“Cresci com duas referências muito diferentes, mas nunca senti que a identidade portuguesa anulasse a identidade venezuelana ou vice-versa”

Entre raízes venezuelanas e uma vida construída em Portugal, Chanttal Mendez encontra na convivência entre duas culturas uma dimensão essencial da sua identidade, num percurso marcado pela “integração, preservação das suas origens e construção de uma perspetiva própria sobre o mundo”

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Venezuela e Portugal têm marcado o percurso e a identidade de Chanttal Mendez. Foto: divulgação/acervo pessoal
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Chanttal Mendez, jovem lusovenezuelana que nasceu e viveu em Caracas antes de se mudar para Portugal aos 10 anos e se fixar em Aveiro, no centro-norte de Portugal, considera que crescer entre duas realidades culturais distintas foi determinante para a construção da sua identidade e para a forma como encara as suas próprias raízes.

Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, Chanttal Mendez revisita o percurso que a levou da Venezuela para Portugal, recordando a infância em Caracas, a mudança de país e a adaptação a uma nova realidade. A entrevistada explica também como preserva no quotidiano elementos da cultura venezuelana, ao mesmo tempo que foi incorporando hábitos e referências portuguesas ao longo dos anos.

Ao longo da conversa, a jovem lusovenezuelana fala ainda da escolha da licenciatura em Relações Internacionais, atualmente frequentada na Universidade Lusíada do Porto, e do percurso desenvolvido no mundo dos concursos de beleza, desde as primeiras experiências na Venezuela até à conquista do título de “Miss Aura Portugal”. Chanttal Mendez aborda igualmente os projetos sociais que pretende desenvolver, os objetivos profissionais e a ambição de um dia representar Portugal num grande concurso internacional.

Nasceu e viveu em Caracas durante a sua infância. Que memórias guarda dessa fase da sua vida e do quotidiano que tinha na Venezuela?

Tenho memórias muito bonitas da minha infância em Caracas. Lembro-me muito da minha família, dos momentos que passávamos juntos, da comida venezuelana, da música e também da forma muito alegre e calorosa como as pessoas são. Foi uma infância muito feliz e guardo muito carinho por essa fase da minha vida. 

Filha de sócios do Centro Português de Caracas, Chanttal Mendez passou grande parte da infância naquele espaço. Foto: divulgação/acervo pessoal

Aos 10 anos, mudou-se com a sua família para Portugal, onde viria a fixar-se na cidade de Aveiro. Como viveu essa mudança e o que levou a sua família a escolher Portugal e, em particular, Aveiro para começar uma nova etapa?

Foi uma mudança muito grande para mim, porque tinha apenas 10 anos e deixei para trás a minha família, os meus amigos e tudo aquilo que conhecia. No início foi difícil, porque era uma realidade completamente diferente. Decidimos vir para Portugal porque já tínhamos raízes portuguesas: a minha avó, por parte da minha mãe, era portuguesa. Por isso, Portugal sempre foi um país que de alguma forma esteve presente na nossa família e acabámos por decidir vir para cá e começar uma nova etapa da nossa vida. Foi em Aveiro que acabámos por nos fixar e onde fui crescendo e construindo a minha vida. 

Aveiro tornou-se a cidade onde Chanttal Mendez cresceu e começou a construir a sua vida em Portugal. Foto: divulgação/acervo pessoal

Hoje, tantos anos depois, que hábitos, tradições ou costumes venezuelanos continua a preservar no seu dia a dia e quais foram os hábitos portugueses que acabou por adotar?

Acho engraçado porque há coisas que nunca saem de nós. Em casa, por exemplo, continuo a sentir muito a Venezuela através da comida, das expressões que usamos em espanhol e da música que a minha família põe. É daquelas coisas que me fazem sentir logo em casa. Mas, ao mesmo tempo, já tenho imensos hábitos portugueses. Cresci aqui, fiz amigos aqui, estudei aqui… por isso já me sinto muito portuguesa em muitas coisas do dia a dia. Acho que, sem dar por isso, fui criando uma mistura muito bonita entre os dois países.

Sente que cresceu com duas identidades culturais muito presentes – a venezuelana e a portuguesa? De que forma essa experiência de viver entre duas culturas influencia a pessoa que é hoje?

