Eddie abre os bastidores da criação e revela como nasce uma canção entre “intuição, produção e identidade”

Cantautor e produtor português explica o processo que transforma uma ideia em música, fala da escolha dos músicos, do trabalho de estúdio e da procura por uma linguagem própria entre Portugal, Espanha e o universo latino

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Cantautor-produtor português Eddie, nome artístico de Edgar Pinto. Foto: divulgação/acervo pessoal
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Eddie, nome artístico do cantautor e produtor português Edgar Pinto, construiu um processo criativo em que composição e produção surgem praticamente ao mesmo tempo. As canções podem nascer de uma palavra, de uma frase, de uma melodia, de uma sensação ou até de uma imagem, mas o ponto de partida é quase sempre uma primeira intuição. A partir daí, o artista procura perceber a atmosfera, a respiração e o espaço que a música pede, trabalhando em simultâneo a letra, a melodia, os arranjos e a direção sonora. Para Eddie, a criação não segue uma fórmula rígida e exige escuta, experimentação e capacidade para reconhecer quando uma canção deve avançar, recuar ou simplesmente esperar.

Nos bastidores, esse método prolonga-se à escolha dos músicos, à construção dos arranjos e às decisões de estúdio que podem alterar o destino de uma composição. Eddie valoriza a técnica, mas também a sensibilidade, a confiança e a capacidade de cada músico compreender a intenção da obra. É nesse equilíbrio entre visão autoral e colaboração que surgem temas como “El Otro Lado de Mí”, “No Puedo Vivir Sin Ti” e “Sueño”, canções que traduzem diferentes fases de uma linguagem onde convivem pop, influência andaluza, ritmos latinos, eletrónica e memória pessoal. Na entrevista à Agência Incomparáveis, o artista detalha esse percurso e explica o que acontece antes de uma música chegar ao público, quando ainda está a ganhar forma entre a intuição, o silêncio e as escolhas feitas dentro do estúdio.

Quando nasce uma música, o que vem primeiro, a ideia, a letra, a melodia ou o som que imaginas para ela? Como funciona essa metodologia, no teu caso?

A ordem pode variar. Por vezes nasce de uma palavra, frase, melodia, sensação ou até de uma imagem. Normalmente existe uma primeira intuição e, a partir daí, vou percebendo o caminho. No meu caso, composição e produção convivem desde muito cedo. Enquanto estou a escrever costumo imaginar a atmosfera, o som, a respiração da música e como palavra, melodia e produção podem fluir. Depois há trabalho, escuta, escolhas e experimentação, mas tento respeitar o que a canção vai pedindo.

Como escolhes os músicos e formas a banda certa para transformar uma ideia numa gravação?

A escolha parte da música e do que procuro para a produção. A qualidade técnica conta, mas o lado humano é igualmente importante. Gosto de trabalhar com boa gente, com respeito, confiança e boa energia. Valorizo a sensibilidade, a capacidade de ouvir, perceber a intenção da canção e o papel de cada instrumento dentro da obra. O processo de composição e pré-produção costuma ser mais solitário. Como cantautor e produtor trabalho muito os arranjos, cada nuance, as dinâmicas e a direção que quero seguir. Às vezes chego a detalhes muito específicos da interpretação, do ataque, do timbre ou da intensidade que imagino para determinado instrumento. Os músicos entram numa fase mais adiantada da produção. Pode haver espaço para sugestões e para o que cada um possa acrescentar se fizer sentido. Trata-se de servir a música. Deixar o ego um pouco de lado e colocar o talento individual ao serviço da canção e da visão que fui construindo enquanto cantautor e produtor. Ao vivo pode haver mais margem e liberdade para os músicos porque algumas obras ganham vida própria. O dia, o espaço, o público e a cumplicidade entre os músicos podem ir alterando pequenas nuances de interpretação ao longo do tempo. Noutras canções acontece menos. Depende da obra e do momento.

No estúdio, em que momento percebes que uma canção deixou de ser apenas uma boa composição e pode tornar-se um hit?

