
Romeu Martins, CEO e vitivinicultor artesanal da Adega Centenária Malápio, em Aguada de Baixo, Águeda, no centro de Portugal, dedica-se à recuperação da tradição da produção de vinho de talha na Bairrada, através de um projeto que conjuga património, agricultura regenerativa, enoturismo e valorização cultural do território, procurando demonstrar que esta técnica ancestral faz igualmente parte da identidade histórica da região.
Em entrevista à Agência Incomparáveis, o empresário, natural da África do Sul, mas criado na Bairrada pelo avô Aristides, mestre do barro e produtor local, formado em Hotelaria (Chef de Cozinha pela Escola de Hotelaria de Coimbra), Topografia (Universidade de Aveiro) e Vinificação e Conservação de Vinhos (Comissão Vitivinícola da Bairrada), explica como nasceu a Adega Centenária Malápio, aborda o resgate da tradição do vinho de talha na Bairrada, o conceito de enoturismo desenvolvido, o contributo da agricultura regenerativa para a qualidade dos vinhos e os objetivos de crescimento e internacionalização do projeto.
Como nasceu a Adega Centenária Malápio e de que forma a história da sua família influenciou a decisão de preservar a tradição da produção de vinho de talha na Bairrada?
A Adega Centenária Malápio nasceu do desejo de Romeu Martins em resgatar um património familiar adormecido e provar que a vinificação em talhas de Barro não é um exclusivo do Alentejo, mas sim uma herança profundamente enraizada na identidade histórica da Bairrada. A história da adega confunde-se inteiramente com a biografia e as memórias de infância do seu fundador, moldadas por duas grandes influências familiares. A Influência do Avô Aristides e a Arte do Barro – O Mestre do Barro: Romeu Martins nasceu na África do Sul, mas regressou a Portugal com apenas dois anos de idade para viver com o seu avô, Aristides. O avô era mestre do barro e foi encarregado geral da conhecida Cerâmica do Bicarenho durante 55 anos; A Transmissão do Saber: foi o avô Aristides quem ensinou a Romeu os segredos do trabalho com a cerâmica e as lides da agricultura. Nas propriedades da família, o avô produzia o tradicional vinho “Palheto” recorrendo a antigos potes de barro; A Ligação ao Território: a região norte da Bairrada (onde se situam Barrô e Aguada de Baixo) assenta sobre ricas jazidas argilosas. Historicamente, a tecnologia de armazenamento local sempre foi o barro (ao contrário da madeira usada no norte da Europa), uma ligação telúrica que o avô personificava. Depois de ter emigrado e de passar mais de uma década na Dinamarca, onde era topógrafo de formação e chegou a abrir três lojas de pastéis de nata, a sua leitura daquela notícia foi o gatilho emocional e cultural que faltava. O Inconformismo: ao ler na imprensa que o vinho de talha era apresentado como algo exclusivo do Alentejo, sentiu o peso do esquecimento histórico; A Memória Viva: sabendo que tinha as talhas centenárias do seu avô guardadas na Bairrada, e sabendo que ali também se fazia vinho de barro desde tempos remotos, aquela generalização da notícia incomodou-me; A Decisão: foi esse sentimento de injustiça histórica e orgulho bairradino que o fez decidir voltar para Portugal, focado em reabilitar o património da família. Com o avançar dos tempos e a industrialização do setor vitivinícola, os métodos ancestrais do avô Aristides foram gradualmente abandonados na região, sendo substituídos por cubas de inox e barricas de madeira modernas. A antiga adega da família e as suas talhas ficaram esquecidas. Incomodado com o desaparecimento desta memória, Romeu Martins decidiu fazer o caminho inverso – Recuperação Física: Limpou e restaurou a antiga adega centenária de paredes de adobe em Aguada de Baixo; Restauro das Talhas: Recuperou os potes de barro originais do seu avô. Voltou a impermeabilizá-los recorrendo estritamente à técnica ancestral: uma mistura de cera de abelha e resina de pinheiro, sem qualquer intervenção química modernizada; Proteção das Vinhas: Voltou a cuidar das vinhas velhas centenárias em Barrô, que mantêm o sistema medieval de field blend (várias castas antigas misturadas na mesma parcela). O nome Malápio, inclusive, é mais um tributo a essa vivência rural do passado. Trata-se de uma variedade de maçã antiga, muito resistente e comum nas adegas da região, que não precisava de tratamentos químicos e que Romeu fez questão de replantar nas suas terras. Ao lançar o projeto, Romeu Martins transformou a adega num manifesto líquido: demonstrar que o barro preserva a frescura natural das uvas da Bairrada e manter vivo, a cada garrafa numerada, o legado do seu avô.
