Elly Poloni: Um percurso entre os palcos, a cultura brasileira e a vida na Suíça

Residente na Suíça desde 1995, artista e modelo brasileira participou no “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, onde abordou os desafios que enfrenta como paciente oncológica; o seu percurso reúne dança, moda, produções na Ópera de Zurique e prémios pela divulgação da cultura brasileira na Europa, onde continua em plena atividade

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Elly Poloni, durante o “Conexão Global Suíça”, em Lausanne. Fotos: Agência Incomparáveis
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A carreira nos palcos, a experiência de emigrar e os desafios de saúde estiveram no centro do testemunho de Elly Poloni no “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, no passado dia 25 de setembro. No encontro dedicado ao tema “Setembro Amarelo: Conectar é Acolher”, que acolheu uma grande comunidade lusófona nas instalações da Eglise du Centre, esta profissional natural do Brasil participou num formato de talk show e falou sobre os últimos quatro anos da sua vida como paciente oncológica. Residente na Suíça desde 1995, apresentou um percurso que começou nos concursos e na moda em Brasília, passou por 26 anos de dança na Europa e continua nas palestras e na escrita da sua biografia.

Natural de Brasília, capital do maior país da América do Sul, Eliane Leite Silva, conhecida artisticamente como Elly Poloni, é filha de Moisés Martins Silva, pernambucano, e de Divina Rodrigues Leite, goiana de Pirenópolis. Em declarações à Agência Incomparáveis, identifica-se também como esteticista, massagista holística, micropigmentadora e professora de etiqueta. A atividade artística ocupou uma parte da sua vida profissional, através de apresentações em que levou o folclore brasileiro a públicos na Suíça e noutros países europeus.

A relação com o palco começou na escola, num período marcado pela “timidez” e por episódios de “bullying”. Elly recorda que, aos seis anos, foi exposta perante a turma depois de a professora não lhe permitir ir à casa de banho. Seguiram-se comentários de colegas sobre a sua aparência física, que contribuíram para que evitasse participar nas atividades escolares.

Uma professora de artes incentivou-a, mais tarde, a integrar uma apresentação. A experiência permitiu-lhe estar diante de outras pessoas sem sentir o “julgamento que enfrentava no quotidiano”. Depois, num concurso de dança, encontrou numa máscara uma forma de se apresentar com “maior liberdade”.

“Aquela máscara me fez muito forte porque eu me escondi atrás dela”, recordou. Inspirada nos movimentos de rock do pai, venceu o concurso e começou a envolver-se mais nas atividades da escola.

Outro momento ocorreu quando um profissional visitou a escola para selecionar jovens para uma sessão fotográfica. Elly não esperava ser escolhida, mas ficou entre as selecionadas.

“Ele viu algo em mim que eu não enxergava”, contou. Segundo o seu relato, as fotografias alteraram a forma como era vista pelos colegas e contribuíram para uma mudança na sua relação com a própria imagem.

Os concursos abriram caminho ao trabalho como modelo. Começou por vencer uma competição na comunidade onde vivia, ganhou o “Garota Brasil” e ficou em terceiro lugar no “Miss Brasília”. Vieram depois os desfiles e as campanhas publicitárias. Trabalhou também na Manchete, tradicional revista no Brasil, como telefonista, após formação nessa área, e participou em pequenas vinhetas de publicidade. No Rio de Janeiro, concorreu ao “Garota Manchete” e ao “Garota Pantera”, associado a Ricardo Amaral.

Foi através de contactos estabelecidos no Rio de Janeiro que surgiu a primeira viagem à Suíça. Elly chegou como turista e ficou temporariamente em casa de uma conhecida ligada à exploração de um restaurante. Nesse período, conheceu o homem com quem viria a casar. Regressou ao Brasil, manteve o contacto por telefone e, posteriormente, instalou-se na Suíça, levando a filha.

A adaptação trouxe dificuldades relacionadas com o “frio, a distância da família e o isolamento em casa”. Elly relata que a participação numa festa latina lhe permitiu conhecer um grupo de dança brasileiro, ao qual se juntou. Os ensaios e as apresentações ajudaram-na a criar relações e a inserir-se no país.

“Comecei a me conectar, a me inserir no mundo aqui na Suíça”, explicou.

A dança passou a integrar a sua vida profissional durante 26 anos. Participou em grupos e escolas de samba, apresentando manifestações da cultura brasileira dentro e fora da Suíça. Foi musa da “Unidos Pelo Samba”, em Lausanne, e recebeu os títulos de “Princesa” e de “Rainha da Corte da Suíça”, no âmbito do “Intercâmbio Cultural Mais Brasil”.

A carreira como modelo incluiu capas das revistas Light, Brasil-Night, Hochzeit e Braut Hochzeit, além de campanhas publicitárias para a Mary’s, ligada ao segmento de vestidos de noiva. Contou ainda com a oportunidade de trabalhar com a estilista e artista plástica Suelli Bomfim.

Elly Poloni, durante o “Conexão Global Suíça”, em Lausanne, ao lado da empresária Ana Poltera. Fotos: Agência Incomparáveis

O percurso nos palcos estendeu-se a produções no Opernhaus Zürich, a Ópera de Zurique, além de participar em montagens como “Macbeth” e “Electra”, acrescentando uma dimensão à carreira que, na nossa entrevista, Elly descreve sobretudo através da “dança, do samba e da divulgação do folclore brasileiro”.