Sim, e acho que isso acabou por se tornar uma das características que mais me define. Cresci com duas referências muito diferentes, mas nunca senti que a identidade portuguesa anulasse a identidade venezuelana ou vice-versa. Pelo contrário, acho que fui construindo a minha própria identidade a partir das duas. Cresci com referências muito diferentes, mas nunca senti que uma anulasse a outra. Pelo contrário, acho que fui construindo a minha própria identidade a partir das duas. Também acho engraçado porque, às vezes, estou com os meus amigos e eles até se esquecem que sou venezuelana. Para eles, sou simplesmente a Chanttal que cresceu em Aveiro. Mas depois há certas situações em que percebem logo de onde vêm algumas coisas da minha personalidade. Viver entre duas culturas ensinou-me sobretudo a não olhar para o mundo de uma única perspetiva. Acho que me tornou mais curiosa, mais aberta às diferenças e também muito mais consciente das minhas próprias raízes.

Está a estudar Relações Internacionais na Universidade Lusíada do Porto. O que a levou a escolher esta área de estudos e que aspetos desta formação considera mais interessantes?

Acho que sempre tive uma certa curiosidade pelo que acontece para além daquilo que está à nossa volta. Gosto de perceber porque é que os países tomam determinadas decisões, como funcionam as relações entre eles e, principalmente, como essas decisões acabam por ter impacto na vida das pessoas. Escolhi Relações Internacionais porque é uma área muito abrangente e que me permite olhar para o mundo de várias perspetivas. O que mais gosto no curso é precisamente essa ligação entre política, economia, sociedade e diferentes culturas. E acho que, por ter crescido entre a Venezuela e Portugal, sempre tive uma curiosidade maior por diferentes países e realidades.

Formação em Relações Internacionais acompanha a vontade de Chanttal Mendez de compreender diferentes países e realidades. Foto: divulgação/acervo pessoal

Quais foram os principais prémios, distinções e experiências que marcaram o seu percurso, até ao momento, no mundo dos concursos de beleza e que valores/mensagens procura transmitir através da sua participação nestes eventos?

Os concursos de beleza fazem parte da minha vida desde muito nova. Comecei o meu percurso na Venezuela, onde ganhei o título de Miss Princesita no Centro Português e, mais tarde, participei no Mini Belleza Venezuela, representando o Distrito Capital. Quando vim para Portugal, continuei a seguir este caminho. Participei no Miss Aveiro, onde fui eleita Miss Teen Aveiro 2023 e, nesse mesmo dia, recebi também o título de Miss Teen Popular. Tive depois a oportunidade de representar Aveiro na final nacional do Miss Teen Portugal, uma experiência que me marcou muito. Mais recentemente, fui coroada Miss Aura Portugal, que é uma conquista muito especial para mim e que também representa uma nova fase neste percurso. Para mim, os concursos nunca foram apenas sobre beleza. Deram-me confiança, disciplina, capacidade de comunicar e, acima de tudo, uma plataforma para poder transmitir uma mensagem. Quero mostrar que podemos usar estes títulos e esta visibilidade para muito mais: para inspirar, dar voz a causas importantes e fazer algo positivo pela sociedade.

Entre Venezuela, Aveiro e Miss Aura Portugal, Chanttal Mendez transformou a beleza numa plataforma para transmitir uma mensagem. Foto: divulgação/acervo pessoal

Depois de tudo o que já conquistou, quais são agora os próximos objetivos, projetos e sonhos que gostaria de concretizar?

Sinceramente, sinto que ainda estou muito no início. Tenho 20 anos e há muitas coisas que quero experimentar, aprender e construir. Neste momento, uma das minhas prioridades é terminar a minha licenciatura em Relações Internacionais e continuar a minha formação, porque gostava de construir uma carreira que me permita trabalhar num contexto internacional e estar em contacto com diferentes países e realidades. Ao mesmo tempo, quero muito que o meu percurso nos concursos tenha um propósito. Agora que sou Miss Aura Portugal, gostava de aproveitar esta oportunidade para desenvolver projetos sociais e usar a minha voz para ajudar outras pessoas. É uma parte que me diz muito, porque não quero que uma coroa seja apenas um título bonito, quero que tenha significado. E, claro, tenho sonhos que ainda parecem um bocadinho grandes, mas que não deixo de ter. Um deles é um dia poder representar Portugal num dos grandes concursos internacionais. Quero continuar a preparar-me, crescer enquanto mulher e perceber até onde consigo chegar. No fundo, não tenho propriamente um único sonho. Tenho várias versões da pessoa que quero ser no futuro, e acho que a parte mais bonita vai ser descobrir, pelo caminho, qual delas vou acabar por me tornar.

Dinis Gonçalves

Estágio curricular supervisionado

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