“Mais do que deixar uma marca de afirmação pessoal, desejo deixar um rasto de união, de renovação e de abertura”, afirma nova presidente da Direção da Associação Portuguesa de Poetas

Rose Pereira defende um ciclo de renovação assente na continuidade do trabalho desenvolvido ao longo de 41 anos, na abertura à comunidade e no reforço da poesia como expressão viva na sociedade contemporânea

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Novos órgãos sociais pretendem consolidar o que tem sido bem feito, mas também introduzir novas dinâmicas, incentivar a criação e ampliar o diálogo entre a poesia e outras formas de arte, mantendo sempre como prioridade a dignificação dos autores e da língua portuguesa. Foto: divulgação
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A nova presidente da Direção da Associação Portuguesa de Poetas (APP) para o triénio 2026-2029 assume que a sua eleição, no final de março, representa um “compromisso de continuidade com o trabalho desenvolvido ao longo das últimas quatro décadas”, sublinhando simultaneamente a necessidade de “renovação e abertura da instituição”.

Esta responsável destaca que, no mandato que agora se inicia, pretende “reforçar a presença da associação a nível nacional, aproximar diferentes gerações de poetas e promover novas dinâmicas culturais que valorizem a criação e o diálogo entre diferentes formas de arte”. Rose Pereira defende ainda a consolidação do trabalho já realizado, o reforço da projeção no espaço lusófono e a aposta em iniciativas que aproximem a poesia de novos públicos.

Os novos membros da Direção são: Presidente da Direção: Rose Pereira; Vice-Presidente: Susana Isabel Veiga Dias Branco; Primeira Secretária: Maria Conceição Silva Cotrim; Segunda Secretária: Ana Paula da Rocha Coelho de Sousa Antunes; Tesoureira: Sara Marina Correia Carvalho Timóteo; Presidente da Assembleia Geral: Adélio David Oliveira Amaro; Vice-Presidente da Assembleia Geral: Celso Augusto Torres Cordeiro; Secretária da Assembleia Geral: Maria Antonieta Alentado Oliveira; Presidente do Conselho Fiscal: Igor Pereira Lopes; Primeira Secretária: Maria Isabel Bastos Nunes; Segunda Secretária: Maria Gomes de Almeida Rodrigues Pereira.

Em entrevista à Agência Incomparáveis, Rose Pereira sublinha os objetivos estratégicos do mandato, os desafios da renovação geracional e o papel da Associação na valorização da língua portuguesa.

Após a sua eleição para a presidência da Associação Portuguesa de Poetas, que significado atribui a este momento para a instituição, que agora assinala 41 anos de atividade, e que leitura faz deste novo ciclo?

A minha eleição para a presidência da Associação Portuguesa de Poetas representa, antes de mais, um compromisso de continuidade com o trabalho desenvolvido ao longo dos seus 41 anos de existência, honrando o legado de todos aqueles que contribuíram para afirmar a instituição no panorama cultural português. Este momento tem, para mim, um significado de responsabilidade acrescida, mas também de renovação. Entendo este novo ciclo como uma oportunidade para reforçar a presença da Associação, aproximar diferentes gerações de poetas e promover uma maior abertura à comunidade, valorizando a poesia como expressão viva e necessária na sociedade contemporânea. Pretendemos consolidar o que tem sido bem feito, mas também introduzir novas dinâmicas, incentivar a criação e ampliar o diálogo entre a poesia e outras formas de arte, mantendo sempre como prioridade a dignificação dos autores e da língua portuguesa.

Que perfil define esta nova direção e de que forma essa composição traduz uma estratégia alinhada com os desafios atuais da poesia e da cultura lusófona em Portugal?

Esta nova direção distingue-se pela diversidade de percursos, pela articulação entre experiência consolidada e novas vozes, bem como por um firme compromisso com a criação contemporânea. Para além das competências individuais que a compõem, os seus membros encontram-se maioritariamente distribuídos por diferentes municípios do país, onde têm vindo a desenvolver, ao longo dos anos, um trabalho consistente e enraizado. Esta implantação territorial confere à direção uma maior proximidade às realidades locais, facilitando o acesso, a articulação e a intervenção em diversas regiões. Simultaneamente, esta composição traduz uma estratégia consciente de aproximação entre gerações e de abertura ao espaço lusófono. Procura-se, assim, responder de forma mais eficaz aos desafios atuais da poesia e da cultura em Portugal, promovendo o diálogo, reforçando a visibilidade e acompanhando as novas formas de criação e circulação poética.

Celebração de 41 anos da Associação Portuguesa de Poetas. Foto: divulgação

A celebração do 41.º aniversário, que integra momentos de convívio, sessão poética e encontro cultural, já decorreu sob a sua liderança. Que mensagem pretendeu transmitir com esta iniciativa?

