
As Rendas do Pico atravessaram o Atlântico insular para chegar a Castelo Branco, na Região Centro de Portugal continental, como testemunho de uma história construída por mulheres, economia familiar e transmissão de saberes. Catarina Isabel Gaspar Manito, presidente da Câmara Municipal da Madalena, na ilha do Pico, Açores, participou na primeira edição da “Bienal Internacional de Artes e Ofícios”, no Centro de Cultura Contemporânea de Castelo Branco, levando ao encontro uma representação da Renda de Farpa, uma das expressões artesanais associadas à identidade cultural do território açoriano.
A iniciativa, que teve lugar entre os dias 4 e 5 de setembro, em Castelo Branco, reuniu representantes de Portugal, Brasil e Cabo Verde para debater património, economia criativa, inovação no artesanato e cooperação entre territórios. Castelo Branco integra desde 2023 a Rede de Cidades Criativas da UNESCO, na categoria de “Artesanato e Artes Populares”.

Em declarações exclusivas à Agência Incomparáveis, Catarina Manito destacou a ligação entre as rendas e a construção da identidade do concelho da Madalena.
“As Rendas do Pico fazem parte da nossa cultura, fazem parte da nossa identidade e do desenvolvimento daquilo que é o povo do concelho da Madalena. Têm também muito a ver com aquilo que é o trabalho da mulher na economia deste território”, afirmou.
A representação levada a Castelo Branco procurou mostrar apenas uma parte de um universo artesanal mais amplo existente na ilha. Segundo a presidente da Câmara, encontram-se identificadas centenas de formas e motivos associados à renda de farpa.
“É um orgulho para nós poder trazer aqui as rosas das Rendas do Pico. Trouxemos uma pequena amostra. Estão identificadas mais de 300 rosas de renda de farpa da ilha do Pico”, revelou.
A Câmara Municipal da Madalena tem vindo a desenvolver um projeto dedicado à valorização deste património artesanal. Segundo informação oficial da autarquia, a iniciativa Rendas de Farpa procura recuperar e divulgar a história, os protagonistas e as técnicas associadas a esta produção, transformando-a também num instrumento de desenvolvimento local e promoção territorial. O projeto conta com cofinanciamento do PRORURAL+.
“Nós desenvolvemos um projeto onde valorizamos a rendeira, temos um Dia Municipal da Rendeira e valorizamos realmente a história associada à renda de farpa”, explicou Catarina Manito.

O município assinala o Dia Municipal da Rendeira a 7 de fevereiro, data associada ao nascimento de Rosa Garcia, apresentada pela autarquia como nome central da chamada Indústria Caseira de Rendas e primeira empresária picarota. A iniciativa procura reconhecer publicamente gerações de mulheres que encontraram nesta atividade uma fonte de rendimento e um espaço de autonomia económica.
A história das rendas está também ligada à estrutura económica e social da ilha do Pico. Durante décadas, a agricultura, a produção de vinho e a atividade baleeira marcaram a economia local. Nas freguesias de São Mateus e São Caetano, a produção das rendas assumiu particular importância para os agregados familiares.
“Enquanto o homem vivia numa ilha marcadamente ligada à agricultura, à produção de vinho e à indústria baleeira, aquilo que sustentava a vida das famílias durante o ano era realmente a produção das rendas”, contextualizou.
A autarca destacou, neste percurso, o papel desempenhado pelas mulheres numa economia em que determinadas atividades masculinas proporcionavam rendimento apenas em períodos específicos.
“A primeira empresária feminina da ilha do Pico era uma compradora e vendedora de rendas. É essa a história que o município resolveu guardar e contar”, salientou.

Este passado está hoje no centro de uma estratégia municipal que procura garantir a continuidade do ofício.
“Estamos neste momento a querer valorizar e fazer passar para o futuro esta arte que tanto nos identifica como povo e que identifica principalmente a cultura e a identidade da mulher da Madalena do Pico”, defendeu.
A relevância histórica e social das rendeiras foi também documentada no filme Rendas de Farpa, promovido pela Câmara Municipal da Madalena e apresentado em 2024 no Auditório da Madalena. O documentário aborda a tradição das mulheres rendeiras, a transmissão das técnicas e o impacto económico desta atividade nas comunidades da ilha, destacando igualmente Rosa Garcia e a organização da produção artesanal feminina.
A Câmara da Madalena está agora a trabalhar no aprofundamento da documentação necessária à proteção deste património. Catarina Manito afirmou que o objetivo passa por “avançar com a certificação das Rendas do Pico”, estando em curso “trabalho de investigação e recolha documental”.
“Estamos a trabalhar para a certificação das Rendas do Pico. O município da Madalena está a desenvolver esse trabalho para que esta arte possa ser perpetuada e guardada para sempre na cultura e identidade do território da Madalena do Pico”, adiantou.
O processo encontra-se, de acordo com a presidente da Câmara, numa fase de preparação técnica.
“Neste momento estamos a fazer o trabalho de pesquisa e investigação. Temos um documentário já feito, recolha de dados e preparação de um dossier que depois será submetido à certificação o mais brevemente possível”, precisou.