A Adega Malápio aposta num conceito de enoturismo centrado na autenticidade, na proximidade ao visitante e na valorização do território. O que diferencia esta experiência da oferta disponível noutras regiões vitivinícolas de Portugal?

O que diferencia a experiência de enoturismo da Adega Malápio da oferta das restantes regiões vitivinícolas do país é o seu caráter de antítese ao enoturismo industrial e corporativo. Enquanto muitas regiões apostam em salas de prova minimalistas, produções em larga escala e circuitos padronizados, o Malápio oferece uma imersão crua, altamente personalizada e historicamente disruptiva. Esta diferenciação assenta em quatro pilares exclusivos – A Quebra do Monopólio Geográfico da Talha: o maior elemento de diferenciação cultural é o fator surpresa. O turista que procura vinho de talha em Portugal é invariavelmente direcionado para as planícies quentes do Alentejo. No Malápio, o visitante depara-se com uma realidade paralela: a vinificação ancestral em barro feita num microclima atlântico, rodeado pelas neblinas da bacia do rio Cértima e pela proximidade à Pateira de Fermentelos. Provar um vinho de talha com a acidez elétrica da Bairrada, mas com a textura terrosa e a micro-oxigenação que só o barro centenário proporciona, é uma experiência sensorial que não existe em mais nenhum ponto do país. A Vivência Real do “Artesanato Vitícola” Medieval: muitas adegas modernas recriam conceitos antigos por razões de marketing, mas mantêm processos industriais nos bastidores. No Malápio, a autenticidade é literal e radical; o visitante entra numa adega centenária autêntica e rústica, com paredes originais de adobe, onde viaja ao passado e às raízes e tradições da Bairrada; caminha por vinhas velhas em field blend onde não entram tratores, evitando a compactação do solo e a queima de combustíveis fósseis; pode testemunhar ou participar em trabalhos manuais minuciosos, como a empa tradicional atada exclusivamente com vime natural. Esta ausência de mecanização e a escala humana do projeto fazem com que o turista não se sinta um mero cliente, mas sim uma testemunha de um património vivo e ecológico em vias de extinção. A Gastronomia Identitária no Coração da Adega: o enoturismo em Portugal recorre frequentemente a tábuas de queijos e enchidos standard ou a menus de fine dining despersonalizados. A Malápio eleva a gastronomia local ao fundir o vinho de talha de curtimenta com o prato mais sagrado da região: o Leitão Assado da Bairrada (ou a sandes de leitão da Bairrada). A experiência de saborear o leitão tradicional com a sua pele estaladiça, harmonizado com a frescura e estrutura de um vinho saído de um pote de barro, ali mesmo ao lado das talhas de onde nasceu, cria um momento cénico e cultural impossível de replicar numa sala de restaurante comum. Almoços e jantares vínicos, com os nossos vinhos de talha Bairrada e outros pratos como o arroz de cabidela, rojões da Bairrada, cozido à portuguesa, bacalhau à lagareiro, caldeirada de peixe. O Anfitrião como o Próprio Storytelling: em grandes complexos de enoturismo, as visitas são conduzidas por guias contratados que repetem um guião memorizado. Na Adega Malápio, a proximidade é total porque o visitante é recebido pelo próprio Romeu Martins. É o próprio produtor quem serve o vinho e conta a sua história de vida: a infância com o avô Aristides (mestre do barro), a emigração de mais de uma década na Dinamarca, o inconformismo ao ler a notícia que apagava a Bairrada da rota das talhas e o regresso romântico para salvar as vinhas da família. Esta ligação direta e humana humaniza o vinho de uma forma que o dinheiro ou o marketing corporativo não conseguem comprar. Atualmente, dispomos de 31 experiências de enoturismo integradas e imersivas na região da Bairrada, que abrangem diferentes tipos de públicos: Enogastronómicas e vínicas, Aventura e Lazer, Natureza e Bem-estar, Cultura e Património, Biodiversidade & Território, Educativas & Workshops, Turismo Rural e Alojamento, Corporativas (B2B) & Eventos, Premium & Exclusivas, Sazonais. Cada uma das experiências foi pensada para valorizar o território, promover a região e as suas gentes e integrar outras atividades complementares às visitas às vinhas centenárias e provas de vinho.
