caracteriza a existência humana.
É o tempo que se esvai e a memória que se esbate, numa luta para fixar os momentos que ficam do tempo que passa. ■
Paulo Pisco
Diretor do Departamento de Comunidades do Partido Socialista (PS) português






