Turismo nos Açores: “Mercado brasileiro tem crescido de forma irregular nos últimos anos”

Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas do Governo Regional dos Açores, sublinhou que o Brasil “não é um dos mercados tradicionalmente mais fortes no fluxo de turistas para os Açores”, por não haver ligações aéreas diretas entre os Açores e esse país sul-americano

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Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas do Governo Regional dos Açores. Foto: divulgação/Secretária Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas do Governo Regional dos Açores
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Os Açores ultrapassaram, em 2025, pela primeira vez na sua história, as 4,5 milhões de dormidas e os 206 milhões de euros em proveitos de hotelaria, consolidando o posicionamento do arquipélago como “um dos destinos atlânticos com maior ritmo de crescimento e valorização turística no espaço europeu”.

Num momento em que a região procura equilibrar crescimento económico, coesão territorial, sustentabilidade ambiental e qualificação da oferta turística, o Governo Regional dos Açores traça novas metas para a mobilidade interilhas, para a atração de mercados internacionais, para o reforço das acessibilidades e para a consolidação de um modelo turístico distribuído pelas nove ilhas ao longo de todo o ano.

Em declarações à Agência Incomparáveis, Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas do Governo dos Açores, detalhou os principais indicadores do setor do turismo, analisou a evolução dos mercados emissores, abordou os desafios da mobilidade aérea e interna, explicou os investimentos em curso nas infraestruturas e apresentou as linhas estratégicas que deverão orientar o futuro do turismo açoriano até 2030.

Quais os principais indicadores que definem o desempenho do turismo nos Açores nos últimos dois anos, nomeadamente em termos de dormidas, receitas e sazonalidade?

Atendendo a uma perspetiva meramente quantitativa, percebemos que o crescimento das dormidas (13,6% em 2024 e 4,3% em 2025) e das receitas (18,6% em 2024 e 9,5% em 2025) traduz um desempenho positivo do turismo nos Açores. Com estes dados, podemos constatar que temos crescido mais em receitas, ou seja, em valor, do que em quantidade de dormidas, o que nos dá a certeza de incremento da valorização do destino e a perspetiva de sustentabilidade do setor do turismo. Em 2025, superámos, pela primeira vez na nossa história, as 4,5 milhões de dormidas e os 206 milhões de proveitos de hotelaria. E, de facto, desde 2022, temos crescido todos os anos e superado as melhores marcas em todos os indicadores de desempenho turístico. Temos também vindo a reduzir a taxa de sazonalidade (42,6% em 2025) de forma paulatina, sistemática e segura, sobretudo com o crescimento da shoulder season, quer antes quer depois do pico do verão.

Que mercados emissores registaram maior crescimento recente e quais lideram atualmente o volume de visitantes nas ilhas?

Pela juventude do destino Açores e pela própria dimensão atual do mercado turístico na Região, temos mercados emissores onde ainda se registam números muito voláteis e que apresentam taxas de crescimento muito grandes. Em 2025, o nosso principal mercado emissor estrangeiro foi a Alemanha, que cresceu 12%. Em segundo lugar, ficaram os EUA, que cresceram muito nos últimos anos (37,5% em 2023 e 14,5% em 2024), mas que se retraíram muito em 2025 e apenas cresceram 1%, em virtude da alteração do perfil da política interna e externa desse país. O Canadá também é um mercado que está a ganhar muita expressão nos Açores, pois cresceu 11,9% em 2025 e beneficia agora de mais ligações aéreas diretas com a Região. Para além de Espanha (+3,4%) e França (+ 6,3%), que são tradicionalmente importantes mercados emissores para os Açores, há ainda outros países a crescer de forma significativa e com potencial para intensificar essa evolução, como Suíça (+10,1%), Reino Unido (+12,3%), Áustria (24,6%) ou Noruega (+25,8%).

Berta Cabral, secretária regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas do Governo Regional dos Açores, conversa com Francisco Reginaldo Nogueira, prefeito de Andrelândia, cidade no Estado de Minas Gerais, Brasil, durante missão empresarial promovida pela Casa dos Açores de Minas Gerais, liderada por Claudio Motta, em abril de 2026.. Foto: Agência Incomparáveis

No caso específico do Brasil, que evolução tem sido observada no fluxo de turistas, quais as principais cidades de origem e que perfil caracteriza estes visitantes?

