
Sancho Gomes, diretor regional das Comunidades e Cooperação Externa do Governo Regional da Madeira, defendeu que o arquipélago construiu grande parte do seu sucesso económico através da ligação permanente às comunidades emigrantes, considerando que o talento, a capacidade empreendedora e o investimento da diáspora continuam a ser decisivos para a competitividade internacional da região autónoma.
Em declarações à nossa reportagem no âmbito do Fórum “Portugal Nação Global”, realizado nos dias 29 e 30 de abril no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, Sancho Gomes sustentou que a relação da Madeira com as suas comunidades no estrangeiro não é recente, mas sim uma política consolidada ao longo de cinco décadas de autonomia, democracia e diplomacia económica.
Nesse contexto, este governante começou por enquadrar o percurso económico da região, recordando o impacto da autonomia no desenvolvimento madeirense e o papel dos emigrantes nesse processo.
“A região autónoma da Madeira, em 1974, com o fim da ditadura, era de facto uma das regiões mais pobres do país, mas com o advento da democracia, com a criação da autonomia, nós, desde há 50 anos, temos tido um desenvolvimento que a região não viu ao longo de 500 anos”, afirmou.
Segundo Sancho Gomes, esse crescimento está diretamente ligado ao investimento das comunidades madeirenses espalhadas pelo mundo.
“Grande parte do nosso sucesso económico, do nosso desenvolvimento, do progresso que nós sentimos hoje na região autónoma da Madeira – eu recordo, por exemplo, que a região tem o segundo maior PIB per capita do país, bem superior à média nacional -, deve-se muito ao investimento dos nossos emigrantes espalhados por todo o mundo, muitos do Brasil, Venezuela, África do Sul, Austrália, que viram na Madeira uma oportunidade de investimento afetivo, mas também com valor acrescentado”, defendeu o diretor regional, que sublinhou ainda que esta ligação às comunidades tem sido trabalhada de forma contínua ao longo de décadas.
“Há 50 anos que nós trabalhamos as comunidades e trabalhamos a diplomacia económica com as nossas comunidades, portanto não é algo novo”, salientou.
Sobre a primeira edição do fórum “Portugal Nação Global”, Sancho Gomes considerou que a iniciativa surge em linha com aquilo que a Madeira já desenvolve institucionalmente há vários anos.
“Este evento é a primeira edição deste “Portugal Nação Global”, que, aliás, vem na senda de algo que nós, na Madeira, já fazemos desde 2016, que é o “Fórum Madeira Global””, recordou.
O responsável madeirense considerou também que o conceito de “nação global” responde diretamente às necessidades estratégicas do país.
“Este conceito de uma nação global parece-nos extremamente relevante e vai ao encontro daquilo que são as políticas e daquilo que é o conceito institucional que a Madeira dá às suas comunidades”, referiu.
Sancho Gomes alertou igualmente para a importância de Portugal saber valorizar o potencial económico e humano da sua diáspora.
“Nós temos cinco milhões de pessoas espalhadas pelo mundo com imensa capacidade, com conhecimento acumulado, com imenso talento e, portanto, estarmos a desperdiçar, enquanto nação, esse talento espalhado pelo mundo, o que é de facto um desperdício, e, portanto, vemos com muitos bons olhos esta iniciativa”, sustentou.
Questionado sobre o regresso recente de emigrantes e o impacto geoestratégico no investimento na Madeira, o responsável confirmou a relevância desse fenómeno, sobretudo no caso venezuelano.
“Entre 2014 e 2020, regressaram cerca de 20 mil pessoas da Venezuela para a Madeira, nem todas se fixaram, fixaram-se cerca de 12 mil, mas muitas vieram trabalhar, vieram dinamizar o mercado de trabalho, mas vieram também fazer muito investimento”, destacou.

Sancho Gomes explicou que, atualmente, a Madeira é vista como um destino de confiança para investimento de longo prazo.
“O que as pessoas veem na Madeira é a estabilidade política, a confiança e a previsibilidade jurídica”, afirmou o diretor regional, que realçou que esse fator tem sido decisivo para atrair capital nacional, mas também internacional.
“Quem investe na reabilitação urbana, num edifício, numa pequena unidade hoteleira na Madeira, não está à espera com certeza de obter retorno em cinco anos, agora sabe que aquela unidade hoteleira poderá estar a funcionar durante 100 anos”, referiu, acrescentando que, das 123 nacionalidades que vivem na Madeira, a maior parte pertence ao mundo ocidental, incluindo Reino Unido, Alemanha, Estados Unidos, França e Itália.
“Obviamente que estas são pessoas que procuram investimento, fazem investimento na Madeira e fazem-no exatamente por esta segurança, não é por um retorno imediato, mas é pela segurança do seu próprio investimento”, sustentou.
O governante destacou igualmente o crescimento de setores emergentes na economia regional, nomeadamente o mar e a tecnologia.
“As atividades marítimo-turísticas representam 11% do nosso PIB, e este setor é apenas um nicho, porque há um mar de oportunidades na Madeira”, afirmou.
Na área tecnológica, Sancho Gomes revelou números que considera particularmente expressivos.
“As tecnológicas hoje em dia na produção de riqueza representam o mesmo que a hotelaria, nós em 2023 atingimos quase 1000 milhões de euros e este era um setor que não existia em 2015”, salientou.
Gomes deixou uma mensagem direta à diáspora madeirense espalhada pelo mundo, começando por um reconhecimento emocional e identitário.
“Os madeirenses emigrados são os melhores de nós, porque foram aqueles que tiveram coragem, que ousaram partir quando mais fácil era de facto ficar”, afirmou.
Por fim, Sancho Gomes deixou um apelo claro ao investimento estruturado na região.
“Investir na Madeira não deve ser visto apenas como um investimento de saudade”, sublinhou.
“Há de facto áreas de negócio emergentes, extremamente interessantes, que podem ter de facto um retorno bastante interessante, com esta garantia, que é a garantia da previsibilidade, da estabilidade e da segurança”, concluiu. ■




