Opinião: “O Futuro também se escreve nas Duas Margens”, por Diniz Borges

"O jornalismo, a universidade e a responsabilidade de imaginar novos caminhos entre os Açores e a diáspora"

24
Diniz (dennis) Borges, Portuguese Beyond Borders Institute-Director, Portuguese Language-Lecturer - California State University, Fresno. Foto: divulgação/acervo pessoal
- Publicidade -

Durante gerações, uma voz atravessou o Atlântico em cartas, na rádio ligada ao fim do dia, nas páginas de jornais dobrados com cuidado. Trazia notícias de uma ilha, de uma família, de uma festa, de uma partida. Às vezes, trazia apenas a confirmação de que, do outro lado do mar, alguém continuava a lembrar-se de quem partira. Eram palavras que viajavam lentamente, mas transportavam uma extraordinária capacidade de aproximar geografias, preservar afetos e alimentar uma pertença que a distância não conseguia dissolver. Naquelas cartas e naqueles jornais encontrava-se muito mais do que informação: encontrava-se a necessidade profundamente humana de continuar a fazer parte de uma comunidade, mesmo quando a vida nos obrigava a construir uma existência noutro continente.

Hoje, essa voz chega quase instantaneamente. Mas a rapidez com que as palavras atravessam o oceano não garante que as pessoas se compreendam melhor. As notícias aproximam lugares; para aproximar vidas, é preciso escutar o que acontece em cada margem e perceber como uma continua a fazer parte da outra. Vivemos, paradoxalmente, numa época em que nunca foi tão fácil comunicar e em que, por vezes, parece cada vez mais difícil compreender. A abundância de informação não significa necessariamente uma maior profundidade de conhecimento, tal como a multiplicação dos meios de comunicação não assegura, por si só, uma comunidade mais consciente da sua história, das suas responsabilidades e das possibilidades que tem diante de si.

O encontro de profissionais da comunicação social dos Açores e da diáspora da Califórnia, na Universidade do Estado da Califórnia em Fresno (Fresno State), tornou visível essa relação. Num mesmo espaço cruzaram-se os percursos de quem vive nas ilhas, de quem construiu uma vida longe delas e de quem nasceu já num mundo onde a palavra «regresso» pode significar uma viagem a um lugar que nunca se conheceu. Foi também uma oportunidade para refletir sobre aquilo que ainda desconhecemos uns dos outros, sobre as histórias que ainda restam por contar e sobre o trabalho necessário para transformar encontros ocasionais em relações duradouras. Porque uma comunidade transatlântica não se constrói apenas pela evocação das origens: constrói-se pela capacidade de reconhecer interesses comuns, partilhar conhecimento e imaginar projetos com consequências concretas na vida das pessoas.

A Fresno State é uma universidade pública profundamente ligada ao Vale de São Joaquim. Nas suas salas de aula e nos seus projetos de investigação encontram-se a agricultura, as artes, as humanidades, as ciências e a educação: áreas que dialogam diariamente com a vida da região. Para muitos estudantes, chegar à universidade concretiza uma esperança nascida muito antes deles, nas mãos de pais e avós que trabalharam para lhes oferecer possibilidades que não tiveram. A universidade representa, assim, uma das expressões mais significativas da mobilidade social e da transformação entre gerações. É também um lugar onde a memória de uma comunidade pode deixar de ser apenas uma herança familiar e tornar-se objeto de estudo, reflexão, criação e intervenção pública.

Para as comunidades de origem portuguesa, a universidade também pode ser um lugar de descoberta. A língua, a história dos Açores e as experiências da emigração entram ali em contacto com as perguntas das novas gerações. Estudantes podem aproximar-se de investigadores, escritores, artistas, jornalistas e profissionais de ambos os lados do Atlântico. Os intercâmbios e os percursos de estudo permitem-lhes conhecer as ilhas como lugares vivos, habitados por pessoas que enfrentam desafios e imaginam futuros, tal como eles. Mas podemos ir mais longe. Podemos imaginar projetos conjuntos de investigação, residências de criação literária e jornalística, arquivos digitais partilhados, iniciativas de formação e espaços de diálogo onde jovens açorianos e descendentes de emigrantes trabalhem em questões contemporâneas que ultrapassam as fronteiras da identidade cultural. A ligação às origens ganha uma dimensão particularmente fecunda quando se transforma também numa oportunidade de aprender, criar e participar.

