Opinião: “Domínio do Açor, o projeto luso-brasileiro que vem ganhando destaque na nova vitivinicultura portuguesa”

“Não se trata apenas de fazer vinhos sustentáveis. A ambição é produzir vinhos que expressem, com autenticidade, a singularidade de uma das regiões mais tradicionais e respeitadas de Portugal”

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Otacílio Soares, sócio-gerente da vinícola “Domínio do Açor”. Foto: Agência Incomparáveis
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Em um momento em que o setor mundial do vinho busca respostas para os efeitos das mudanças climáticas, para a mudança no perfil dos consumidores e para a crescente valorização de rótulos mais autênticos, um projeto idealizado por investidores mineiros começa a chamar atenção em Portugal.

O Domínio do Açor, localizado na região do Dão, representa uma nova geração de empreendimentos vitivinícolas. Mais do que produzir vinhos de qualidade, a proposta é compreender o território em profundidade e traduzir essa identidade em garrafas marcadas por ciência, sustentabilidade, precisão técnica e respeito ao terroir.

Quando me perguntam como surgiu o Domínio do Açor, explico que ele nasceu da união de amigos brasileiros, especialmente mineiros, apaixonados por bons vinhos e pelo potencial de Portugal. A ideia sempre foi construir um projeto sério, de longo prazo, capaz de respeitar profundamente o Dão e, ao mesmo tempo, alcançar um padrão internacional de excelência.

Essa visão orienta todas as decisões da vinícola. Em vez de seguir fórmulas prontas ou apostar apenas na boa reputação histórica do Dão, o Domínio do Açor decidiu investir em conhecimento. A propriedade vem sendo estudada de forma minuciosa, levando em conta o solo, a exposição solar, os microclimas, a altitude, o comportamento das castas e a adaptação de cada parcela da vinha.

Poucos projetos vitivinícolas em Portugal fizeram um investimento técnico dessa dimensão desde a sua origem.

Entre os nomes envolvidos está Pedro Parra, uma das maiores referências mundiais em terroir. O seu trabalho consiste em mapear os diferentes perfis geológicos da propriedade e identificar como cada solo pode contribuir para vinhos mais precisos, elegantes e fiéis à identidade do Dão.

Na condução das vinhas, o projeto conta também com a experiência de Marco Simonit, reconhecido internacionalmente pelo seu trabalho de preservação e longevidade das videiras. Conhecido como o “médico das vinhas”, Simonit desenvolveu técnicas de poda que respeitam o fluxo natural da seiva, reduzem o estresse das plantas e contribuem para vinhedos mais equilibrados e resistentes ao longo do tempo.

A sustentabilidade é outro eixo central do Domínio do Açor. O projeto vem incorporando práticas de agricultura biodinâmica, regenerativa e de gestão ambiental, com o objetivo de ir além da simples redução de impactos. A meta é regenerar o ecossistema, proteger a biodiversidade e construir uma relação mais equilibrada entre vinha, solo, clima e paisagem.

Não se trata apenas de fazer vinhos sustentáveis. A ambição é produzir vinhos que expressem, com autenticidade, a singularidade de uma das regiões mais tradicionais e respeitadas de Portugal.

Os primeiros resultados já começam a aparecer. Mesmo sendo um projeto relativamente jovem, o Domínio do Açor tem despertado o interesse da crítica especializada e recebido avaliações expressivas em publicações de referência internacional, incluindo Robert Parker e Jancis Robinson. Esses reconhecimentos ajudam a consolidar a reputação do projeto e funcionam como validação técnica de uma filosofia baseada em rigor, paciência e excelência no campo.

Há também um componente empresarial e cultural que diferencia o Domínio do Açor de muitos outros projetos internacionais no setor do vinho. Sua identidade nasce da aproximação entre Brasil e Portugal.

Idealizado por investidores mineiros apaixonados pelos bons vinhos, o projeto reúne profissionais brasileiros e portugueses em áreas como gestão, enologia, viticultura, sustentabilidade, hospitalidade e comunicação. Essa integração criou um ambiente de troca raro, em que a tradição portuguesa se combina com uma visão empresarial brasileira voltada para qualidade, internacionalização e construção de marca.

Em um cenário no qual Portugal busca fortalecer a imagem de seus vinhos no exterior e agregar mais valor às suas regiões produtoras, iniciativas como o Domínio do Açor mostram que o caminho mais consistente passa pelo investimento em conhecimento, diferenciação e identidade.

A verdadeira transformação no mundo do vinho não acontece apenas na adega. Ela começa no solo, na vinha, na escolha das pessoas certas e na coragem de reunir especialistas de alto nível em torno de um propósito comum.

No caso do Domínio do Açor, esse propósito é claro: produzir vinhos capazes de traduzir, em cada garrafa, a elegância, a complexidade e a autenticidade do Dão.

Mais do que uma vinícola, o projeto tornou-se um exemplo de como capital brasileiro, talento português e excelência internacional podem se unir para construir uma das iniciativas mais promissoras da nova vitivinicultura europeia. ■

Otacílio Soares

Sócio-gerente da vinícola “Domínio do Açor”

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