Entre os reconhecimentos, Elly destaca o “Troféu Destaque” recebido em 2018 das mãos de Roberto Miguel Rey Júnior, conhecido como Dr. Rey, cirurgião plástico e apresentador brasileiro. Em 2024, voltou a ser distinguida com o mesmo troféu, desta vez entregue por Rodrigo Faro, famoso apresentador brasileiro. A cerimónia dessa edição realizou-se em abril, no hotel The Dolder Grand, em Zurique.

Em 2022, venceu a premiação “Melhor do Brasil na Europa”, na categoria “Show e Entretenimento”. O prémio foi entregue por Rafael dos Santos, idealizador do evento e diretor da “High Profile Magazine”, e por Luiza Brunet, numa cerimónia no “Gustave Eiffel Lounge”, na Torre Eiffel, em Paris. Elly foi ainda agraciada, em 2023, com a premiação “Força, Seu Nome é Mulher”, movimento de empoderamento e empreendedorismo feminino, fundado por Patrícia Sarinho.

Elly recorda também a coroação por Adele Fátima quando recebeu o título de “Rainha da Corte” do “Intercâmbio Cultural Mais Brasil”, uma iniciativa que associa a Milton Cunha, carnavalesco, cenógrafo, psicólogo, professor universitário e comentarista de carnaval brasileiro, apresentando a coroação como “um dos momentos de reconhecimento do seu trabalho na Europa”.

Saúde como foco, além dos palcos

Em Lausanne, especificamente nas últimas semanas, a sua intervenção centrou-se sobretudo na saúde e no período em que reduziu a presença nos palcos. Elly explica que quis partilhar a experiência oncológica e aquilo que a tem ajudado a enfrentar o tratamento.

“Eu decidi falar sobre a minha saúde porque em quatro anos eu estou passando por desafios de saúde”, afirmou, sublinhando que o objetivo “foi transmitir força a pessoas que atravessam situações semelhantes”.

No seu testemunho, destacou a “fé, os pensamentos e a atividade física” como dimensões do seu apoio pessoal durante este processo. A participação no encontro permitiu-lhe também ouvir outras histórias. Refere que encontrou inspiração nas intervenções das restantes participantes e na possibilidade de “reunir mulheres com experiências, profissões e origens diferentes”.

A ligação entre mulheres é um dos temas que procura levar às suas intervenções públicas. Elly define a “sororidade” como uma relação de “apoio e de partilha”, que pode continuar mesmo à distância, através da Internet. Agradece à empresária Ana Poltera, organizadora do evento em Lausanne, o convite para integrar o encontro e destaca a possibilidade de “criar relações entre mulheres que procuram desenvolver as suas atividades e os seus projetos”.

Elly Poloni, durante o “Conexão Global Suíça”, em Lausanne. Fotos: Agência Incomparáveis

Essa perspetiva traduz-se, na sua visão, na disponibilidade para ajudar através de palavras e ações.

“Eu posso estar pronta a ajudar o próximo com uma palavra, com uma ação”, observou. Ao mesmo tempo, diz procurar relações que “contribuam para o crescimento pessoal e para a troca de experiências”.

A vida na Suíça é também abordada a partir da experiência familiar. Elly valoriza a “segurança” que sente no quotidiano e a possibilidade de os filhos “usufruírem de espaços públicos e da natureza”. Ao recordar a comunidade onde cresceu no Brasil, refere dificuldades relacionadas com a “pobreza e a criminalidade”, realçando que “procurou construir para a família uma realidade diferente”.

Agenda preenchida e atuais projetos no velho continente

Entre os próximos compromissos, prevê participar na “Gala Força, Seu Nome é Mulher”, idealizada por Patrícia Sarinho, onde voltará a ser homenageada.

A escrita é a etapa seguinte desse percurso. Elly prepara uma biografia que deverá ser lançada em fevereiro de 2027, e manifesta a intenção de a apresentar no Salão do Livro de Genebra. Segundo apurámos, o livro reunirá “memórias de infância, a experiência no Brasil, a mudança para a Suíça, a carreira artística e os desafios de saúde”.

Ainda durante a nossa entrevista, referiu estar a concluir um tratamento de quimioterapia, mantendo a participação em palestras e a preparação do livro.

“Eu não penso na dor, eu penso só na solução, na saúde”, declarou.

Depois de décadas a apresentar a cultura brasileira nos palcos europeus, procura agora partilhar o seu percurso através da palavra e da escrita.

Uma história de superação e sonhos realizados

Ao recordar a infância, Elly Poloni descreve uma menina que sonhava ser modelo, miss e dançarina, mas cuja timidez era agravada pelo bullying na escola. Em casa, encontrava espaço para se expressar: dançava diante da porta do frigorífico, que usava como espelho, imitava Madonna e criava personagens. As imagens do Carnaval na televisão alimentavam o desejo de, um dia, ocupar também um palco.

Elly Poloni. Foto: divulgação/acervo pessoal

A seleção para uma sessão fotográfica, após a visita de um “olheiro” à escola, ajudou-a a mudar a forma como se via. Para ela, os episódios de bullying diminuíram e começou a reconhecer capacidades que antes desvalorizava. A participação em concursos de dança e de beleza, seguida das oportunidades na moda, permitiu-lhe enfrentar a vergonha e construir o percurso que acabaria por levá-la à Europa.

Hoje, Elly associa essa transformação à decisão de “avançar, apesar do medo”. Ao partilhar a sua história, procura transmitir a outras mulheres e jovens a importância de reconhecerem o próprio valor e de não deixarem que o julgamento alheio determine as suas escolhas.

A menina que dançava em casa tornou-se uma artista que encontrou nos palcos, e agora também na palavra, uma forma de se expressar e contar o seu percurso. Certamente, será uma vida que dará um livro, muito em breve. ■

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