“Portugal não termina nas suas fronteiras, continua onde existir um português”

Defesa de uma diáspora mais ligada, participativa e reconhecida está no centro do percurso associativo de João Paulo Rocha, que vê nas comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo uma extensão de Portugal e um espaço privilegiado para aproximar gerações, cultura, economia e identidade

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João Paulo Rocha, primeiro-secretário da Federação das Associações da Diáspora (FAD). Foto: divulgação/João Paulo Rocha/acervo pessoal
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No âmbito do IV Encontro da Federação das Associações da Diáspora (FAD), realizado em Viseu, no centro-norte de Portugal, entre os dias 8 e 9 de agosto, o primeiro-secretário da FAD, João Paulo Rocha, defendeu uma visão da diáspora assente na criação de pontes entre Portugal e os portugueses espalhados pelo mundo.

Foi precisamente a partir deste entendimento sobre o papel da diáspora que, em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, João Paulo Rocha revisitou o seu percurso pessoal, profissional e associativo, iniciado aos 17 anos e meio no setor ferroviário e desenvolvido ao longo de 37 anos, em paralelo com uma crescente intervenção cívica ligada à FAD, à Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear, à Casa de Portugal de Maiorca e ao movimento confrádico.

Ao longo da conversa, o responsável abordou ainda os desafios da renovação geracional do associativismo, a criação de uma rede internacional de mandatários da FAD, o potencial económico da diáspora, a preservação da cultura e das tradições portuguesas, a importância da música na aproximação às novas gerações e os projetos de cooperação com entidades associativas e culturais, defendendo uma diáspora capaz de transformar a dispersão geográfica numa verdadeira rede internacional.

O seu percurso teve início na área ligada às infraestruturas, correto?

Sim, ao sector ferroviário, onde aos 17 anos e meio iniciei na área da topografia, tendo passado pelas expropriações, gestão de frota, apoio a área internacional e com uma pequena passagem pela comunicação e área operacional onde ainda hoje me insiro, são 37 anos dedicados a uma área de grande sensibilidade e de enorme importância para o país e alias uma área que tem um lema com o qual me identifico e trabalho diariamente pro bono que é a de “ligar destinos”.

O seu percurso enquanto dirigente associativo cruza atualmente diferentes áreas: gestão, a diáspora, a economia e a cultura. Como se define enquanto dirigente e gestor?

Talvez, acima de tudo, como alguém que acredita na capacidade de criar pontes. Pontes entre pessoas, instituições, empresas, associações e comunidades. Portugal tem uma realidade muito particular: somos um país pequeno em território, mas enorme na sua presença no mundo. A nossa diáspora é uma extensão natural de Portugal e deve ser encarada como uma força, não apenas como uma realidade distante. É precisamente nessa perspetiva que tenho procurado desenvolver a minha atividade “pro bono público” na Casa de Portugal de Maiorca onde sou sócio e representante em Portugal, Federação das Associações da Diáspora onde sou primeiro-secretário, no Sindicato SNTF onde sou membro da mesa do concelho fiscal, mas também através da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear onde desempenho a função de Secretário-Geral e mais recentemente a minha ligação ao movimento confrádico entre outras.

É atualmente primeiro-secretário da Direção da FAD. O que significou assumir essa responsabilidade?

É uma grande responsabilidade, pois significa ter a capacidade de criar ordem a partir do caos, lançar luz sobre os caminhos e contribuir para a construção de um propósito comum. No que à FAD diz respeito, temos perante nós um desafio muito importante: representar, aproximar e dar voz às associações da diáspora, mas também ajudar a preparar o associativismo para o futuro. Não podemos continuar a olhar para as comunidades portuguesas apenas através dos modelos de há 30 ou 40 anos. Torna-se necessário construir novas pontes, fortalecer os laços que nos unem e preparar, com espírito de união e fraternidade, os caminhos que queremos deixar às próximas gerações. As comunidades mudaram, os portugueses mudaram e as novas gerações têm outras formas de comunicar, de participar e de se relacionar com Portugal. A Federação tem de acompanhar essa transformação.

No “IV Encontro da FAD”, em Viseu, nas últimas semanas, falou precisamente da necessidade de renovação…

Sim. A renovação geracional é um dos grandes desafios que temos pela frente. Muitas associações foram construídas com enorme sacrifício por homens e mulheres que emigraram há décadas. Devemos-lhes muito. Mas temos de garantir que esse trabalho não termina com essas gerações. Precisamos de criar espaço para os jovens, ouvir as suas ideias e dar-lhes responsabilidades. Não podemos pedir-lhes simplesmente que continuem a fazer aquilo que os seus pais e avós fizeram. Temos de lhes permitir construir o associativismo do seu tempo.