Os vinhos de talha são o principal cartão de visita da adega. Que características tornam estes vinhos únicos e como tem sido a recetividade dos consumidores e visitantes a este método ancestral de produção?

Os vinhos de talha da Adega Malápio afirmam-se como o grande cartão de visita do projeto devido ao seu perfil sensorial disruptivo. Ao contrariar a norma da região (focada em cubas de inox e barricas de madeira), este método confere aos vinhos características organoléticas singulares, gerando uma forte onda de entusiasmo no mercado. Características Únicas dos Vinhos – Micro-oxigenação Sem Aromas de Madeira: a porosidade natural das talhas de barro centenárias permite uma troca constante e suave de oxigénio com o exterior. Ao contrário das barricas de carvalho, o barro amacia os taninos e desenvolve o vinho sem mascarar a fruta; Textura e Mineralidade Marcantes: o contacto prolongado do vinho com o barro e a sua curtimenta (contacto com as películas das uvas) transferem uma textura invulgar na boca, acompanhada por uma mineralidade salina e terrosa muito limpa, típica dos solos argilosos junto ao rio Cértima; Frescura e Acidez Vibrantes (Estilo Bairrada): enquanto os vinhos de talha do sul tendem a ser mais quentes e macios, a Malápio consegue transferir para o barro a acidez elétrica e a frescura natural das vinhas velhas da Bairrada devido ao seu microclima. O resultado são vinhos de perfil rústico, mas profundamente elegantes e gastronómicos; Filosofia Sem Filtros (“A Uva Fala Mais Alto”): como são fermentados por leveduras nativas e engarrafados por gravidade diretamente da talha (com sistemas manuais a vácuo para não turvar o líquido), os vinhos retêm uma pureza invulgar. Não procuram a uniformidade industrial, mostrando a variação autêntica de cada colheita; Maturação Lenta: a curta distância que separa as vinhas velhas da costa atlântica traz brisas marítimas e humidade constante. Este fator trava as maturações excessivas provocadas por picos de calor, permitindo que as uvas amadureçam de forma gradual e equilibrada; Acidez como “Ouro”: esta frescura do oceano preserva a acidez natural e vibrante das uvas. É precisamente essa acidez que confere longevidade ao vinho e evita que os brancos e tintos de curtimenta se tornem pesados ou alcoólicos na boca. A Proteção Civil das Serras – Refúgio Térmico: o enquadramento geográfico da vinha, protegida pelas encostas da Serra do Caramulo e do Bussaco, cria uma barreira natural contra ventos excessivamente destrutivos; Fermentação Controlada: esta barreira cria um ecossistema estável onde as leveduras indígenas conseguem trabalhar sem choques térmicos brutais. O Barro como Regulador do Microclima. Nas vinhas, a proximidade à Pateira de Fermentelos e aos arrozais do Cértima gera noites frescas e neblinas matinais. Dentro da adega centenária de paredes de adobe, o barro das talhas atua como o escudo térmico ideal. Ele estabiliza a temperatura de forma orgânica, garantindo que o vinho fermente lentamente e extraia a máxima complexidade aromática daquelas uvas moldadas pelo mar. A resposta do público e da crítica especializada tem superado as expectativas, impulsionada pela crescente busca global por autenticidade – Fascínio pelo “Segredo Guardado”: os visitantes que procuram o enoturismo da adega reagem com surpresa e encantamento ao descobrir que a Bairrada esconde uma herança de talha. O impacto visual de provar um vinho de talha Bairrada produzido em potes/talhas de barro centenárias cria uma forte ligação emocional; Adesão dos Consumidores Urbanos e “Geeks” do Vinho: o projeto tem captado a atenção de uma nova geração de consumidores e sommeliers