Carlos Otero, cantor de ópera, encenador, escritor e ator luso-francês, revisitou mais de seis décadas de vida artística e pessoal em França, refletiu sobre a forma como tem mantido viva a ligação a Portugal através da música, da escrita e da memória coletiva, e partilhou episódios marcantes de um percurso internacional dedicado à formação de públicos, à transmissão cultural e à valorização da identidade portuguesa junto de diferentes gerações.
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, no âmbito das celebrações pelo Dia Mundial da Língua Portuguesa, no dia 5 de maio, quando foi homenageado nas instalações consulares de Portugal em Lyon, pela Academia de Filosofia e Ciências Humanísticas Lucentina (AFCHL), com sede no Brasil e signatária do Pacto Global das Nações Unidas, com o título de “Embaixador Honorário da Cultura”, Otero começou por recordar a forma como tem mantido viva a sua portugalidade, apesar de viver em França há mais de seis décadas.
Ao refletir sobre esse percurso, deixou uma visão profundamente ligada à cultura e à língua.
“Moldo a minha portugalidade muito bem, porque pratico uma linguagem internacional, que é a música. E essa música traduzo-a em português, ou em francês, ou em italiano, ou em alemão. Mas o português ajuda-me a escrever, também em português, crónicas, livros sobre música, sobre mim”, afirmou.
Ao abordar a importância de preservar a memória histórica e cultural portuguesa, o artista alertou para aquilo que considera ser um afastamento das novas gerações em relação ao passado coletivo.
“Ajuda-me a compreender um pouco o que é a história de Portugal, que está muito esquecida, e que talvez as novas gerações tenham a necessidade de preocupar-se um pouco mais com o que foi Portugal, com o que será também, é importante, mas o que foi, é preciso nunca esquecer de onde vimos”, sublinhou.
Ainda sobre essa responsabilidade cultural, Carlos Otero reforçou a importância de valorizar aqueles que ajudaram a construir o país e a identidade portuguesa ao longo das gerações.
“Aquelas pessoas que, sem se darem conta disso, estavam a fabricar um país. E um país, uma nacionalidade, uma geração de intelectuais, pintores, escritores, músicos, e tudo isso está a ser um pouco esquecido. E é isso que é importante continuar a trabalhar para que seja uma realidade para amanhã”, destacou.
Questionado sobre o significado de viver datas simbólicas como o 10 de Junho longe de Portugal, o artista reconheceu que essa vivência nem sempre encontra expressão pública nas comunidades portuguesas em França.
“Estive sempre em relação com Portugal, evidentemente com a família, com os amigos, muitos amigos, com os intelectuais também. E aqui é mais complicado, porque vivo em Paris, e em Paris não se festeja o 10 de junho, a não ser na embaixada e no consulado, claro, mas de outra maneira”, referiu.
Num dos momentos mais marcantes da conversa, Carlos Otero revisitou o trabalho pedagógico e artístico que desenvolveu ao longo de décadas junto de milhares de jovens em França, revelando números que espelham a dimensão do seu legado cultural.
“Estive com a minha companhia de ópera, tive um trabalho muito importante feito junto de alunos, e trouxe nove mil alunos dos arredores de Paris a ouvirem música, a ouvirem ópera e a participarem com desenhos, com cartas e, sobretudo, com o entusiasmo das crianças”, recordou.
Ao explicar o impacto desses encontros, destacou a reação das crianças perante a descoberta da ópera ao vivo.
“Reparei no seu entusiasmo a ouvirem uma coisa que para eles era extraordinária, que era cantar sem ter um microfone. E eles ficavam sempre muito surpreendidos por ouvir um cantor de ópera com uma voz muito potente e que vai por todo o lado sem ajudas nenhumas técnicas, apenas o ser humano, o corpo humano”, enfatizou.

Na reta final da entrevista, e perguntado sobre se se considera um homem plenamente realizado enquanto cantor, ator, encenador e escritor, Carlos Otero respondeu com a serenidade de quem continua a olhar para o futuro.
“Não completamente. Há coisas que eu queria fazer e que não fiz, como já disse, e outras que fiz e que não estavam previstas. Fica tudo equilibrado”, admitiu.
Mesmo assim, deixou claro que o seu percurso continua em construção e que a vontade de transmitir conhecimento permanece intacta.
“Mas posso ter a felicidade de ter transmitido muita coisa e, se calhar, ainda não parou. Ainda vai continuar”, concluiu.
Percurso com ligação a “Portugalidade”
Carlos Otero nasceu em Lisboa e vive em Paris há mais 60 anos. Escreve, é ator e cantor. Encenou teatro, operetas e óperas. Entre outras, no Teatro dos Champs Elysées, de Paris, o drama “Thamos”, e “A Flauta Mágica” ambas de Mozart, assim como quatro espetáculos no teatro S. Carlos.
Fez mais de 150 conferências, tem mais de 3.200 representações em palco e, com a concretização “Ópera na Escola”, encaminhou nove mil alunos a assistir a espetáculos líricos montados com a sua companhia de ópera. Nesse projeto foi inserido a ópera “Cinderela”, de Rossini, apresentada em Lisboa no Centro Cultural de Belém.
Escreveu uma biografia-desencaminhada sobre o compositor A. Salieri, grande rival de Mozart, assim como duas peças de teatro, um libreto de uma ópera, dois livros sobre músicos clássicos, dois livros de “Conversas” de Chachas, guião de filmes sobre Veneza e sobre a história da Opereta.
Licenciado em Musicologia pela Sorbonne, consagra-se à investigação musical e espiritual, desenvolvendo o seu trabalho, no sentido de transmitir a “boa mensagem” através da música e da poesia.
No ano passado, Otero passou por Portugal para apresentar, em diversas cidades, a conferência encenada “Pessoa na primeira pessoa”, iniciativa dedicada ao universo literário de Fernando Pessoa.
Também em 2025, apresentou em Portugal o livro “Músicos em harmonia, compositores maçons”. As sessões públicas decorreram em várias cidades portuguesas, entre elas Castelo Branco, Porto, Coimbra, Lisboa e Faro, reunindo público interessado na relação entre música, pensamento espiritual e património cultural europeu. ■