Disse em Viseu uma frase que acabou por marcar o encontro: “Portugal não termina nas suas fronteiras. Portugal continua onde existir um português”. O que quis transmitir?

Quis transmitir uma ideia muito simples: a comunidade portuguesa não acaba quando alguém atravessa uma fronteira. Um português que vive em França, na Alemanha, no Luxemburgo, no Brasil, nos Estados Unidos, na Venezuela ou nas Baleares continua a fazer parte de Portugal. A diáspora não deve ser vista apenas como algo que está fora. É uma parte de nós. Portugal não termina nas suas fronteiras. Continua onde existir um português.

Uma das apostas da FAD passa pela criação de uma rede internacional de mandatários. Por quê?

Porque uma Federação que pretende representar associações espalhadas pelo mundo não pode estar distante delas. Precisamos de pessoas no terreno, que conheçam as comunidades, que conheçam as associações, que percebam as suas dificuldades e que possam estabelecer uma ligação permanente com a direção da FAD. A rede de mandatários pretende precisamente criar essa proximidade. Queremos que a FAD esteja presente na Europa, na América do Norte e do Sul, em África, na Ásia e na Oceânia. Não queremos uma rede apenas no papel. Queremos uma rede humana, feita de pessoas que tenham vontade de servir as comunidades.

A sua atividade passa também pela Câmara de Comércio e Indústria Luso-Balear como secretário-geral. Como é que a economia se relaciona com a diáspora?

A diáspora tem uma enorme dimensão económica que nem sempre é suficientemente valorizada. Os portugueses espalhados pelo mundo são empresários, profissionais, investidores e empreendedores. Existem relações comerciais, conhecimentos, contactos e oportunidades que podem ser potenciados. O mundo global não são só os mercados mais apetecíveis, existem janelas de oportunidade que estão muito mal exploradas porque, por vezes, o que consideramos estar mais perto não exploramos e o mercado balear é um mercado dinâmico internacional e uma base importante no mercado da bacia do Mediterrâneo, que temos de explorar. Na CCLB procuramos precisamente aproximar Portugal das Ilhas Baleares e criar condições para que empresas, empresários e instituições possam encontrar interesses comuns. A assinatura do protocolo de cooperação entre a FAD e a CCLB representa também essa vontade de aproximar o associativismo da dimensão económica.

Portanto, a diáspora pode ser também uma plataforma económica, certo?

Sem dúvida, ela já o é em alguns países e, embora os números de portugueses não sejam tão expressivos nas Baleares como no resto da nossa diáspora, sempre são perto de 6000, e se contarmos com os residentes da CPLP aí o número de consumidores do mercado português sobe consideravelmente. Mas não devemos reduzir a diáspora à economia. A economia é uma das suas dimensões. A diáspora é cultura, é língua, é memória, é identidade, mas também é conhecimento, capacidade empresarial e relações internacionais. Quando conseguimos juntar essas dimensões, podemos criar projetos muito interessantes.

Há ainda uma dimensão cultural no seu percurso, através da Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”…

