Argentina: Comunidade portuguesa no país reúne cerca de 200 mil pessoas e enfrenta desafios de “renovação geracional”

Victor Estanqueiro, presidente da Federação de Associações Portuguesas da Argentina (FAPA), analisa os desafios das 18 instituições associadas, a renovação geracional e a preservação da língua e da cultura portuguesas num país com cerca de 200 mil portugueses e luso-descendentes

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Fotos: divulgação/Federação de Associações Portuguesas da Argentina
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A comunidade portuguesa na Argentina enfrenta desafios relacionados com a renovação geracional, a preservação da língua e da cultura e a continuidade das associações fundadas por emigrantes ao longo de várias décadas. Estima-se que cerca de 200 mil portugueses e luso-descendentes residam no país, distribuídos por diferentes regiões, desde a Grande Buenos Aires até à Patagónia. Neste contexto, a Federação de Associações Portuguesas da Argentina (FAPA), que reúne 18 instituições, procura reforçar a cooperação entre clubes, casas regionais e entidades representativas da diáspora, promovendo iniciativas culturais, sociais e educativas, além de manter a articulação com as autoridades portuguesas.

À frente da federação está Victor Manuel Rodrigues Passos Estanqueiro, também presidente do Club Portugués del Gran Buenos Aires, instituição fundada em 1978, em Isidro Casanova, que conta com mais de três mil associados e desenvolve atividades culturais, desportivas e recreativas. O dirigente acompanhou a transição do antigo Conselho das Comunidades Portuguesas da República Argentina, criado em 1982, para a atual federação, cuja consolidação institucional constitui uma das prioridades do seu mandato. Entre os desafios identificados estão a regularização administrativa das associações, a participação dos jovens e a manutenção das atividades que aproximam as diferentes gerações da comunidade portuguesa.

Um dos instrumentos utilizados pela FAPA para compreender a realidade da diáspora foi um recenseamento digital realizado em 2025. Segundo dados apresentados por Victor Estanqueiro, 60% dos participantes compreendem português, mas não o falam, metade nunca visitou Portugal e 36% não participam nas atividades associativas. Os resultados, relativos aos participantes no levantamento, evidenciam questões que a federação pretende enfrentar através do ensino da língua portuguesa, da dinamização cultural e da criação de oportunidades de participação para os luso-descendentes.

Fotos: divulgação/Federação de Associações Portuguesas da Argentina

Em entrevista à Agência Incomparáveis, Victor Estanqueiro analisa o cenário atual da comunidade portuguesa na Argentina, explica o funcionamento da federação e aborda as dificuldades enfrentadas pelas instituições associativas. Este dirigente apresenta ainda os objetivos para os próximos anos, a relação com a Embaixada de Portugal no país, os serviços consulares e o Camões, Instituto da Cooperação e da Língua, bem como a importância de preservar a identidade portuguesa num país onde sucessivas gerações de emigrantes e descendentes continuam a manter ligações a Portugal.

Qual é atualmente o papel da Federação de Associações Portuguesas da Argentina na representação da comunidade portuguesa no país e quais são os principais objetivos que norteiam o trabalho da instituição?

A federação funciona como um grande guarda-chuva que abriga 18 instituições do país. É uma ferramenta importante para os clubes em diferentes áreas, por exemplo, diante da visita de algum representante de destaque da política, arte, cultura, desporto ou ciência de Portugal, basta entrar em contacto com a federação para agendar uma reunião com toda a coletividade unida do país, sem precisar tratar individualmente com cada uma das casas portuguesas. Frequentemente, chegam presidentes de Câmaras Municipais em Portugal; ao entrarem em contacto com a federação, reunimos os imigrantes daquela região que residem na Argentina, alcançando um nível de organização pouco comum em outros países da região. Outro aspeto em que atuamos é facilitar a comunicação das instituições com a embaixada, o consulado e o Instituto Camões. Prestamos assessoria às associações quanto à documentação necessária para funcionarem legalmente, cumprindo os objetivos estabelecidos em seus respetivos estatutos. Disponibilizamos professores de idiomas para qualquer clube que deseje oferecer aulas de língua portuguesa. Elaboramos um calendário de festivais que evita a sobreposição de eventos da coletividade e organizamos datas significativas, como o 10 de junho — Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas (a cada ano, um clube diferente realiza a festa oficial) —, o Dia do Imigrante (quando uma personalidade de cada coletividade é homenageada pelo governo argentino) e os jogos intercomunitários, nos quais participam todos os clubes do país em um dia de confraternização.

