Opinião: “Um país bonito para visitar, mas cada vez mais difícil para viver”, por João Paulo Rocha

“Portugal está a envelhecer. Em 2025 havia cerca de 189 idosos por cada 100 jovens. Por trás desta estatística está uma realidade muito mais humana. É o pai que começa a precisar de ajuda. É a mãe que já não consegue viver sozinha. É o filho que vive noutra cidade ou noutro país e passa noites preocupado”

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João Paulo Rocha, primeiro-secretário da Federação das Associações da Diáspora (FAD)
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Portugal continua a ser um país bonito, seguro e acolhedor. O sol, o mar, a gastronomia e a nossa forma de receber fazem-nos ser admirados lá fora. Mas existe um Portugal que não aparece nas fotografias dos turistas. É o Portugal de quem trabalha, paga impostos, procura casa, cria filhos e tenta chegar ao fim do mês. E esse Portugal está cansado.

Há uma geração que estudou, trabalha e fez tudo aquilo que lhe disseram ser necessário para ter uma vida melhor. Mas depois descobre que o salário não chega para comprar uma casa. Arrendar também pode significar entregar uma parte enorme do rendimento todos os meses. E assim, muitos continuam em casa dos pais até muito mais tarde. Não por falta de vontade de sair. Mas porque sair se tornou demasiado caro.

Há quem tenha partido há 10, 20 ou 30 anos. Construiu uma vida lá fora, criou filhos, comprou casa e encontrou melhores condições. Mas nunca deixou de chamar Portugal a casa. Um dia pensa em regressar. Volta, olha para os preços das casas, compara salários, impostos e serviços públicos. E faz uma pergunta dolorosa: Será que ainda consigo viver no meu próprio país? Em 2024, mais de 33 mil pessoas emigraram permanentemente de Portugal. Cerca de 28 mil eram portugueses. São números. Mas por trás de cada número existe uma família, uma história e, muitas vezes, uma despedida.

Portugal precisa de imigração. Precisamos de trabalhadores, de jovens, de profissionais e de pessoas que contribuam para a nossa economia e para a sustentabilidade da Segurança Social. Mas também precisamos de perguntar por que razão tantos portugueses continuam a partir. Não devemos colocar quem chega contra quem nasceu cá. Devemos criar condições para que ambos possam construir uma vida digna em Portugal. Esse deveria ser o objetivo.

Portugal está a envelhecer. Em 2025 havia cerca de 189 idosos por cada 100 jovens. Por trás desta estatística está uma realidade muito mais humana. É o pai que começa a precisar de ajuda. É a mãe que já não consegue viver sozinha. É o filho que vive noutra cidade ou noutro país e passa noites preocupado. É a família que procura um lar e descobre que não existem vagas ou que o preço é incomportável. Envelhecer não deveria significar ter medo do futuro. Nem deveria obrigar os filhos a escolher entre cuidar dos pais e trabalhar.

E quem cuidará de nós? Esta pergunta deveria estar no centro da política portuguesa. Hoje preocupamo-nos com os nossos pais. Amanhã seremos nós. Um país desenvolvido não se mede apenas pelas estradas que constrói ou pelo número de turistas que recebe. Mede-se também pela forma como trata quem já deu uma vida inteira ao país. A dignidade na velhice não pode depender da carteira.

Portugal tem hoje mais médicos do que há dez anos. Mas isso não impediu que muitos portugueses continuem a enfrentar dificuldades para conseguir uma consulta ou um médico de família. O mesmo acontece quando alguém espera meses por uma cirurgia ou passa horas numa urgência. E aqui os números deixam de ser números. É uma pessoa com dor. É um filho preocupado. É um idoso sozinho. É uma família que não sabe quando chegará a sua vez. Um serviço público só é verdadeiramente bom quando responde a quem precisa dele.

Educar uma criança é preparar um país. Mas não podemos pedir aos professores que façam tudo quando as condições de trabalho se tornam cada vez mais difíceis. Falta de docentes em determinadas áreas, envelhecimento da profissão, deslocações e instabilidade acabam por afastar quem deveria estar concentrado numa única missão: ensinar. E quando uma escola não consegue garantir professores, não estamos apenas perante um problema da escola. Estamos perante um problema do nosso futuro.

