Opinião: “Manifesto do 10 de Junho”, por Flávio Martins

“Olhar para o percurso de Portugal é contemplar mais de 880 anos de uma nacionalidade consolidada e resiliente. Ao longo deste quase milénio, nossa nação assumiu o papel audaz de "dar novos mundos ao mundo", desbravando oceanos desconhecidos e conectando civilizações de forma pioneira: a primeira globalização”

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Flávio Martins, presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas (CP-CCP). Foto: Agência Incomparáveis
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  1. A Data Magna e o Sentimento de Pertença

O dia 10 de Junho carrega consigo um significado místico e transcendental que penetra profundamente no âmago de cada cidadão luso, estabelecendo uma conexão umbilical com a pátria que independe da distância geográfica. Desde o ano de 1978, esta data foi institucionalizada não apenas como o Dia de Portugal, mas como a celebração maior de uma comunidade global composta por mais de 15 milhões de portuguesas/es. Este contingente humano encontra-se espalhado de forma ubíqua, habitando tanto as fronteiras do território nacional europeu (continente e ilhas) quanto os recônditos mais distantes da nossa vasta e dinâmica diáspora.

  1. A Pátria da Língua e a Herança Camoniana

A escolha deste dia específico demonstra um refinamento cultural ímpar, visto que não foi moldada por convenções burocráticas, mas sim pela reverência ao maior vulto literário de toda a nossa história: Luís Vaz de Camões, cuja morte ocorreu nesta data. Ao fazê-lo, Portugal define o seu Dia Nacional não pelo eco de guerras fratricidas ou pelo orgulho bélico de conquistas territoriais passadas; celebra-se, ao invés, a riqueza imperecível da cultura, a universalidade do nosso idioma e o conceito intrínseco de portugalidade. Esta visão encontra eco na máxima do poeta modernista Fernando Pessoa, que de forma brilhante asseverou que “a minha pátria é a língua portuguesa”, transformando o idioma em um território vivo e sem fronteiras.

III. Resiliência Histórica e a Vocação Universal

Olhar para o percurso de Portugal é contemplar mais de 880 anos de uma nacionalidade consolidada e resiliente. Ao longo deste quase milénio, nossa nação assumiu o papel audaz de “dar novos mundos ao mundo”, desbravando oceanos desconhecidos e conectando civilizações de forma pioneira: a primeira globalização. É inegável que este trajeto histórico foi marcado por uma dualidade oscilante: conhecemos períodos de glória incomensurável, mas fomos igualmente fustigados por épocas de severas crises económicas, políticas e sociais. No entanto, a essência do povo lusitano reside na sua capacidade de resiliência e superação. Somos uma pátria constituída por sonhadores incorrigíveis, mas que possuem a rara virtude de realizadores eficazes desses mesmos sonhos, projetando a nossa herança bem para lá da “Ocidental praia Lusitana” imortalizada n’Os Lusíadas.

  1. A Desconstrução do Conceito de Raça e a Etnia Cultural

Importa vincar que as festividades deste Dez de Junho não devem, sob qualquer pretexto, evocar o conceito biológico e ultrapassado de “raça” — uma noção determinista, segregacionista e eivada de preconceitos históricos que a contemporaneidade rejeita veementemente. O que em verdade deve ser exaltado nesta data é a etnia lusitana entendida no seu sentido sociológico e antropológico mais puro: uma comunhão de tradições, valores, afetos e matriz cultural partilhada por todos os portugueses, onde quer que eles se encontrem no globo, sem distinção de origem, cor ou classe social.

  1. O Apelo Político e a Dignificação da Diáspora

Por tudo isto, cumpre-me manifestar o mais sincero reconhecimento ao trabalho abnegado e à vigilância constante daqueles que mantêm os seus corações e ações voltados para as nossas Comunidades no estrangeiro. É imperioso e urgente que as estruturas centrais do poder e as autoridades governamentais em Lisboa tomem plena consciência de uma realidade insofismável: a portugalidade, a soberania nacional e o amor indomável pelas terras lusitanas manifestam-se de forma diária, vibrante e genuína no seio das nossas Comunidades da Diáspora. A fibra e o caráter deste povo, historicamente vocacionado para o ecumenismo mundial, mantêm-nos firmes, atentos e profundamente motivados a continuar na defesa intransigente e sem concessões dos direitos dos emigrantes e dos lusodescendentes. Estas Comunidades Portuguesas não solicitam favores; elas exigem e merecem ser plenamente reconhecidas, valorizadas e dignificadas pelas instituições do Estado, hoje e para sempre. ■

Flávio Martins

Presidente do Conselho Permanente do Conselho das Comunidades Portuguesas (CP-CCP)

 

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