A escritora e cordelista brasileira Susana Morais, residente em Recife, construiu ao longo de mais de duas décadas um percurso ligado à literatura de cordel, expressão literária que atravessa gerações no Nordeste do Brasil e permanece como uma das mais fortes manifestações da cultura popular brasileira.
Natural de Recife, mas com raízes familiares no sertão pernambucano, a autora afirma que a tradição oral e poética da região moldou a sua identidade literária.
“Gosto de contar histórias, gosto de encantar e me encantar, gosto de viver e escrever as histórias. O mundo mágico da leitura me convidou e aqui estou”, afirmou a cordelista ao falar da sua relação com a escrita e com a narrativa popular.
Com mais de 20 anos de atividade, e em entrevista à nossa reportagem, Susana Morais identifica-se sobretudo como cordelista, apesar de também explorar outros formatos literários. A escritora destaca que a literatura de cordel permanece no centro do seu trabalho criativo e do seu compromisso cultural.
“A minha identidade cultural é a literatura de cordel para pequenos e para grandes leitores”, declarou a autora, sublinhando que a prática do cordel envolve tanto a escrita quanto a oralidade, através da recitação pública das histórias que cria.

A autora afirma que a literatura constitui um instrumento de transformação social e cultural, capaz de provocar reflexão e estimular novas formas de olhar o mundo. Segundo explicou, a tradição do cordel está ligada a processos de resistência cultural e de mudança.
“Toda vez que eu conto uma história há essa ideia de transformação, de perceber o mundo através da literatura e perceber como isso afeta quem nos escuta”, afirmou.
Cordel como ponte cultural
No circuito literário, Susana Morais tem participado em eventos e encontros dedicados à literatura popular. No ano passado, esteve presente na Festa Literária Internacional de Pernambuco, a Fliporto Brasil, iniciativa que reúne escritores, investigadores e leitores em torno da produção literária em língua portuguesa. A participação da cordelista contou com o apoio da Editora Imeph, casa editorial brasileira liderada por Lucinda Marques desde o Ceará, que tem apostado na valorização da literatura e da cultura nordestina, valorizando diversos escritores, cordelistas e apostando na educação com projetos editorias de renome.
Experiência luso-brasileira
Além da presença em eventos literários no Brasil, a autora tem levado o cordel a públicos internacionais. Durante uma recente viagem à Europa, realizou atividades ligadas à língua portuguesa e à narrativa oral, incluindo oficinas de cordel e sessões de contação de histórias junto de famílias luso-brasileiras na Alemanha. Para Susana Morais, a circulação da literatura popular em diferentes países reforça a ligação cultural entre comunidades que partilham a língua portuguesa.
A experiência em Portugal também marcou o percurso recente da cordelista. Durante a visita, a autora afirmou ter identificado semelhanças culturais entre o país europeu e o Nordeste brasileiro, sobretudo na valorização das tradições e da memória coletiva. Segundo comentou, a permanência do cordel ao longo do tempo demonstra como a tradição pode adaptar-se sem perder a ligação às suas origens.
“A literatura de cordel muda, moderniza-se, mas não esquece as raízes”, afirmou, sendo ela autora, por exemplo, do projeto “Releitura de fábulas em folhetos de cordel”, que leva o selo da Imeph.
Ao manter viva a prática do cordel entre novas gerações de leitores, Susana Morais inscreve-se numa linha de continuidade da cultura nordestina, onde a poesia popular, a oralidade e a memória coletiva permanecem como elementos centrais da identidade cultural do sertão e das cidades do Nordeste brasileiro.
A sua trajetória reforça o papel da literatura popular como ponte entre territórios, línguas e tradições. ■