Por vezes começamos simplesmente a sentir uma determinada atmosfera. Parte da intuição e da experiência e nem sempre tem uma explicação imediata ou totalmente racional. Depois consigo desmontar um pouco a sensação e perceber o que está a acontecer. A prosódia, a relação entre palavra, melodia e ritmo, a interpretação, as dinâmicas e a própria produção acabam por criar uma unidade. Há sinais mais concretos que ajudam a confirmar a intuição. Uma melodia que fica, um refrão que se afirma com naturalidade, uma interpretação que encontra o tom certo ou simplesmente a vontade de voltar a ouvir a canção. É quando sinto que existe potencial e que se criou algo especial. Sobretudo quando vou para casa com uma sensação de felicidade e passo o resto do dia ou da noite com a canção na cabeça. Se, depois, a canção se transforma num hit já é outra história. Entram o público, o momento, a forma como a música circula, a promoção e outros fatores que ultrapassam o estúdio. Posso sentir que se criou uma canção especial. Até onde poderá chegar já não depende apenas da música.

E ao contrário, quando uma música deixa de ser interessante ao tornar-se uma gravação, aposta-se nessa composição ou recua-se?

Pode acontecer, embora hoje com menos frequência. Com os anos fui conhecendo melhor o meu processo criativo e aperfeiçoando a composição e a produção com estudo, prática e experiência. Geralmente percebe-se cedo se as ideias, a criação ou a escrita deixam de fluir com naturalidade. Se uma música começa a exigir demasiado trabalho ou sentimos que estamos a encaixar ideias à força, é sinal de que pode não estar a seguir o melhor caminho. Acontece mais facilmente quando existe pressão para criar ou lançar uma nova canção antes do momento certo. Não gosto da ideia de trabalhar a música como uma linha de montagem. Há momentos em que é melhor recuar, retirar, simplificar, deixar descansar ou até guardar o que estava a nascer durante algum tempo. Com alguma distância percebe-se melhor se havia realmente potencial para se transformar numa canção.

“El Otro Lado de Mí” conquistou prémios em diferentes mercados. O que aconteceu dentro do estúdio para aquela música ganhar essa dimensão?

Foi um exemplo do que descrevia antes. A canção foi coproduzida com o Ernesto Leite, com quem trabalho há muitos anos. Durante a produção houve momentos muito concretos em que ambos sentimos que estava a acontecer algo difícil de pôr em palavras. Trocávamos olhares e comentários porque percebíamos que aquela música tinha mesmo de acontecer. Havia quase uma sensação física, como se por instantes conseguíssemos observá-la a nascer de fora. A inspiração andaluza estava presente e integrada na minha linguagem, juntamente com outros elementos rítmicos e até um piano com certo ar salsero. Fomos trabalhando cada detalhe sem tentar encaixar a música à força num género específico. Há momentos que ultrapassam a técnica e até a própria prosódia. A sensação é quase a de que a canção já existia e o nosso trabalho foi encontrá-la e trazê-la à vida. A última vez que me lembro de ter sentido algo assim com esta intensidade foi quando terminei em 2021 a produção de “Dime Dónde Estás”, na versão em dueto com Isabel Remartínez. Teve algumas distinções, mas mais do que isso marcou o início de uma nova etapa e abriu várias portas para o mercado espanhol e outros mercados hispanos. Com “Sueño” voltei a sentir o mesmo de forma ainda mais intensa.

Entre “El Otro Lado de Mí”, “No Puedo Vivir Sin Ti” e “Sueño”, o que mudou na tua forma de compor, produzir e gravar?

