O Mundial de 2026 está a ser disputado na América do Norte, numa organização partilhada por Canadá, México e Estados Unidos. É a primeira edição da história da competição realizada em três países e também a primeira com 48 selecções, num formato alargado que projecta o futebol para uma escala territorial, mediática e cultural sem precedentes. A prova começou a 11 de junho e termina a 19 de julho, com 104 jogos distribuídos por 16 cidades anfitriãs: Toronto e Vancouver, no Canadá; Guadalajara, Cidade do México e Monterrey, no México; e Atlanta, Boston, Dallas, Houston, Kansas City, Los Angeles, Miami, Nova Iorque/Nova Jérsia, Filadélfia, São Francisco Bay Area e Seattle, nos Estados Unidos.
Neste mapa alargado, o futebol deixou de ser apenas competição e tornou-se também circulação de povos, línguas e identidades. Para a lusofonia, a presença simultânea de Brasil, Portugal e Cabo Verde reforçou a dimensão simbólica de uma língua comum que atravessa continentes e encontrou, neste Mundial, mais um palco global. A bola rolou na América do Norte, mas o eco chegou aos cafés de Lisboa, às praças brasileiras, às ruas da Praia, às comunidades emigrantes e aos milhões que acompanham o futebol também como parte da sua memória afectiva.
A Copa do Mundo de 2026 ficará registada, para quem olha o futebol também como território de identidade, como uma edição em que a língua portuguesa voltou a sair das quatro linhas. Brasil, Portugal e Cabo Verde não chegaram ao fim da prova, mas levaram ao Mundial mais do que equipas, camisolas e tácticas. Levaram sotaques, histórias, símbolos, diásporas e uma cultura comum que tem em Portugal a matriz histórica da língua e encontra no Brasil e em Cabo Verde duas das suas expressões vivas no Atlântico.

O Brasil caiu nos oitavos de final diante da Noruega, por 2-1, num jogo em que Erling Haaland marcou duas vezes e Neymar ainda reduziu de penálti nos descontos. Antes disso, a selecção brasileira tinha liderado o Grupo C, depois do empate 1-1 com Marrocos e das vitórias por 3-0 sobre Haiti e Escócia. No primeiro jogo a eliminar, superou o Japão por 2-1, com golo decisivo de Gabriel Martinelli. Pelo caminho, Vinícius Júnior, Matheus Cunha e o próprio Martinelli apareceram como nomes de referência da campanha, mas a eliminação voltou a mostrar que a camisa pesa, a história cobra e o presente nem sempre responde à grandeza acumulada.
Portugal também se despediu nos oitavos, derrotado por Espanha por 1-0, com golo de Mikel Merino nos descontos. A selecção portuguesa tinha atravessado a fase de grupos com empates frente à República Democrática do Congo e à Colômbia, além da goleada por 5-0 sobre o Uzbequistão, jogo em que Cristiano Ronaldo voltou a inscrever o nome na história ao marcar em seis Mundiais. Nos dezasseis avos, Portugal venceu a Croácia por 2-1, com Gonçalo Ramos a decidir perto do fim. A derrota frente a Espanha fechou a campanha portuguesa e, ao que tudo indica, encerrou também a presença de Ronaldo em Campeonatos do Mundo. Não foi apenas o fim de uma participação. Foi o fecho de uma era que levou Portugal a todos os mercados, ecrãs e conversas do planeta.
Cabo Verde, por sua vez, foi uma das histórias da competição. Na estreia absoluta em Mundiais, empatou com Espanha, Uruguai e Arábia Saudita, terminou em segundo lugar no Grupo H e tornou-se um dos símbolos da nova geografia do futebol. Frente à Argentina, nos dezasseis avos, perdeu por 3-2 após prolongamento, mas obrigou a campeã mundial a jogar até ao limite. Deroy Duarte e Sidny Lopes Cabral marcaram os golos cabo-verdianos, enquanto Vozinha, aos 40 anos, confirmou-se como uma das figuras da prova. O guarda-redes cabo-verdiano talvez se tenha despedido dos Mundiais, mas saiu com aquilo que nem sempre cabe nas estatísticas: reconhecimento.
Há tristeza nas despedidas de Neymar, Cristiano Ronaldo e, provavelmente, Vozinha. Três trajectórias diferentes, três países, três formas de representar a língua portuguesa no futebol. Neymar levou o Brasil entre o talento, a lesão, a cobrança pública e a tentativa permanente de tocar o lugar dos imortais. Ronaldo levou Portugal à escala global, com disciplina, ambição e uma longevidade que obrigou o futebol a rever os seus próprios limites. Vozinha levou Cabo Verde ao centro do mapa, como quem mostra que a dimensão de um país não se mede apenas pelo território, mas pela força com que se apresenta ao mundo.
É legítimo lamentar as eliminações. O Brasil sonhava com o hexa. Portugal procurava a consagração mundial de uma geração com talento em todas as zonas do campo. Cabo Verde queria prolongar uma narrativa que já tinha ultrapassado previsões. Mas o Mundial foi melhor com os três em campo. Foi melhor porque o futebol também é palco de cultura, identidade e circulação de povos. Foi melhor porque, quando Brasil, Portugal e Cabo Verde entram numa Copa do Mundo, entra também a língua portuguesa, com os seus ritmos, as suas memórias, as suas dores e a sua capacidade de reunir comunidades espalhadas pelo mundo.
Para mim, jornalista luso-brasileiro apaixonado pela lusofonia, este Mundial deixa uma certeza: a língua portuguesa não precisa de final para ser notícia. Ela esteve nas bancadas, nas transmissões, nas redes sociais, nas famílias emigrantes, nos clubes, nas conversas de rua e nos silêncios de fim de jogo. A prova decorreu em três países da América do Norte, mas a sua dimensão cultural ultrapassou fronteiras. A língua portuguesa, falada em continentes diferentes, voltou a encontrar no futebol uma forma de presença, afirmação e pertença.
No fim, Brasil, Portugal e Cabo Verde perderam jogos. A lusofonia, não. Saiu do Mundial sem taça, mas com presença. E, no futebol como na cultura, presença também é poder. ■
Ígor Lopes
Jornalista e Escritor
CEO da Agência Incomparáveis