A cultura é absolutamente fundamental, porque é através dela que compreendemos quem somos, de onde vimos e que caminho queremos construir para o futuro. Nascido em Viseu, na então Casa de São Mateus, hoje Hospital Particular, na afamada Reta do Caçador, tenho, desde sempre, uma ligação muito forte e afetiva a esta região. Foi, contudo, numa aldeia do concelho de Vouzela, Cambra, que vivi a minha meninice até aos 12 anos. Como acontece com muitos portugueses, fui registado numa outra aldeia do mesmo concelho, Vermilhas, também conhecida por Carvalhal de Vermilhas, hoje geminada, do ponto de vista autárquico, com a aldeia onde cresci. Foi também a Cambra que regressei durante grande parte dos fins de semana e onde passei muitas das minhas férias. É ali que continuam a viver os meus pais, que procuro visitar sempre que me é possível, assim como os amigos e as pessoas que fizeram parte da minha infância e que continuam ligados à minha vida. Toda esta região, integrada em Lafões e no distrito de Viseu, representa muito mais do que um lugar de origem. São terras que guardam as minhas primeiras memórias, que contribuíram para a minha formação enquanto pessoa e que, inevitavelmente, fazem parte da minha identidade. É nesta paisagem humana e geográfica, entre Viseu, Vouzela, Cambra e Vermilhas, que encontro uma parte essencial das minhas raízes, das minhas memórias e do sentimento de pertença que continuo a transportar comigo, mesmo quando a vida me leva para outros caminhos. Esta ligação à cultura e às tradições começa na própria família. O meu avô paterno foi dirigente associativo de uma Banda Filarmónica e o meu avô materno foi regedor. Mais recentemente, os meus próprios pais fizeram também parte, durante alguns anos, de um grupo de cantares tradicionais. Portanto, a cultura, a tradição, a música e o associativismo não são para mim apenas conceitos ou temas sobre os quais falo: fazem parte da minha história familiar e da minha própria identidade. Costumo dizer que somos a súmula de um passado, de um presente que vivemos e das aprendizagens que nos projetam para o futuro. Somos aquilo que recebemos, mas também aquilo que aprendemos com os outros e aquilo que somos capazes de transmitir às gerações seguintes. É nessa aprendizagem permanente, feita de experiências, de pessoas, de histórias e de territórios, que conseguimos compreender melhor as necessidades reais do nosso país e da nossa sociedade. Foi nesse espírito que, no dia 9 de agosto, fui elevado a Confrade. Recebo esta distinção com enorme honra, mas sobretudo com um profundo sentido de responsabilidade. O movimento confrádico desempenha um papel muito importante na preservação dos saberes, dos sabores, das tradições e da memória coletiva. A nossa identidade não está apenas nos livros, nos arquivos ou nos monumentos. Está também na gastronomia, nos produtos da nossa terra, na música, nas tradições, nas pessoas e nas histórias que passam de geração em geração. E esta identidade assume uma importância ainda maior quando falamos da diáspora portuguesa. Para quem vive longe de Portugal, a cultura é muitas vezes uma das pontes mais fortes com a terra de origem. É através da gastronomia, da música, das tradições, da língua, das memórias familiares e das comunidades que se mantém vivo esse sentimento de pertença. Aliás, a Confraria de Saberes e Sabores da Beira “Grão Vasco”, com sede em Viseu, é um excelente exemplo desta capacidade de levar a cultura portuguesa para além-fronteiras. A Confraria tem vindo a expandir a sua presença internacional através de delegações, núcleos e protocolos com associações da diáspora, nomeadamente em França, no Brasil, na Suíça e, mais recentemente, no Reino Unido. Este trabalho demonstra que a cultura não conhece fronteiras e que as nossas tradições podem ser, simultaneamente, uma forma de preservar as nossas raízes e de aproximar comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Preservar a cultura não significa ficar preso ao passado. Significa compreender o passado para valorizar o presente e construir melhor o futuro. É manter viva a memória, mas também saber reinventá-la e transmiti-la às novas gerações, de uma forma que continue a fazer sentido num mundo em permanente transformação. É também por isso que considero que o movimento confrádico, o associativismo e a diáspora podem caminhar lado a lado. Todos têm a capacidade de preservar a nossa identidade, aproximar pessoas, criar pontes entre Portugal e as suas comunidades no estrangeiro e transmitir às novas gerações aquilo que recebemos das anteriores. Afinal, somos verdadeiramente a súmula de um passado, de um presente e de um futuro que estamos, todos os dias, a ajudar a construir. E talvez seja essa uma das maiores responsabilidades que temos: receber o legado daqueles que nos antecederam, valorizá-lo no presente e entregá-lo às gerações futuras ainda mais vivo, mais forte e mais universal. E essa identidade tem uma importância muito particular quando falamos da diáspora.

Por quê?

Porque quando um português leva consigo a sua cultura para outro país, leva também uma parte de Portugal. A gastronomia, a música, as tradições e a língua são instrumentos extraordinários de ligação. Por isso acredito que o movimento associativo e o movimento confrádico podem trabalhar muito mais em conjunto.

É essa ideia que está por detrás de alguns dos projetos que está a desenvolver?