Essa aproximação começa pela escuta. Os descendentes dos emigrantes não herdam a pertença de uma única forma. Alguns falam português; outros guardam apenas palavras ouvidas em casa. Há quem encontre os Açores pela primeira vez numa história de família, numa aula, num filme ou numa viagem. Cada descoberta pode abrir uma relação própria com as ilhas, desde que haja espaço para a curiosidade e as perguntas. Importa, por isso, reconhecer que a identidade não pode ser entendida como uma obrigação ou como uma prova permanente de fidelidade às origens. É também uma construção individual, feita de escolhas, encontros e descobertas. Um jovem que não fala português pode sentir uma ligação profunda à história da família; outro, conhecendo a língua, pode procurar compreender de forma diferente o lugar que essa herança ocupa na sua vida. Nenhuma destas experiências deve ser diminuída. Pelo contrário, todas podem enriquecer uma comunidade que se reconhece na diversidade dos seus percursos.

É com essa atenção à comunidade que o Portuguese Beyond Borders Institute (PBBI), da Fresno State, procura desenvolver o seu trabalho. Recolher uma história oral, promover uma conversa pública ou acolher um estudante interessado nas suas origens são formas de pôr o conhecimento a circular. A experiência das famílias e das associações enriquece a universidade; os recursos universitários podem ajudá-las a compreender o presente e a preparar-se para o futuro. Entre ambas existe uma relação que se constrói em encontros concretos, pessoa a pessoa. E essa relação pode ampliar-se através de uma colaboração mais sistemática com instituições açorianas, escolas, universidades, municípios, bibliotecas, museus e organizações culturais. O importante é compreender que a preservação da memória e a criação de oportunidades não são tarefas separadas. Uma comunidade que conhece melhor o seu passado dispõe de instrumentos mais sólidos para interrogar o presente e participar na construção do futuro.

A comunicação social desempenha um papel semelhante numa escala geográfica mais vasta. Pode mostrar aos Açores como vivem as comunidades que deles nasceram e ajudar a diáspora a acompanhar as ilhas para além da memória e da saudade. Pode seguir os debates, as dificuldades e as aspirações de quem ficou, e contar as transformações, conquistas e inquietações de quem partiu. Quando jornalistas de ambas as margens partilham atenção e trabalho, tornam mais completa a história que cada uma conta sobre si mesma. Essa colaboração pode assumir formas concretas: reportagens realizadas em conjunto, intercâmbios profissionais, séries documentais, programas de rádio e de televisão, plataformas digitais de informação e projetos editoriais que deem continuidade às conversas iniciadas em encontros como o de Fresno. Não se trata de criar estruturas excessivamente complexas, mas de aproveitar melhor os recursos, os conhecimentos e a vontade que já existem. Muitas vezes, uma boa ideia, acompanhada de persistência e de uma pequena equipa verdadeiramente empenhada, consegue abrir caminhos que instituições muito maiores nunca chegaram a explorar.

Essa tarefa ganha peso num tempo de incerteza e ruído. Afirmações feitas para circular depressa muitas vezes tomam o lugar de perguntas que exigem tempo. Os populismos encontram terreno fértil nas explicações fáceis e na procura de culpados. Surgem na vida política e governativa, mas também nas comunidades: sempre que a diferença é apresentada como ameaça ou como dificuldade real, transforma-se em ressentimento. A erosão do debate público começa frequentemente quando deixamos de procurar compreender aquilo que nos inquieta e passamos a aceitar respostas que apenas confirmam os nossos receios. Num mundo marcado pela polarização, pela desinformação e pela crescente desconfiança nas instituições, o jornalismo responsável constitui uma necessidade democrática. E essa responsabilidade não termina nas fronteiras nacionais, sobretudo quando as comunidades vivem simultaneamente em diferentes espaços políticos, sociais e culturais.

Ao jornalismo cabe ouvir as preocupações das pessoas e examiná-las com rigor. Apurar os factos, procurar contexto e dar lugar a diferentes experiências permitem distinguir uma necessidade verdadeira de uma resposta enganadora. Uma reportagem pode revelar o que permanecia invisível; uma investigação pode impedir que o medo se instale no lugar do conhecimento. A responsabilidade da palavra mede-se também pelos efeitos que ela deixa na vida de quem a lê, a ouve ou a vê. O jornalismo não tem a obrigação de oferecer conforto permanente, nem de transformar todas as realidades em narrativas celebratórias. Tem, pelo contrário, a responsabilidade de colocar perguntas incómodas, confrontar discursos com factos e reconhecer a complexidade humana que tantas vezes desaparece nas simplificações do debate público. Informar é também respeitar a inteligência dos cidadãos e reconhecer-lhes o direito de formar opiniões com base em conhecimento rigoroso.