Em especial, afirmar a poesia como um espaço vivo de encontro, partilha e criação coletiva, promovendo o reconhecimento mútuo entre os nossos poetas e o prestígio das suas vozes. No âmbito da celebração dos 41 anos, demos início a um dos nossos objetivos centrais: destacar os nossos autores. Numa singela homenagem a cinco dos nossos poetas, preparámos um “prato poético”, no qual foram distribuídos os seus poemas durante a celebração. Esta valorização será integrada, de forma contínua, em cada evento que iremos fomentar ao longo do tempo. Com esta iniciativa, procuramos dar a conhecer, de forma cada vez mais ampla, a riqueza e diversidade dos nossos poetas associados.

Que objetivos estratégicos estabelece para este mandato, quer no reforço da presença nacional da associação, quer na sua projeção junto do espaço lusófono?

Os objetivos estratégicos para este mandato passam, em primeiro lugar, por reforçar a presença da Associação a nível nacional, promovendo uma maior proximidade às comunidades, descentralizando iniciativas e ampliando a visibilidade dos nossos autores. Paralelamente, pretendemos consolidar a nossa projeção no espaço lusófono, através do estabelecimento de parcerias, intercâmbios culturais e participação em iniciativas que promovam a circulação da poesia em língua portuguesa. Acreditamos que este caminho, assente na cooperação e na abertura, permitirá afirmar a Associação como uma plataforma dinâmica de criação, diálogo e valorização da poesia contemporânea. 

Que tipo de ações e projetos estão previstos a curto e médio prazo para dinamizar a atividade da Associação Portuguesa de Poetas e ampliar o seu impacto cultural?

A curto prazo, é fundamental dar continuidade ao calendário de atividades que tem vindo a ser desenvolvido nos anos anteriores, introduzindo, contudo, novas dinâmicas e formas de expressão. Pretendemos reforçar a realização de tertúlias, tanto em formato presencial como virtual, conciliando a experiência já consolidada com abordagens mais inovadoras. De forma gradual, iremos também implementar outros projetos, como rodas de conversa, encontros culturais e iniciativas de valorização dos nossos autores, tanto em Lisboa quanto em outras regiões do Portugal, respondendo, assim, a um anseio que tem sido manifestado pelos próprios associados. A médio prazo, estas ações permitirão estruturar uma programação mais consistente, participativa e abrangente, capaz de ampliar o impacto cultural da Associação e afirmar, de forma sustentada, a presença da poesia no espaço público. 

Como pretende aproximar a associação de novos públicos, nomeadamente jovens criadores, estudantes e comunidades portuguesas no estrangeiro?

Pretendemos aproximar a Associação de novos públicos através de uma estratégia de envolvimento. De imediato, estamos a estabelecer contactos com instituições ligadas à arte, cultura e literatura, especialmente aquelas onde se concentram públicos mais jovens, com o objetivo de dar a conhecer a Associação e criar oportunidades de participação ativa. Um dos caminhos passa pela valorização dos jograis, uma marca identitária forte da Associação Portuguesa de Poetas, promovendo a iniciação de jovens nesta expressão artística. Contamos, para isso, com associados de vasta experiência, disponíveis para orientar e ensaiar novos participantes, incentivando a criação de grupos jovens no seio da Associação e com possibilidades de se apresentarem em eventos públicos onde a APP tem sido convidada, como escolas e universidades. Acreditamos que esta dinâmica poderá atrair mais jovens e despertar o interesse pelas práticas poéticas, atraindo cada vez mais. Paralelamente, e apesar de esta direção ter iniciado funções há menos de um mês, já registámos a entrada de novos associados, incluindo um poeta com menos de 23 anos, bem como o interesse de outros em integrar a Associação. Este é um eixo que pretendemos reforçar, sobretudo tendo em conta o atual perfil etário dos nossos membros, apostando numa renovação geracional sustentada. No que respeita às comunidades portuguesas no estrangeiro, o intuito é fortalecer ligações através de iniciativas digitais, parcerias culturais e redes de intercâmbio, fomentando a poesia em língua portuguesa como um elo de identidade e ligação entre diferentes geografias. 

Que papel considera que a Associação Portuguesa de Poetas pode desempenhar na valorização da língua portuguesa enquanto ativo cultural e identitário no mundo?