Exatamente. Este é, aliás, um caminho que também estamos a procurar aprofundar através da própria diáspora. No passado dia 8 de agosto, durante o 4.º Encontro das Associações da Diáspora, a Federação das Associações da Diáspora (FAD) assinou um protocolo de cooperação com a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto (CPCCRD), reforçando uma relação que pretende aproximar instituições, associações e comunidades em torno da cultura, do associativismo e da valorização da nossa identidade. Neste momento, estamos também a iniciar um projeto conjunto entre a Federação das Associações da Diáspora, a Confederação Portuguesa das Coletividades de Cultura, Recreio e Desporto e a Casa Portuguesa de Maiorca, com o objetivo de levar a cultura portuguesa às Ilhas Baleares. Queremos que este seja mais do que um projeto cultural: queremos que seja uma verdadeira ponte entre Portugal e a sua diáspora, criando oportunidades para divulgar os nossos saberes, sabores, tradições, música, património e identidade.

Por quê começar pela música?

Porque a música tem uma capacidade extraordinária de unir pessoas. Um coro pode juntar gerações, associações e comunidades. Não é necessário falar a mesma língua para compreender uma canção. E quando falamos de comunidades portuguesas, os coros podem ser também uma forma de aproximar os mais jovens da nossa cultura.

Esse projeto poderá ser replicado noutros países?

Essa é precisamente a nossa intenção. Maiorca pode ser um primeiro passo. Se conseguirmos criar um modelo de cooperação entre associações, instituições culturais e comunidades portuguesas, podemos depois levá-lo a outros países. A FAD deve ser também um espaço onde os projetos possam nascer, ser experimentados e depois replicados.

Voltamos, assim, à ideia de “ponte”…

Sim. É uma palavra que me acompanha muito. Uma ponte não existe para ficar parada. Existe para permitir que as pessoas passem de um lado para o outro. É isso que devemos fazer enquanto dirigentes: aproximar Portugal das comunidades e aproximar as comunidades de Portugal.

E como se consegue envolver os jovens nesse processo?

Primeiro, temos de os ouvir. Não podemos falar permanentemente sobre os jovens sem falar com eles. Depois temos de lhes dar espaço. Se queremos que participem, temos de lhes confiar responsabilidades. E temos de utilizar as ferramentas que eles utilizam. A comunicação digital, as redes sociais, os projetos internacionais, a música, a cultura, o empreendedorismo e a inovação podem ser portas de entrada para uma nova participação associativa. O associativismo do futuro terá necessariamente de ser mais aberto, mais digital e mais internacional.

Há quem diga que o movimento associativo português atravessa uma crise. Concorda?

Eu prefiro falar de transformação. Existem dificuldades, naturalmente. Algumas associações envelheceram, outras perderam capacidade de mobilização e muitas enfrentam dificuldades para encontrar dirigentes e voluntários. Mas também vejo oportunidades enormes. Temos uma nova geração de portugueses altamente qualificados, ligados digitalmente ao mundo e com uma relação muito forte com Portugal. O nosso trabalho deve ser criar condições para que essa geração descubra no associativismo uma ferramenta para participar e não apenas uma obrigação herdada.

Que papel deve ter a FAD nesse processo?

A FAD deve ser uma plataforma. Uma plataforma de ligação, de cooperação e de conhecimento. Não queremos substituir as associações. Queremos fortalecê-las. Queremos que uma associação portuguesa na Alemanha possa beneficiar da experiência de outra no Luxemburgo; que uma associação em Maiorca possa conhecer um projeto desenvolvido em França; que uma coletividade no Brasil possa estabelecer uma parceria com uma entidade em Portugal. Temos de transformar a dispersão numa rede.

E qual é, afinal, o futuro que imagina para a diáspora portuguesa?

Imagino uma diáspora mais ligada, mais participativa e mais reconhecida. Uma diáspora onde os jovens tenham voz, onde as associações trabalhem em rede, onde a cultura e a economia possam caminhar lado a lado e onde Portugal compreenda que os portugueses espalhados pelo mundo são uma enorme mais-valia. Não podemos olhar para a diáspora apenas como uma consequência da emigração. Devemos olhar para ela como uma das grandes forças de Portugal no mundo.

Se tivesse de resumir o seu próprio compromisso numa frase, qual seria?

Diria que quero ajudar a construir pontes. Pontes entre Portugal e a diáspora. Entre gerações. Entre associações. Entre cultura e economia. Entre tradição e futuro. Porque acredito que temos uma enorme responsabilidade: preservar aquilo que recebemos, mas sobretudo criar condições para que aqueles que vêm depois de nós tenham vontade de continuar. E, no fundo, é isso que significa servir a diáspora: não falar apenas dos portugueses que estão longe, mas trabalhar para que, onde quer que estejam, continuem a sentir que Portugal também é deles.

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