Na diáspora, essa atenção podia voltar-se com maior frequência para perguntas que a celebração, por si só, não resolve. As festas guardam trabalho generoso, convívio, música, devoção e uma forma preciosa de transmitir pertença. Contudo, entre uma festa e a seguinte, importa reparar na presença da comunidade nos espaços políticos e culturais da sociedade em que vive. Quem participa nas decisões das cidades? Quem acompanha a escola pública, a universidade, as bibliotecas e os museus? Que oportunidades encontram os jovens para fazer ouvir a sua voz também fora das instituições comunitárias? Como podemos transformar a força associativa acumulada ao longo de gerações numa presença mais consistente na vida cívica, cultural e intelectual das sociedades norte-americanas? E como podemos garantir que a história portuguesa e açoriana seja conhecida não apenas pelos nossos descendentes, mas também pelos nossos vizinhos, colegas e concidadãos de outras origens?

Estas perguntas dizem respeito tanto à comunicação social da Califórnia como à dos Açores. As celebrações merecem ser contadas; as escolhas que afetarão a próxima geração merecem a mesma atenção. Também fazem parte da realidade da diáspora as vidas de quem enfrentou dificuldades, as histórias de quem deixou de falar português e os caminhos de quem procura uma nova forma de pertença. Uma comunidade não se conhece verdadeiramente quando apenas contempla os seus momentos de maior visibilidade. Conhece-se também quando procura compreender os seus silêncios, as suas desigualdades, as suas transformações e as experiências daqueles que raramente aparecem nas fotografias oficiais. É nessa atenção às vidas menos representadas que a comunicação social pode exercer uma de suas funções mais importantes: ampliar o espaço da dignidade e da participação.

Importa igualmente reconhecer que a diáspora açoriana não se limita aos lugares onde tradicionalmente se concentram as suas instituições. Na Califórnia, como noutras regiões dos Estados Unidos e do Canadá, existem descendentes de açorianos que vivem longe dos centros comunitários, não pertencem a associações e, apesar disso, podem desejar uma aproximação à história da família e à cultura das ilhas. A comunicação digital, quando utilizada com imaginação e senso de responsabilidade, oferece possibilidades extraordinárias para alcançar essas pessoas. Um arquivo acessível, uma entrevista bem produzida, uma conversa bilíngue, uma publicação literária ou um projeto audiovisual podem despertar uma curiosidade que nenhuma convocatória tradicional conseguiria alcançar. A diáspora do futuro será necessariamente mais diversa nas suas formas de participação, e as nossas instituições terão de aprender a reconhecer essa realidade.

Há, neste domínio, oportunidades que merecem ser pensadas com particular atenção. Poderíamos estabelecer uma rede regular de colaboração entre profissionais da comunicação social açoriana e jornalistas de origem portuguesa nos Estados Unidos e no Canadá, envolvendo também jovens interessados em jornalismo, escrita, fotografia e produção audiovisual. Poderíamos criar espaços de formação e mentoria, desenvolver projetos de jornalismo universitário e promover encontros digitais periódicos dedicados a temas de interesse comum. Poderíamos ainda incentivar reportagens sobre as novas gerações da diáspora, a presença açoriana nas instituições norte-americanas e as transformações sociais e culturais das próprias ilhas. A ambição não precisaria de começar por grandes programas. Bastaria escolher algumas iniciativas viáveis, definir responsabilidades e assegurar a continuidade. A imaginação abre possibilidades; o trabalho transforma-as em realidade.

Também a circulação de conteúdos culturais pode beneficiar desta colaboração. A literatura, a música, as artes visuais, o cinema e a investigação académica continuam a oferecer um campo extraordinário de aproximação entre as ilhas e as comunidades emigradas. Uma obra publicada nos Açores pode encontrar novos leitores na América do Norte; um escritor da diáspora pode descobrir interlocutores nas ilhas; um documentário realizado por estudantes pode recuperar histórias familiares que, de outra forma, desapareceriam. As traduções, as publicações bilíngues e as plataformas culturais podem permitir que a criação açoriana entre em diálogo com públicos que desconhecem a língua portuguesa, mas estão dispostos a conhecer a riqueza de outras experiências humanas. Neste domínio, o trabalho editorial desenvolvido pelo PBBI, nomeadamente através da Bruma Publications e da revista Filamentos, demonstra como a palavra escrita pode participar nessa circulação de conhecimento, memória e criação.

A própria diáspora pode tornar-se uma ponte para públicos muito mais vastos do que os que se identificam diretamente com a ascendência açoriana. Os Estados Unidos e o Canadá são sociedades profundamente marcadas por histórias de migração, encontros culturais e sucessivas reconstruções de identidade. A experiência açoriana tem muito a oferecer a esse diálogo, precisamente porque contém questões universais: a partida, a adaptação, a memória, a língua, a família, a pertença e a relação entre gerações. Ao contar melhor as nossas histórias, podemos contribuir para que outras comunidades reconheçam experiências semelhantes nas suas próprias histórias. E, ao escutar essas outras comunidades, podemos compreender melhor a nossa própria trajetória. Uma cultura ganha maior relevância pública não quando se fecha sobre a sua singularidade, mas quando consegue fazer dessa singularidade uma oportunidade de encontro.