A Associação Portuguesa de Poetas pode desempenhar um papel relevante na valorização da língua portuguesa enquanto ativo cultural e identitário, promovendo-a como um espaço comum de criação, partilha e afirmação no mundo. A língua portuguesa é hoje falada por mais de 260 milhões de pessoas, constituindo um património vivo e plural. Nesse contexto, a Associação conta com um número significativo de associados no Brasil e noutros países de língua portuguesa, o que representa uma oportunidade concreta de reforçar esta dimensão internacional. Importa, por isso, encontrar formas de integrar e incentivar a participação destes associados, nomeadamente através da sua inclusão em coletâneas, da promoção de lançamentos nas suas comunidades e da dinamização de iniciativas como concursos literários em língua portuguesa. Estas ações poderão não só ampliar a visibilidade dos autores, como também atrair novos associados e expandir o papel da Associação enquanto instituição ativa na divulgação e fortalecimento da poesia e da língua portuguesa. Acresce que o facto de a atual presidência da Associação Portuguesa de Poetas ser de nacionalidade brasileira constitui um elemento facilitador desse diálogo e dessa aproximação, permitindo estreitar laços e reforçar pontes entre diferentes geografias. Mais do que uma língua partilhada, a língua portuguesa é um território comum de identidade e expressão, e é nesse espírito que a Associação pretende afirmar-se como espaço de união, diversidade e criação no universo lusófono. 

De que forma a APP pode reforçar a sua presença no ecossistema cultural contemporâneo, incluindo parcerias institucionais, académicas e internacionais?

Através de uma estratégia assente na colaboração e na capacidade de adaptação aos novos contextos culturais. O estabelecimento de parcerias institucionais e académicas será fundamental para criar pontes com universidades, escolas e entidades culturais, promovendo a poesia em espaços de reflexão, formação e criação. Paralelamente, a nível internacional, importa fortalecer ligações no espaço lusófono, incentivando intercâmbios, projetos conjuntos e a circulação de autores e obras. Ao mesmo tempo, é essencial acompanhar as novas formas de comunicação e difusão cultural, integrando plataformas digitais e formatos contemporâneos que permitam alcançar novos públicos. Acreditamos que, através desta rede de parcerias e de uma presença mais dinâmica e integrada, a Associação poderá afirmar-se como um agente ativo, relevante e contemporâneo no panorama cultural. 

Como interpreta a responsabilidade de liderar uma entidade com mais de quatro décadas de história e que legado pretende preservar e transformar? E por que aceitou este desafio?

Assumir a liderança de uma entidade com mais de quatro décadas de história é, para mim, uma honra profunda, mas também uma responsabilidade que abraço com muito respeito. A Associação Portuguesa de Poetas carrega um legado construído com dedicação, talento e visão, e sinto como dever preservar essa herança, e ao mesmo tempo inovar, fortalecer, e expandir o seu alcance. Aceitei este desafio de forma muito consciente, também por incentivo e apoio unânime que fui recebendo, fruto do trabalho que vinha desenvolvendo enquanto coordenadora do acervo e da biblioteca da Associação na direção anterior. Foi nesse percurso que aprofundei o meu contacto com a história da instituição, com os seus poetas e com o valor do que aqui se constrói diariamente. Esta nova etapa coloca-me perante a oportunidade, e o compromisso, de pôr em prática tudo o que aprendi com a experiência dos que me antecederam, honrando o seu contributo, mas também abrindo espaço a novas ideias e caminhos. É, simultaneamente, um desafio e um processo de crescimento pessoal, que assumo com dedicação, sentido de missão e profundo respeito pela poesia e por todos aqueles que lhe dão voz. 

Rose Pereira, nova presidente da Direção da Associação Portuguesa de Poetas. Foto: divulgação

Olhando para o futuro, como gostaria que a sua gestão fosse reconhecida e que marca pretende deixar na Associação Portuguesa de Poetas e no panorama cultural lusófono?

Gostaria que esta gestão fosse reconhecida pela sua sensibilidade, pela sua capacidade de escuta e, sobretudo, pela forma como soube cuidar da poesia, das pessoas e da própria Associação. Mais do que deixar uma marca de afirmação pessoal, desejo deixar um rasto de união, de renovação e de abertura. Que se diga que foi um tempo em que a Associação se tornou mais próxima, mais viva e mais atenta às novas vozes, sem nunca perder o respeito pelo caminho que a trouxe até aqui. Quero que este seja um ciclo de pontes entre gerações, entre geografias, entre diferentes formas de sentir e dizer a palavra poética. Um tempo em que a poesia não esteve apenas presente, mas foi verdadeiramente vivida, partilhada e ampliada no espaço lusófono. Se, no futuro, a Associação for vista como mais forte, mais inclusiva e mais inspiradora, e se mais pessoas se reconhecerem nela como casa e como voz, então sentirei que cumpri, com verdade e dedicação, o propósito que me foi confiado.  ■

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