Portugal: Estudo indica que trabalhadores estrangeiros reforçam economia portuguesa, mas muitos permanecem menos de três anos no país

Estudo do Banco de Portugal revela que a imigração laboral tem sido decisiva para o mercado de trabalho nacional, embora coexistam percursos muito distintos: uma parte significativa dos trabalhadores estrangeiros apresenta permanências curtas, enquanto outra mantém ligações duradouras a Portugal, sobretudo quando existem emprego estável e laços familiares

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Banco de Portugal indica que, em 2025, cerca de 1,13 milhões de cidadãos estrangeiros estavam registados na Segurança Social. Foto: Banco de Portugal
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No Boletim Económico de março de 2026, o Banco de Portugal (BdP) divulgou o estudo “Uma caracterização da permanência dos trabalhadores estrangeiros em Portugal”, elaborado por Nuno Alves, Sónia Félix e Ana Catarina Pimenta, do Departamento de Estudos Económicos do BdP, no qual se analisam os padrões de permanência dos cidadãos estrangeiros registados na Segurança Social entre janeiro de 2010 e setembro de 2025, identificando tendências relevantes para a economia, o mercado de trabalho e as políticas públicas.

Os trabalhadores estrangeiros têm assumido um peso crescente na economia portuguesa ao longo da última década e meia: em 2025, cerca de 1,13 milhões de cidadãos estrangeiros estavam registados na Segurança Social, um número que compara com apenas 152 mil em 2010, refletindo uma forte aceleração dos fluxos migratórios associados ao emprego.

Segundo o estudo, esta evolução traduz realidades distintas: há trabalhadores que permanecem apenas alguns meses, outros que apresentam percursos intermitentes e um número expressivo que se fixa durante largos anos. A duração destas permanências tem impacto direto no funcionamento do mercado laboral, na sustentabilidade da Segurança Social, na integração social e na acumulação de competências dentro das empresas.

Entre 2010 e 2024, registaram-se cerca de 1,4 milhões de entradas de cidadãos estrangeiros no sistema português de Segurança Social, sendo que 1,2 milhões ocorreram desde 2018, o que demonstra a intensificação recente da imigração laboral. A maioria iniciou a sua ligação ao país como trabalhador por conta de outrem, enquanto uma parcela menor entrou como trabalhador independente ou membro de órgãos estatutários.

No que respeita à origem, cerca de 38% das entradas corresponderam a cidadãos brasileiros, seguindo-se trabalhadores oriundos do sul da Ásia – designadamente Índia, Bangladesh, Nepal e Paquistão – com cerca de 19%, e dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (PALOP), com 14%. Cidadãos da União Europeia e do Reino Unido representaram igualmente cerca de 14% do total.

O perfil médio destes trabalhadores aponta para uma população relativamente jovem e em idade ativa. A idade média situou-se próxima dos 33 anos e cerca de 60% dos trabalhadores estrangeiros eram homens.

Em termos setoriais, os trabalhadores por conta de outrem concentraram-se sobretudo nas atividades administrativas e serviços de apoio, alojamento e restauração, agricultura e pesca, construção, comércio e indústria. Estes dados confirmam o papel da imigração em setores com forte necessidade de mão de obra e elevada procura laboral.

Contudo, o estudo mostra também que nem todos permanecem no país durante longos períodos: cerca de 22% dos trabalhadores estrangeiros registam permanências inferiores a um ano e aproximadamente 39% permanecem menos de três anos. 

Ainda assim, os dados revelam simultaneamente uma forte componente de fixação: estima-se que 52% continuem em Portugal cinco anos após a entrada e cerca de 40% mantenham ligação ativa ao fim de dez anos.

Para o Banco de Portugal, estes resultados demonstram que os fluxos migratórios combinam uma componente transitória com outra claramente persistente. Ou seja, coexistem trabalhadores que utilizam Portugal como destino temporário com outros que aqui constroem percursos de longo prazo.

A análise conclui também que o emprego é o principal fator de permanência. Em média, os trabalhadores estrangeiros passam cerca de 86% do tempo em situação de trabalho por conta de outrem e perto de 5% como trabalhadores independentes. O recurso a prestações sociais surge como residual, o que evidencia uma forte ligação ao mercado de trabalho durante a permanência em território nacional.

Por outro lado, a perda de emprego aumenta significativamente a probabilidade de saída. O estudo conclui que os trabalhadores estrangeiros que recebem subsídio de desemprego apresentam um risco de abandono dos registos da Segurança Social 55% superior, sugerindo maior propensão para procurar oportunidades noutros destinos.

Outro fator decisivo identificado é a presença da família. A existência de laços parentais, medida através do recebimento de subsídio de parentalidade ou de prestações familiares, está associada a uma permanência muito superior. A probabilidade de continuar em Portugal cinco anos após a entrada sobe para 77% nestes casos, mais 28 pontos percentuais do que entre trabalhadores sem esses vínculos identificáveis.

Em termos estatísticos, os autores estimam que trabalhadores com laços familiares têm uma taxa de saída 68% inferior à dos restantes. O BdP acrescenta que este resultado está em linha com a evidência internacional, segundo a qual a presença da família reduz a propensão de retorno ao país de origem ou de reemigração para terceiros países.

Existem ainda diferenças relevantes por origem geográfica. Trabalhadores provenientes dos PALOP e do sul da Ásia apresentam níveis de permanência superiores à média, enquanto cidadãos da União Europeia e do Reino Unido revelam maior mobilidade e permanências mais curtas.

A distribuição territorial mostra também alguma heterogeneidade, embora sem contrastes extremos. Cinco anos após a entrada, a probabilidade estimada de permanência situava-se em 49% em Lisboa, 56% no Porto e 58% em Faro, valores próximos da média nacional de 52%.

O Banco de Portugal sublinha ainda que Portugal continua abaixo dos países com maior capacidade de retenção de trabalhadores estrangeiros, como Canadá ou Estados Unidos, embora apresente resultados próximos da média de vários países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE).

Na parte final do relatório, a instituição defende que políticas públicas orientadas para vínculos laborais estáveis, melhores salários, apoio à parentalidade e integração familiar poderão reforçar a retenção de trabalhadores estrangeiros, o que poderá ter impacto positivo no crescimento económico, no equilíbrio demográfico, na sustentabilidade da Segurança Social e na integração social.

Deste modo, o estudo conclui que a imigração laboral continuará a desempenhar um papel central em Portugal, mas que a sua contribuição dependerá crescentemente da capacidade do país para transformar entradas temporárias em permanências duradouras.

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