O encontro de jornalistas em Fresno abriu, assim, uma possibilidade: olhar em conjunto para aquilo que cada margem, sozinha, talvez ainda não tivesse visto. Numa pequena notícia pode estar uma necessidade esquecida; numa entrevista, a voz de alguém que julgava não ter lugar na conversa pública. A dignidade de uma história nunca dependeu da dimensão da ilha ou da comunidade onde ocorreu. Mas seria importante que este encontro não permanecesse apenas como uma recordação agradável ou mais uma iniciativa bem-sucedida no calendário das relações entre os Açores e a Califórnia. O seu verdadeiro significado poderá revelar-se naquilo que vier depois: nas colaborações que se estabeleçam, nas histórias que se contem, nos estudantes que descubram novas possibilidades e nas instituições que encontrem formas de trabalhar em conjunto. Os encontros são importantes porque permitem partilhar no momento; tornam-se verdadeiramente transformadores quando produzem continuidade.

Talvez seja esse um dos desafios mais importantes das nossas relações transatlânticas: passar da evocação à participação, da proximidade sentimental à colaboração efetiva, da celebração das origens à construção de oportunidades para quem virá depois de nós. Não precisamos abandonar a saudade nem diminuir a importância das tradições que nos trouxeram até aqui. Precisamos, isso sim, de lhes acrescentar novas dimensões. Uma comunidade que preserva a memória, mas não investe na curiosidade dos seus jovens, corre o risco de transformar a herança num património sem continuidade. Uma comunidade que celebra o passado e, simultaneamente, cria oportunidades de conhecimento, expressão e intervenção prepara-se para permanecer culturalmente viva, mesmo quando mudam as línguas, as geografias e as formas de pertença.

E tudo isto exige imaginação, mas também trabalho. Exige disponibilidade para ultrapassar rivalidades institucionais, reconhecer competências, partilhar recursos e aceitar que nenhuma organização possui, isoladamente, todas as respostas. Exige generosidade intelectual e uma visão suficientemente ampla para compreender que o sucesso de uma iniciativa pode beneficiar toda a comunidade, independentemente de quem a tenha promovido. O futuro das relações entre os Açores e a diáspora não dependerá apenas de discursos bem-intencionados ou de encontros protocolares. Dependerá da capacidade de transformar ideias em compromissos, compromissos em projetos e projetos em experiências capazes de melhorar a vida cultural, educativa e cívica das pessoas. É um trabalho que não oferece necessariamente resultados imediatos, mas pode deixar marcas profundas nas gerações seguintes.

O Atlântico continuará a guardar partidas, regressos e distâncias que nenhuma tecnologia apaga por completo. Mas as palavras que o atravessam podem levar mais do que notícias. Podem levar perguntas feitas com coragem, factos tratados com cuidado e a atenção necessária para que uma criança nascida na Califórnia reconheça uma voz vinda das ilhas — e alguém nos Açores descubra que a sua história encontrou, também deste lado do mar, quem a escutasse. Talvez seja esta uma das mais belas responsabilidades da comunicação social: não apenas contar o que acontece, mas também ajudar-nos a reconhecer o que ainda podemos construir juntos. Porque o futuro de uma comunidade não está escrito exclusivamente na memória dos seus antepassados. Está também nas oportunidades que oferece aos seus filhos, nas perguntas que permite às novas gerações fazer e na coragem coletiva de imaginar aquilo que ainda não existe.

E talvez, um dia, quando outras gerações procurarem compreender o significado desta longa travessia açoriana, descubram que o mais importante não foi termos conseguido conservar intactas as lembranças de um arquipélago distante, mas termos aprendido a transformar essas lembranças em possibilidades de futuro. Descubram que o mar, tantas vezes associado à separação, se tornou também um espaço de criação, de conhecimento e de solidariedade; que as palavras, quando acompanhadas de responsabilidade e de trabalho, conseguiram aproximar mundos que pareciam destinados a viver separados. E que, entre as ilhas onde começaram tantas viagens e o continente onde floresceram tantas vidas, continuou a existir uma comunidade capaz de se reinventar sem renunciar à sua memória. Porque as verdadeiras pontes não são apenas aquelas que nos permitem regressar ao lugar de onde partimos. São, sobretudo, aquelas que construímos para que outros possam chegar mais longe do que nós alguma vez imaginámos. ■

Diniz (dennis) Borges

Portuguese Beyond Borders Institute-Director

Portuguese Language-Lecturer

California State University, Fresno

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.