Diria que houve uma continuidade natural, embora sejam três canções com identidades diferentes. “El Otro Lado de Mí” marcou uma aproximação mais clara ao universo andaluz que já fazia parte de mim e que ganhou maior presença no meu repertório. “No Puedo Vivir Sin Ti” é diferente das outras duas. Nasceu numa linguagem pop-dance e foi pensada como uma canção de verão para desfrutar e dançar, mas permitiu-me explorar uma faceta mais eletrónica e dance de que gosto. Há uma componente muito pessoal. A inspiração veio do período em que estudei e vivi em Madrid no início dos anos 2000. Há muito tempo queria fazer uma produção que me remetesse para a juventude, os bares, as ruas e os lugares que frequentava e que ficaram no meu subconsciente. Musicalmente construí-a com programação eletrónica, groove, várias camadas vocais e uma sonoridade bastante distinta. Em “Sueño” retomo a ligação à Andaluzia, mas sinto que a influência andaluza surge hoje de forma ainda mais fluida na minha linguagem. Se houve uma mudança, está menos no processo em si e mais na forma como hoje trabalho enquanto cantautor e produtor. Com o tempo fui deixando de separar tanto as duas funções. Hoje, composição, arranjo, produção e gravação fazem parte de um processo mais integrado e já quase não penso onde termina uma e começa a outra.

Hoje, fazer uma boa música não garante um hit. Depois de fechar a porta do estúdio, qual é o maior desafio para fazer uma canção chegar ao público?

Penso que o maior desafio seja dar visibilidade à canção e criar espaço para que chegue ao público. Vivemos num mercado onde todos os dias surgem novos lançamentos e o consumo é cada vez mais rápido. A canção pode ter qualidade, identidade e potencial e ainda assim passar despercebida. Quando termina a etapa da produção musical começa uma fase diferente, mas igualmente importante. Há todo um trabalho de comunicação e promoção que passa pela imprensa escrita e online, rádios, televisões, plataformas, pitch para playlists, parcerias, passatempos, showcases, entrevistas e muitas viagens. Implica um investimento financeiro considerável e uma gestão de agenda exigente quando envolve vários mercados e países. Para mim é essencial que cada lançamento não seja tratado apenas como mais uma canção, nem pelo artista nem pelas equipas que trabalham com ele. Por trás da promoção e dos números continua a existir uma obra artística que leva uma parte de quem a criou. Nunca sabemos até onde pode chegar ou que lugar poderá ocupar na vida de alguém. O espaço disponível nas rádios, nos festivais, junto dos programadores e curadores, nas plataformas e nas playlists é limitado. Por cada canção que consegue visibilidade muitas outras ficam de fora e nem sempre por falta de qualidade. Contam o suporte, o investimento, a promoção, o momento e a capacidade de levar a música aos lugares certos. Por isso, procuro não entrar numa corrida permanente por números e dar às músicas tempo para encontrarem o seu público.

Que projetos musicais tens hoje em mente e em preparação?

Tenho um par de canções em preparação e algumas colaborações internacionais a avançar em fases diferentes. Há trabalhos já bastante definidos e outros que ainda precisam de algum tempo antes de serem revelados. Quero continuar a trabalhar entre Portugal, Espanha e outros mercados onde a minha música tem vindo a encontrar espaço. As colaborações com artistas de outras culturas interessam-me pela possibilidade de cruzar sonoridades, formas de cantar e maneiras diferentes de construir uma canção. “Sueño” continua muito presente e ainda tem caminho para percorrer. Ao mesmo tempo preparo os próximos trabalhos sem sentir necessidade de lançar música apenas para cumprir um calendário.

O que pode o teu público esperar dos novos trabalhos?

Quero aprofundar a ligação à Andaluzia e ao universo latino e dar ainda mais liberdade às influências que fazem parte de mim e da minha música. Nos próximos trabalhos quero continuar a trabalhar o ritmo, a percussão, as guitarras e as sonoridades latinas, com o pop como uma base importante. Há espaço para a cumbia e para outros ritmos latino-americanos cruzados com a componente ibérica e mediterrânica presente no meu repertório. Não quero transformar nenhuma influência numa fórmula. Posso fazer uma balada se for o que a canção pede ou uma produção mais eletrónica quando fizer sentido. Quero continuar a deixar espaço à criatividade, experimentar fusões novas e trabalhar com novas vozes e músicos. Cada canção pode seguir o seu caminho sem eu deixar de me reconhecer na música que faço. ■

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