que rejeitam vinhos padronizados. Rótulos de nicho como os da Malápio esgotam rapidamente devido à sua produção muito limitada e numerada. Sentem que estão a beber algo genuíno, fruto do que a natureza entregou no respectivo ano; Atenção Mediática e Reconhecimento: a audácia de Romeu Martins tem atraído de forma contínua a imprensa regional e nacional, canais culturais e críticos conceituados, uma vez que também é apoiado pelo Prof. Virgílio Loureiro, um comunicador nato sobre a história e cultura do vinho em Portugal. As publicações do setor destacam frequentemente a Malápio como um dos exemplos mais vibrantes da revitalização e do futuro do vinho natural em Portugal.
O projeto combina património, gastronomia, natureza e cultura através de diversas experiências de enoturismo. Que contributo acredita que esta oferta pode dar para reforçar a notoriedade da Bairrada como destino turístico de referência?

A abordagem holística da Adega Centenária Malápio, ao fundir vinho de talha Bairrada, gastronomia identitária, natureza e cultura, atua como um catalisador estratégico para reposicionar a imagem da Bairrada no mapa turístico nacional e internacional. Esta oferta integrada contribui para reforçar a notoriedade da região através de quatro pilares fundamentais – Diferenciação Absoluta através da Rota do Barro: a Bairrada é historicamente reconhecida pelos seus espumantes e pelo Leitão Assado. Ao introduzir o vinho de talha na Bairrada, a Malápio quebra o monopólio narrativo do Alentejo e acrescenta uma camada de exclusividade histórica à região. Isto atrai um perfil de turista altamente qualificado, o “seeker” de raridades e o enófilo cultural, que viaja à procura de microprojetos com histórias autênticas que não se encontram nos circuitos comerciais de massa; Criação de um Destino de Enoturismo de Experiência (e não apenas de Passagem): o turismo moderno valoriza a imersão em detrimento da mera contemplação. Atividades como “Ser Produtor por um Dia”, onde o visitante participa na vindima manual de vinhas velhas ou assiste à abertura das talhas impermeabilizadas com cera de abelha, transformam a Bairrada num destino de permanência. O turista deixa de fazer apenas uma paragem rápida para almoçar leitão e passa a pernoitar na região para vivenciar o ritmo da adega e a natureza local; Valorização e Sofisticação da Gastronomia Local: ao harmonizar o icónico Leitão Assado da Bairrada com os vinhos de talha com curtimenta fermentados em talhas de barro dentro da própria adega centenária de adobe, o projeto eleva a gastronomia regional. Esta envolvência cultural e cénica retira o prato típico do contexto exclusivo dos restaurantes de estrada e insere-lo numa experiência gastronómica premium de storytelling, atraindo críticos, jornalistas internacionais e turistas de luxo; Coesão Territorial e Sustentabilidade Cultural: a localização em Aguada de Baixo (Águeda), na transição com a bacia do rio Cértima, ajuda a descentralizar o fluxo turístico dos eixos mais óbvios da Bairrada. Ao ligar o vinho à antiga arte do barro (homenageando a indústria cerâmica local) e à preservação da maçã Malápio, o projeto promove o turismo sustentável. Ele salvaguarda a biodiversidade e a memória coletiva de uma comunidade inteira, algo que as novas gerações de viajantes valorizam e partilham globalmente. Em suma, a Adega Malápio demonstra que a Bairrada não é uma região vitivinícola unidimensional. Ao unir as vinhas velhas medievais ao turismo de natureza e à herança do barro, o projeto funciona como uma montra de sofisticação que desafia os preconceitos do setor e afirma a região como um destino enoturístico de vanguarda.