O mercado brasileiro tem crescido de forma irregular nos últimos anos, tendo registado, por exemplo, um incremento de 30,4% em 2023 e apenas 4,7% em 2025. Não é um dos mercados tradicionalmente mais fortes no fluxo de turistas para os Açores, até porque não há ligações aéreas diretas entre os Açores e o Brasil. Porém, figura no top 20 dos mercados emissores estrangeiros e representa um mercado com grande potencial, sobretudo considerando as ligações históricas que existem com a emigração dos Açores para vários estados brasileiros, como é o caso de Santa Catarina.

Existem dados sobre os turistas suíços que visitam as ilhas?

O mercado suíço tem alguma apetência pelos Açores e tem uma grande margem de evolução. Os produtos turísticos açorianos, muito ligados à natureza, à aventura e à sustentabilidade, encaixam muito bem no perfil dos turistas suíços e naquilo que procuram nas suas experiências como visitantes. Temos, atualmente, duas ligações diretas entre a Suíça e os Açores (Zurique-Ponta Delgada e Zurique-Terceira), durante a época de verão, operadas pela Edelweiss. A Suíça ocupa a 10.º posição dos mercados emissores estrangeiros para os Açores e cresceu, os últimos quatro anos, a uma taxa média anual de 12,9%.

Entre os residentes açorianos, quais são as ilhas mais procuradas para turismo interno e que fatores explicam essas preferências?

O Governo dos Açores implementou, em 2021, a ‘Tarifa Açores’, que permite que cada residente na Região viaje para outra ilha por apenas 60€ (ida e volta). Isso estimulou muito a mobilidade interna e circulação de pessoas nas nossas ilhas, com impacto direto no turismo interno. Por esse motivo, todas as nove ilhas têm, hoje, uma dinâmica turística significativa. Naturalmente que ilhas maiores, como São Miguel, Terceira, Faial e Pico, têm capacidade de acolher mais visitantes, mas recursos distintivos como os que existem, por exemplo, na ilha das Flores, também induzem muito as viagens de turismo interno. A ilha de Santa Maria é a única ilha onde atualmente a proporção de visitantes portugueses é maior que os visitantes estrangeiros e isso deve-se muito ao turismo interno.

Foto: divulgação/Secretária Regional do Turismo, Mobilidade e Infraestruturas do Governo Regional dos Açores

Que investimentos em infraestruturas turísticas e acessibilidades têm sido considerados prioritários para responder ao aumento da procura?

Os Açores são uma região ultraperiférica da União Europeia, localizados em pleno Oceano Atlântico, e compostos por nove ilhas dispersas e muito heterogéneas em dimensão. Isso implica uma dependência total (não há outra opção) do sistema de transporte aéreo para a chegada e partida de passageiros, sejam residentes ou turistas. Logo, as acessibilidades aéreas são um desafio constante, o que levou a um investimento na promoção turística e na atração de companhias aéreas que operassem rotas diretas desde a Europa e a América do Norte. Em 2025, temos 16 companhias aéreas a operar na Região, o que contrasta com apenas sete em 2019. Temos, também, investido muito nos nossos portos e nos aeroportos sob a responsabilidade do Governo Regional, com o intuito de melhorar as nossas portas de entrada, mas também as condições de operação da iniciativa privada. Em termos públicos, temos investido, ainda, nas várias valências de turismo de natureza, que é o nosso produto turístico prioritário, incluindo trilhos pedestres, circuitos de BTT, canyoning, birdwatching, entre outros, para além de termos promovido a evolução dos modelos de qualificação do turismo de wellbeing e da valorização de instâncias termais distintivas nas nossas ilhas. Por outro lado, em termos privados, temos assistido a uma grande dinâmica de investimento, em toda a cadeia de valor do turismo, e o surgimento de inúmeros negócios e empresas, com um destaque muito particular para o volume de investimento associado à atividade de alojamento turístico, cuja oferta cresceu mais de 30% em apenas quatro anos (2022-2025).

Como avalia a atual capacidade de resposta das ilhas em termos de alojamento, transportes e serviços turísticos face ao crescimento da procura?