Quais associações, clubes, casas regionais ou outras entidades integram atualmente a federação e como se dá a articulação entre essas organizações, levando em conta as diferentes realidades territoriais e associativas existentes na Argentina?

As instituições que compõem a federação são as seguintes: Club Portugués del Gran Buenos Aires, Centro Patria Portuguesa, Casa de Portugal Virgen de Fátima de Villa Elisa, Colectividad Portuguesa de Marcos Paz, Associação Portuguesa de Ciudad Tesei, Círculo Cultural Português Nossa Senhora de Fátima de José C. Paz, Clube Recreativo Português de González Catán, Clube Português de Esteban Echeverría, Centro Recreativo Lusitano de Escobar, Clube Português de Mar del Plata, Coletividade Portuguesa de Oberá (Misiones), Sociedade Portuguesa de Olavarría, Associação Portuguesa de Comodoro Rivadavia, Associação Portuguesa de Socorros Mútuos de Salliqueló, Coletividade Portuguesa de Bahía Blanca; e contamos também com a participação da Associação Mulher Migrante Portuguesa, da Coletividade Portuguesa de Bariloche e da Associação Portuguesa Valle del Chubut. A Federação de Associações Portuguesas da Argentina é composta por delegados titulares e suplentes que representam as diferentes instituições integrantes. Realizamos reuniões mensais em formato híbrido: presencialmente para as instituições situadas num raio de 200 quilómetros da Capital Federal e virtualmente para as demais, devido às grandes distâncias territoriais da Argentina. Alternamos a prioridade de fala a cada mês: num mês, a prioridade é dos participantes presenciais; no mês seguinte, dos representantes do interior do país. Nós, dirigentes desta federação, empenhamo-nos muito para marcar presença em diversos eventos de todas as casas portuguesas que integram a federação. É um grande esforço, pois há clubes no Norte, no Centro e no Sul do país — inclusive a coletividade portuguesa mais austral do mundo.

Quais são os principais projetos e iniciativas que a federação está a realizar ou pretende concretizar nos próximos anos?

Na Argentina, existia desde 1982 o Conselho das Comunidades Portuguesas da República Argentina, que evoluiu para a atual federação; fui presidente do conselho nos seus dois últimos anos e, juntamente com a equipa de trabalho que me acompanha, criamos a Federação de Associações Portuguesas da Argentina. O nosso maior objetivo atualmente é a consolidação da federação — com a sua documentação legal registada na Inspeção Geral de Justiça e estatuto próprio —, visando unir forças para representar, defender, orientar e gerir os interesses comuns de seus membros em maior escala, preservando a autonomia de cada um. A FAPA busca fortalecer a integração e a presença ativa das associações que a compõem. Nos próximos anos, trabalharemos em projetos que divulguem a cultura portuguesa, o ensino da nossa língua, bem como os nossos costumes, tradições e religiosidade; dessa forma, buscamos dar visibilidade a Portugal tanto para pessoas de dentro como de fora da comunidade, abrangendo diversas faixas etárias para que absolutamente ninguém fique de fora.

Como avalia atualmente a comunidade portuguesa e luso-descendente na Argentina? É possível traçar um perfil dessa comunidade em termos de distribuição geográfica, participação associativa, ligação com Portugal e renovação geracional?