A agricultura regenerativa e a preservação das vinhas centenárias fazem parte da identidade da Adega Malápio. Como estas práticas contribuem para a qualidade dos vinhos e para a sustentabilidade da atividade vitivinícola?

A agricultura regenerativa e a preservação das vinhas centenárias são as fundações que garantem a altíssima qualidade e o cariz ecológico dos vinhos da Adega Malápio. Estas práticas ancestrais eliminam a dependência de químicos, regeneram os ecossistemas locais e dão origem a vinhos puros de curtimenta com uma complexidade impossível de replicar industrialmente. Contributo para a Qualidade dos Vinhos – Concentração e Complexidade Natural (Field Blend): as vinhas velhas da Malápio possuem sistemas radiculares profundos que absorvem nutrientes e minerais das camadas mais ricas do solo argiloso. Embora produzam menos quantidade, as uvas têm uma concentração extraordinária de açúcares, acidez e polifenóis. O facto de estarem em field blend (castas misturadas na mesma parcela) gera um equilíbrio biológico perfeito na maturação; Expressão Pura do Terroir (Leveduras Indígenas): ao banir o uso de herbicidas e pesticidas sintéticos na vinha, a adega protege a microbiota natural (leveduras indígenas) presente na película das uvas. São estas leveduras próprias do ecossistema do vale do Cértima que conduzem a fermentação espontânea dentro das talhas, criando vinhos “vivos”, autênticos e livres de padronização industrial; Resistência ao Stress e Sanidade da Uva: plantas centenárias já superaram décadas de variações climáticas, desenvolvendo uma resiliência natural. As uvas colhidas exibem um equilíbrio organoléptico superior, exigindo escassa intervenção ou correção química no processo de adega. Contributo para a Sustentabilidade Vitivinícola – Manejo Medieval de Impacto Zero: a Malápio segue os preceitos da viticultura medieval. Isto traduz-se na ausência de tratores (não usamos tractor) nas parcelas mais antigas, evitando a compactação do solo e eliminando por completo a queima de combustíveis fósseis e a emissão de gases poluentes no cultivo. Na Adega Malápio, o respeito pelas práticas da viticultura medieval estende-se rigorosamente às operações de inverno na vinha. A condução das vinhas velhas assenta na poda de rejuvenescimento, na empa tradicional (empa à morcela, constituição, rabo de leão, em latada, à moda da Grécia e antigo Egipto, entre outras) e no uso exclusivo do vime, eliminando totalmente os materiais plásticos e os atilhos de arame industriais, recuperando uma das artes rurais mais sustentáveis e em vias de extinção em Portugal; Solo Vivo e Retenção de Água: a agricultura regenerativa foca-se na saúde do solo através da manutenção de coberturas vegetais e biodiversidade. Um solo rico em matéria orgânica funciona como uma esponja: retém a humidade das chuvas, combate a erosão e elimina a necessidade de sistemas artificiais de rega (essencial perante as alterações climáticas); Economia Circular e Preservação Genética: ao proteger estas parcelas históricas em detrimento da plantação de monoculturas modernas, a adega salvaguarda o património genético de castas tradicionais da Bairrada que correm o risco de desaparecer. Adicionalmente, as talhas centenárias são revestidas apenas com produtos biológicos e renováveis (cera de abelha e resina de pinheiro), eliminando desperdícios industriais ou plásticos.
O plano de enoturismo para 2026 revela uma estratégia de crescimento e valorização do património local. Quais são os principais objetivos da Adega Malápio para os próximos anos e que mercados nacionais e internacionais pretende alcançar?