A projeção das técnicas açorianas ultrapassa, entretanto, as fronteiras da região. A artista portuguesa Joana Vasconcelos utiliza renda e croché açorianos em diferentes séries do seu trabalho, recorrendo à colaboração de artesãs do Pico. O próprio atelier da artista identifica a utilização de renda de croché dos Açores em várias obras, demonstrando a incorporação destas técnicas tradicionais na criação artística contemporânea.
A exposição apresentada em Castelo Branco permitiu também observar a diversidade formal das rendas. Uma das peças levadas pela autarquia da Madalena reunia dezenas de motivos produzidos pelas rendeiras, muitos deles inspirados diretamente na natureza existente na ilha.
“Temos aqui representado um quadro onde estão 62 das rosas feitas pelas rendeiras do Pico. Elas inspiravam-se nas flores presentes na natureza, naquelas que existiam no nosso território. Temos a flor do maracujá, a margarida e, entre outras, a flor da amora”, descreveu.
A participação deu ainda visibilidade a técnicas particularmente associadas a localidades concretas.
“Temos aqui também a renda de gancho, muito característica da freguesia de São Caetano, onde só as rendeiras de São Caetano faziam esta renda, que é muito específica desta freguesia”, identificou.
A presença da Madalena na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” assumiu uma dimensão adicional pela realização do encontro numa cidade integrada na “Rede de Cidades Criativas da UNESCO”. Para Catarina Manito, apresentar este património num espaço internacional dedicado às artes e aos ofícios representa uma “oportunidade de levar para fora da ilha uma narrativa construída em torno da relação entre cultura, identidade e atividade económica”.
“Significa poder falar, poder apresentar ao mundo aquilo que é cultura, identidade e tradição. Porque não há artesanato sem cultura, não há artesanato sem identidade, não há artesanato sem tradição”, sustentou.

Esta relação entre território e produção artesanal constitui precisamente um dos eixos do projeto desenvolvido pela Câmara da Madalena. A autarquia identifica as Rendas do Pico como património cultural e instrumento potencial de desenvolvimento local, procurando aumentar a visibilidade do trabalho das rendeiras e aprofundar o conhecimento técnico e científico em torno deste saber tradicional.
Para Catarina Manito, contar esta história significa também ampliar a imagem da ilha do Pico para além de elementos do património já reconhecidos internacionalmente, como a paisagem vitivinícola.
“É isso que o Município da Madalena quer fazer: perpetuar, valorizar e mostrar ao mundo que, numa ilha no meio do Atlântico, houve mulheres com capacidade de olhar para a natureza, criar arte e criar economia para as suas famílias”, sublinhou.
A presidente da Câmara sintetizou essa dimensão histórica através da relação entre sobrevivência, criação e identidade coletiva.
“É a resiliência de um povo que não é mostrada apenas através de uma paisagem protegida da vinha e da produção vitivinícola, mas também através da produção das rendas de farpa do Pico”, concluiu.
A participação da Madalena na “Bienal Internacional de Artes e Ofícios” levou a Castelo Branco um património associado à história económica das mulheres da ilha do Pico e a um conhecimento transmitido entre gerações. Entre investigação, documentação, reconhecimento das rendeiras e preparação de mecanismos de proteção, o município procura agora assegurar que uma técnica nascida no quotidiano das famílias continue ligada à identidade e à economia do território.
Também em declarações à Agência Incomparáveis, Sónia Abreu, responsável pela Divisão de Museus e Cultura da Câmara Municipal de Castelo Branco e organizadora do certame, reconheceu que a participação açoriana, mais concretamente do Pico, “surpreendeu” pela positiva, ao trazerem peças da cultura local, sublinhando ainda que essa movimentação “abriu uma possibilidade de continuidade”.
“A disponibilidade foi imediata. Disponibilizaram-se para mandar as peças e, melhor do que isso, a senhora presidente da Câmara Municipal esteve presente nos dois dias da Bienal. Há aqui um envolvimento muito interessante que nós não esperávamos”, assinalou Sónia Abreu. ■






