Cabo Verde realiza primeiro transplante renal e marca nova fase na saúde do país

Cirurgia histórica, preparada ao longo de uma década com apoio português, abre caminho à autonomia no tratamento da doença renal e reforça a cooperação entre Portugal e Cabo Verde

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Cirurgião português Norton de Matos liderou equipa que realizou primeiro transplante renal em Cabo Verde. Foto: Grupo de Estudos Vasculares
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Cabo Verde realizou o seu primeiro transplante renal no dia 24 de março de 2026, no Hospital Universitário Agostinho Neto, na cidade da Praia, numa operação conduzida por uma equipa multidisciplinar com apoio de especialistas portugueses do Hospital de Santo António, no Porto.

O procedimento, considerado um marco histórico para o sistema de saúde do arquipélago, foi bem-sucedido, com dadora e recetor a apresentarem recuperação favorável, após uma intervenção que envolveu cerca de 30 profissionais e recorreu a técnica laparoscópica na remoção do órgão, num transplante a partir de dador vivo, permitindo um processo menos invasivo.

O projeto resulta de mais de dez anos de trabalho liderado pelo cirurgião vascular português Norton de Matos, que desde 2015 se empenhou na criação de condições clínicas, técnicas e legais para a realização de transplantes renais em Cabo Verde, enfrentando entraves burocráticos e a ausência de enquadramento legislativo. 

Em 2025, os protocolos avançaram finalmente, permitindo estruturar o programa e criar as condições necessárias para a realização da primeira cirurgia no país.

Deste modo, o sucesso do primeiro transplante reflete também o reforço da cooperação entre Portugal e Cabo Verde, envolvendo instituições como o Hospital de Santo António, o Instituto Português do Sangue e da Transplantação e o Camões, I.P., num esforço conjunto que permitiu criar e estabilizar circuitos clínicos, laboratoriais e logísticos especializados, com apoio técnico e financeiro ao programa liderado pelo Ministério da Saúde cabo-verdiano.

A motivação para esta missão ficou ainda marcada por histórias concretas, como a de Cristiana, uma jovem cabo-verdiana obrigada a realizar hemodiálise três vezes por semana. 

Foi nesse contexto que Norton de Matos recordou, em entrevista ao jornal português “Público”, o momento em que a menina lhe apresentou irmãos disponíveis para doação, sem que existissem ainda condições legais para avançar: “Fiquei desesperado (…) Não tinha respostas para lhes dar, na altura ainda não havia lei”, recordou. 

Hoje, Cristiana integra a lista de doentes elegíveis para transplante, abrindo perspetivas de uma vida com maior qualidade.

Até agora, os doentes renais cabo-verdianos dependiam frequentemente de evacuações médicas para Portugal, o que implicava afastamento prolongado das famílias e pressão adicional sobre o Serviço Nacional de Saúde português. 

Com este avanço, Cabo Verde passa a dispor de capacidade própria para realizar este tipo de intervenções, reduzindo essa dependência e encerrando um ciclo que se prolongava desde a independência.

Segundo Norton de Matos, o impacto na vida dos doentes será significativo: “Agora os doentes fazem um tratamento muito complicado e vão passar a ter um tratamento muito mais simples. Vão tomar comprimidos e fazer análises, em vez de três sessões de hemodiálise por semana. Vão ganhar qualidade de vida e sobrevivência”, explicou, acrescentando que os próximos passos da iniciativa passam por levar este protocolo de cooperação até Angola.

Para o cirurgião português, este avanço representa não apenas um marco médico, mas o início de uma nova etapa para o sistema de saúde de Cabo Verde, com a perspetiva de consolidar um programa nacional de transplantes renais e melhorar de forma duradoura a resposta aos doentes. 

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