O crescimento da procura turística nos Açores foi muito rápido nos últimos anos. Em 2015, deu-se a liberalização parcial do espaço aéreo da Região e isso permitiu o início de operação de companhias áreas low cost, que dinamizaram o mercado e trouxeram um grande incremento da procura. Os Açores não tinham uma oferta hoteleira que permitisse absorver essa procura e foi por via do Alojamento Local – pequenos alojamentos particulares de pessoas singulares – que se deu o crescimento e a diversificação da oferta de alojamento na Região. Entretanto, com a consolidação do crescimento turístico, foram surgindo sucessivamente novos empreendimentos turísticos, incluindo muitos hotéis. Atualmente, a Região já apresenta uma oferta de alojamento muito expressiva e ainda em evolução. O Alojamento Local ainda predomina, assumindo protagonismo, sobretudo em ilhas de menor dimensão onde a oferta hoteleira é diminuta. Paralelamente, registou-se um grande crescimento e uma importante diversificação na oferta de animação turística, que hoje disponibiliza experiências de grande qualidade, em mar ou em terra, na natureza ou nas cidades, a quem nos visita. Os serviços de restauração também evoluíram muito, enfrentando ainda alguns desafios setoriais que os vão conduzir, certamente, a patamares ainda mais elevados de qualidade, assim como várias outras atividades de suporte, como é o caso dos serviços de transporte. Em termos gerais, está a haver uma progressão sustentada, que nos dá confiança e boas perspetivas agora e no futuro.

Que programas de apoio, incentivos ou produtos turísticos estão disponíveis para reforçar a qualificação da oferta e apoiar operadores locais?

A Região Autónoma dos Açores, no âmbito do quadro financeiro plurianual 2021-2027 da União Europeia, dispõe de um sistema de incentivos ao investimento denominado Construir 2030, visando a dinamização da atividade privada, incluindo a qualificação de várias atividades da cadeia de valor do turismo. Do mesmo modo, a Região possui vários incentivos à formação profissional e ao emprego, que permitem apoiar a qualificação e a contratação de recursos humanos. Há, ainda, incentivos destinados a entidades sem fins lucrativos, visando a organização e a dinamização de eventos e de iniciativas de promoção do destino Açores. Ao nível dos produtos turísticos, há várias iniciativas e medidas lideradas pelo Governo dos Açores, que têm potenciado a valorização e o aproveitamento de recursos turísticos locais por empresas e outras entidades, incluindo a Rede Regional de Percursos Pedestres, a rede Cycl’in Azores, as Rotas Açores – Itinerários Culturais e Paisagísticos, e a concessão de estabelecimentos termais e serviços de shuttle em determinadas atrações turísticas.

Quais são as principais linhas estratégicas definidas para o futuro do turismo nos Açores, tendo em conta a sustentabilidade, diversificação de mercados e equilíbrio territorial?

Aquilo que temos defendido e que está inscrito no Plano Estratégico e de Marketing do Turismo dos Açores (PEMTA 2030) é que os residentes devem estar no centro da estratégia de desenvolvimento turístico. O turismo só será bom enquanto for bom para quem nos visita, mas sobretudo, para quem reside nos Açores. Essa premissa é fundamental para determinar a capacidade de acolher turistas e garantir a sustentabilidade da nossa economia, sistema social e ambiente. O facto de sermos nove ilhas traz uma dimensão acrescida a esta premissa, mas também permite-nos perceber que temos condições para dispersar os turistas por mais parcelas de território e durante mais tempo. O nosso propósito é ter turismo todo o ano e em todas as ilhas, criando as condições para um desenvolvimento equilibrado e que crie valor para todos os Açorianos. Para atingir esse grande desígnio, temos quatro objetivos fundamentais: 1) consolidar internacionalmente os Açores enquanto destino turístico sustentável, liderando pelo exemplo; 2) Reduzir a sazonalidade e distribuir os fluxos turísticos, gerindo as capacidades de carga; 3) Elevar os padrões de qualidade e gerar mais valor, modernizando práticas, criando sistemas de informação, qualificando a mão de obra, evoluindo no enquadramento das atividades turísticas; e 4) Alavancar a notoriedade junto do consumidor final, apostando na digitalização da promoção e na disseminação internacional do destino Açores.

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