No ano passado, esta federação realizou um censo digital que nos forneceu informações sobre a comunidade portuguesa na Argentina com uma precisão inédita. Estima-se que haja 200 mil pessoas, entre portugueses e luso-descendentes, no país; com base nos dados coletados, obtivemos as seguintes informações: Género: 56% mulheres e 44% homens. Escolaridade: 33% com ensino médio completo, 26% com diploma universitário, 18% com ensino superior não universitário (terciário) completo e 17% com ensino fundamental completo. Ocupação: 24% aposentados, 20% funcionários do setor privado, 13% funcionários do setor público, 12% autónomos, 10% comerciantes e 10% estudantes. Nacionalidade portuguesa: 44% possuem, 42% não possuem e 14% estão em processo de obtenção. Via de obtenção da cidadania: 63% como filhos(as), 22% como netos(as) e 3% como descendentes de judeus sefarditas. Documentação em dia: 51% não possuem documentação, 32% possuem o cartão de cidadão, 22% possuem passaporte e cartão de cidadão, enquanto 17% estão com o processo em andamento. Outro dado importante a destacar é que metade das pessoas recenseadas nunca viajou a Portugal. Quanto ao idioma, 60% entendem a língua portuguesa, mas não a falam. 70% aprenderam em casa, 12% fazendo aulas em associações e 18% em instituições acadêmicas. Participam ativamente de associações portuguesas? 30% sempre, 36% nunca e 34% às vezes; um dado relevante é que 72% conhecem uma associação portuguesa em sua região de residência. Quanto à origem da imigração entre os recenseados: 25% têm origem nos avós, 15% nos avós e pais, 13% nos bisavós e avós, 25% nos pais e 10% são nativos.

Qual é, hoje, a situação das associações portuguesas na Argentina? Quais são as suas principais dificuldades?

Todas as instituições foram criadas à custa de muito sacrifício por parte dos seus sócios fundadores, que priorizaram a infraestrutura física; por isso, a maior preocupação atual dos dirigentes associativos é manter em dia a documentação dos clubes (assembleias anuais, relatórios de atividades e balanços, inventários, exercícios contábeis, registo de personalidade jurídica). Das 18 casas portuguesas que integram a federação, dez estão com a documentação em ordem, seis estão em processo de regularização — enfrentando a grande burocracia do país — e outras duas existem apenas formalmente, sem registo oficial. Podemos dizer que essa é a principal preocupação; um dado muito importante é que, mesmo durante a pandemia mundial, nenhuma casa fechou as portas.

Fotos: divulgação/Federação de Associações Portuguesas da Argentina

Hoje, na República Argentina, o Club Portugués del Gran Buenos Aires é a instituição com o maior número de sócios, chegando a mais de três mil associados, e oferece a maior variedade de atividades sociais, culturais e desportivas (mais de 20) da comunidade. Conta também com dois grupos folclóricos, um programa de rádio e uma piscina semiolímpica climatizada.

Os luso-descendentes desempenham um papel determinante na comunidade? De que forma as novas gerações vivenciam as associações?

Como mencionei em respostas anteriores, 24% dos associados são aposentados; ou seja, a escassez de jovens é um denominador comum entre as instituições. Aquelas que mantêm grupos folclóricos dispõem de uma forma importante de atrair luso-descendentes mais jovens, visto que a participação deles na divulgação da cultura ocorre de maneira ativa. Com muita criatividade, os diferentes clubes realizam atividades para atrair os mais jovens, como, por exemplo, atividades desportivas (sejam competitivas ou recreativas), programas de streaming, cursos de língua portuguesa, feiras de gastronomia portuguesa, etc.

Que relação a federação mantém com as autoridades portuguesas, com a embaixada e com os serviços consulares na Argentina? Que medidas ou formas de apoio considera necessárias para fortalecer o movimento associativo?

A comunicação com as autoridades é muito fluída; mantemos conversas constantes com o Excelentíssimo Senhor Embaixador e com a leitora do Instituto Camões, além de trabalharmos lado a lado com o responsável pela seção consular. Para instituições como as representadas pela nossa federação, consideramos fundamental o programa de apoio financeiro do Ministério dos Negócios Estrangeiros destinado à diáspora — esse tipo de programa. Acompanha projetos de cunho cultural que são fundamentais para o desenvolvimento dos objetivos das instituições portuguesas no país. ■

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