Opinião: “Da Inocência Roubada ao Ciclo de Abusos que Ainda Aprisiona Mulheres”, por Ana Poltera

“Quando uma criança é obrigada a crescer rápido demais, a suportar responsabilidades que não lhe pertencem ou a conviver com situações traumáticas, sua energia deixa de estar voltada para o desenvolvimento saudável. Sua mente passa a trabalhar para sobreviver”

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Ana Poltera, CEO do programa “Gravidez na Maturidade”, líder do movimento “E.L.A.S Foram Chamadas para Gerar”, autora de várias obras, mentora em Fertilidade & Identidade e criadora do método “Gerar”. Foto: divulgação
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O abuso raramente começa na vida adulta. Na maioria das vezes, suas raízes estão nos primeiros vínculos, dentro de ambientes que deveriam oferecer proteção, segurança e confiança. Surge através de pessoas próximas, justamente aquelas de quem uma criança deveria poder depender sem medo.

A criança que um dia foi silenciada cresce. Torna-se adulta, constrói relações, escolhe carreiras, busca caminhos para se reinventar. Mas as marcas permanecem. E, muitas vezes, o ciclo continua até que uma mulher encontre forças para interrompê-lo.

Ao longo de anos de atendimento e escuta de mulheres em diferentes contextos, uma realidade se repetiu inúmeras vezes: muitas acreditavam estar sozinhas em sua dor. A busca por aprovação, validação e pertencimento transforma-se numa necessidade constante. E, por vezes, elas se entregam a relacionamentos, projetos ou promessas vazias porque carregam feridas que nasceram muito antes da vida adulta.

O primeiro abuso nem sempre tem nome.

Nem toda violência chega de forma explícita. Às vezes, manifesta-se através da ausência, da frieza, da rejeição, da instabilidade emocional ou da desvalorização constante. Frases aparentemente simples podem tornar-se feridas profundas:

“Você não vai dar em nada.”
“Você não é ninguém.”
“Você faz tudo errado.”
“Você não fez mais do que a sua obrigação.”

Para um adulto, podem parecer palavras ditas em momentos de impulsividade. Para uma criança, tornam-se verdades. E a criança acredita.

É nesse momento que o ciclo começa.

Quando uma criança é obrigada a crescer rápido demais, a suportar responsabilidades que não lhe pertencem ou a conviver com situações traumáticas, sua energia deixa de estar voltada para o desenvolvimento saudável. Sua mente passa a trabalhar para sobreviver. Ela cresce em estado permanente de alerta, aprendendo a identificar riscos antes mesmo de aprender a confiar.

Muitas dessas crianças apresentam dificuldades de concentração, de aprendizagem e de convivência. Frequentemente são rotuladas como desinteressadas, distraídas ou problemáticas. Na realidade, estão ocupadas tentando encontrar formas de lidar com um ambiente emocionalmente inseguro.

Existe ainda uma forma de violência frequentemente normalizada pela sociedade: a privação da infância através do trabalho precoce.

Muitas crianças são levadas a assumir responsabilidades incompatíveis com a sua idade. Em vez de brincar, aprender, descobrir o mundo e desenvolver-se emocionalmente, passam a carregar preocupações que pertencem aos adultos. Algumas trabalham para complementar a renda familiar; outras assumem funções de cuidado dentro de casa, tornando-se responsáveis por irmãos, familiares ou tarefas que ultrapassam a sua capacidade emocional.

Quando uma criança precisa sobreviver antes de aprender a viver, algo essencial lhe é retirado.

O acolhimento infantil não significa apenas proteger contra a violência física ou sexual. Significa garantir o direito de ser criança. Significa oferecer escuta, afeto, segurança emocional, educação e oportunidades de desenvolvimento saudável. Uma sociedade que exige produtividade antes de oferecer proteção corre o risco de perpetuar formas silenciosas de negligência.

Toda criança merece crescer sem o peso de responsabilidades que pertencem aos adultos. Porque uma infância preservada não é um privilégio. É um direito fundamental e uma das formas mais eficazes de prevenir futuros ciclos de abuso, exploração e vulnerabilidade.

Em muitos casos, o perigo está dentro da própria casa.

E o silêncio pode durar décadas.

Sentar-se à mesa com a família e fingir que tudo está bem torna-se uma rotina. A dor é escondida. O sofrimento é normalizado. A infância torna-se confusa, a identidade é distorcida e a criança aprende a sobreviver em vez de viver.

Mais tarde, essa mesma criança pode tornar-se uma mulher vulnerável a novas formas de abuso.

O ciclo repete-se nos relacionamentos afetivos, no ambiente de trabalho, nos negócios e, cada vez mais, no mercado digital.

Ao longo de conversas realizadas tanto na Suíça quanto em Portugal, uma dor comum surgiu entre inúmeras mulheres: a sensação de terem sido manipuladas emocional, psicologicamente e financeiramente dentro do mercado digital.

Não se trata apenas de fraudes evidentes ou crimes facilmente identificáveis. Muitas vezes, trata-se de mecanismos mais subtis e difíceis de reconhecer. Promessas grandiosas, discursos inspiradores, estratégias sem fundamento sólido e expectativas irreais levam mulheres a investir recursos significativos na esperança de transformação pessoal ou profissional.

Em troca, recebem resultados desproporcionais ao investimento realizado.

São relações profissionais desequilibradas, construídas sobre vulnerabilidades emocionais profundas. Mulheres que entregam recursos, tempo, energia e confiança porque acreditam numa promessa. Mulheres que adoecem enquanto tentam provar o seu valor.

O problema é que quem já foi ferido tende a normalizar sinais de abuso.

Muitas vezes, quando uma mulher está sendo abusada novamente, ela não percebe o que está acontecendo. O padrão parece familiar. A necessidade de agradar, provar valor ou conquistar reconhecimento foi aprendida muito antes, ainda na infância.

Por isso, quebrar o ciclo exige consciência.

Exige olhar para a própria história e reconhecer que determinadas dores não começaram no presente. Exige compreender que o abuso não é apenas um acontecimento isolado, mas um padrão que pode atravessar gerações, ambientes e relações.

A boa notícia é que ciclos podem ser interrompidos.

Quando uma mulher reconhece a sua história, compreende as suas vulnerabilidades e aprende a identificar relações desequilibradas, ela deixa de repetir automaticamente aquilo que um dia lhe foi imposto.

A dor deixa de ser um destino.

E passa a ser o ponto de partida para uma transformação profunda, individual e coletiva.

Porque nenhuma mulher deveria carregar sozinha uma ferida que pertence a uma realidade compartilhada por tantas outras.

Proteger as mulheres começa por proteger as crianças. Acolher uma criança hoje é impedir que ela precise passar a vida inteira tentando curar sozinha as feridas de uma infância roubada. Quando garantimos segurança, afeto, dignidade e pertencimento às nossas crianças, não estamos apenas cuidando do presente. Estamos transformando o futuro. ■

Ana Poltera

CEO do programa “Gravidez na Maturidade”, líder do movimento “E.L.A.S Foram Chamadas para Gerar”, autora de várias obras, mentora em Fertilidade & Identidade e criadora do método “Gerar”

Instagram: @anapolteraoficial

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

 

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