Os objetivos estratégicos da Adega Centenária Malápio para os próximos anos centram-se na consolidação do seu modelo de Vitivinicultura de Artesanato, na afirmação da Bairrada como polo histórico do vinho de talha e na expansão em mercados exclusivos de nicho. Principais Objetivos Estratégicos – Afirmação do Enoturismo de Luxo Cultural: o plano para 2026 e anos seguintes foca-se em expandir experiências imersivas “fora da caixa”, como os passeios de jipe off-road pelas vinhas medievais, as visitas guiadas na Bairrada com vista para os arrozais do Cértima, Pateira de Fermentelos. Alargamos a nossa oferta com experiências imersivas, ligadas ao turismo de natureza (desde passeios de bicicleta, pic-nics, tours de buggy, passeios a cavalos e charrete), turismo cultural (desde a visitas ao museu ferroviário e a Fundação Dionísio Pinheiro), turismo de lazer (desde a birdwatching e astronomia na vinha), turismo enogastronómico (com jantares à luz da venda e jantares com chef’s convidados com cozinha ao vivo), entre outras; Resgate do Património Genético e Cultural: alargar a proteção das vinhas velhas em field blend, recuperando castas tradicionais da Bairrada que o mercado global julgava extintas e mantendo a condução de impacto ecológico zero; Posicionamento de Prestígio na “Mínima Intervenção”: consolidar a marca como uma das referências mais expressivas de vinhos naturais em Portugal. O objetivo é provar que a vinificação em talhas impermeabilizadas com cera de abelha e resina respeita e eleva o terroir atlântico da região; Manutenção da Escala Humana: Manter uma produção anual controlada e exclusiva (focada nas edições numeradas) para garantir o manejo 100% manual e a altíssima qualidade de cada garrafa.
Que mercados pretendem alcançar?

Devido ao seu perfil de produção artesanal e muito limitada, a Adega Malápio não procura os mercados de grande distribuição ou consumo de massas. O projeto foca-se estrategicamente em mercados de nicho, de elevado valor acrescentado e focados na autenticidade, divididos em três grandes frentes. Mercado Internacional de Vinhos Naturais e Raros (Exportação) – Norte da Europa e Escandinávia: tendo o fundador Romeu Martins vivido mais de uma década na Dinamarca, este é um mercado natural de expansão. Os países nórdicos têm uma das taxas de consumo de vinhos biológicos, artesanais e de mínima intervenção mais elevadas do mundo; Comunidades e Média Internacional: o projeto já atrai atenções em canais como a Camões TV (focada na comunidade do Canadá), servindo de ponte para os mercados norte-americanos (EUA e Canadá), onde a curiosidade por vinhos ancestrais e “laranjas” (brancos de curtimenta) está em forte crescimento; Importadores de Nicho: o foco está na parceria com importadores boutique especializados em vinhos naturais, um segmento que regista um crescimento acelerado no Brasil. O consumidor urbano brasileiro valoriza cada vez mais o storytelling, a produção artesanal e a exclusividade das garrafas numeradas. Mercado Nacional “Geek” e Restauração de Alta Gama – Garrafeiras Especializadas: lojas de nicho que comunicam o storytelling de vinhos naturais e edições numeradas para colecionadores; Sommeliers e Alta Cozinha: restaurantes/hotéis de referência que procuram vinhos gastronómicos de acidez atlântica acentuada para criar harmonizações disruptivas fora do circuito comercial standard. O Mercado do Enoturismo Exclusivo (Venda Direta na Adega). O principal “mercado” do Malápio é o próprio visitante que se desloca a Aguada de Baixo (Bairrada). Turistas Culturais e de Luxo: viajantes nacionais e estrangeiros que compram diretamente ao produtor após vivenciarem as experiências imersivas, como os almoços/jantares com o tradicional Leitão Assado da Bairrada ao lado das talhas ou os tours 4×4 pela Bairrada. Os turistas brasileiros estão entre os que mais visitam Portugal e são conhecidos pelo seu elevado poder de compra e paixão pela cultura e gastronomia portuguesa. Esta venda direta garante a sustentabilidade financeira do projeto sem depender de intermediários. ■