O Estado arrecada hoje muito mais receita do que há dez anos. Os portugueses sabem disso. Sentem-no todos os meses no salário, no supermercado, na renda, na eletricidade, no combustível e nos impostos. Por isso, quando olham para os serviços públicos e encontram dificuldades na saúde, justiça, educação ou habitação, surge uma pergunta perfeitamente legítima: para onde está a ir todo este esforço? O cidadão não pede milagres. Pede que o Estado funcione.

Nos últimos dez anos tivemos diferentes governos e diferentes prioridades. Mas há problemas que atravessam todos eles. A habitação continua por resolver. A demografia continua a agravar-se. A Justiça continua demasiado lenta. A saúde continua sob pressão. A educação enfrenta dificuldades. A Segurança Social enfrenta um enorme desafio demográfico. São problemas que não desaparecem quando muda um primeiro-ministro. Portugal precisa de políticas que durem mais do que uma legislatura.

Vivemos também numa época em que parece mais importante anunciar do que resolver. Uma obra inaugurada. Uma fotografia. Uma publicação nas redes sociais. Um número apresentado como uma grande conquista. Mas a vida real não acontece nas redes sociais. Acontece na fila do hospital. Na escola. Na procura de uma casa. No balcão de um serviço público. Na casa de um idoso sozinho. Na mesa de uma família que faz contas para chegar ao fim do mês. É aí que Portugal deve ser avaliado.

Poucas coisas são tão importantes numa democracia como acreditar que a Justiça funciona. Quando um processo demora anos, quando uma decisão tarda e quando o cidadão sente que existem diferentes velocidades conforme o poder económico, político ou mediático de cada um, a confiança desaparece. E quando desaparece a confiança nas instituições, começa a desaparecer também a confiança no próprio país. A Justiça tem de ser firme, independente e igual para todos.

Ser crítico não significa deixar de amar Portugal. Pelo contrário. Quem critica porque está preocupado ainda acredita que é possível mudar. Portugal tem talento. Tem empresas. Tem universidades. Tem mar. Tem turismo. Tem uma posição geográfica extraordinária. Tem uma enorme diáspora espalhada pelo mundo. Tem portugueses capazes de fazer coisas extraordinárias. O que muitas vezes nos falta não é capacidade. É visão, continuidade e coragem para tomar decisões que só darão frutos daqui a dez ou vinte anos.

Talvez Portugal não esteja à beira de uma explosão. Talvez esteja simplesmente a ficar cansado. Cansado o jovem que não consegue sair de casa. Cansado o casal que adia ter filhos. Cansado o trabalhador que vê o salário desaparecer. Cansado o médico e o professor. Cansado o emigrante que gostaria de regressar. Cansado o idoso que teme ficar sozinho. E cansado o cidadão que paga e espera. É este cansaço que devemos levar a sério.

Podemos continuar a receber turistas. Podemos continuar a aparecer nas listas dos países mais procurados para viver. Podemos continuar a crescer economicamente. Mas o verdadeiro sucesso de Portugal não pode ser medido apenas por quem chega. Tem de ser medido também por quem fica. Pela família que consegue comprar casa. Pelo jovem que decide ter filhos. Pelo emigrante que regressa. Pelo idoso que envelhece com dignidade. Pelo trabalhador que consegue viver do seu salário. Pelo médico que escolhe ficar. Pelo professor que acredita na escola pública. Esse é o Portugal que deveríamos estar a construir.

Talvez esteja na altura de deixar de perguntar apenas quantos turistas recebemos, quantas obras inaugurámos ou quantos milhões foram investidos. A pergunta verdadeiramente importante é outra: Que Portugal estamos a deixar aos nossos filhos? E existe uma segunda pergunta, ainda mais incómoda: Quantos portugueses querem ficar? E, para aqueles que partiram: Quantos acreditam que vale a pena voltar?

Porque Portugal pode continuar a ser um dos países mais bonitos do mundo. Mas isso não chega. Um país não é verdadeiramente rico quando é apenas bom para visitar. É rico quando os seus filhos conseguem viver nele, trabalhar nele, criar os seus filhos nele e envelhecer nele com dignidade. Portugal merece isso. Os portugueses também. ■

João Paulo Rocha

Primeiro-Secretário da Federação das Associações da Diáspora (FAD)

 

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