Opinião: “As Vozes que Me Deram um País”, por Diniz Borges

Reflexões sobre “Os Livros Que Me Fizeram Americano” e a longa viagem de um emigrante através da literatura dos Estados Unidos

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Diniz (dennis) Borges, Portuguese Beyond Borders Institute-Director, Portuguese Language-Lecturer - California State University, Fresno. Foto: divulgação/acervo pessoal
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Há quem encontre uma pátria na terra onde nasce. Outros encontram-na na terra onde vivem. Eu encontrei-a, lentamente, nas vozes dos escritores que me ensinaram que uma nação é, antes de tudo, uma conversa

Dizem que há livros que escolhem os seus autores. E também ouvi que há outros que nascem porque chega um momento em que o silêncio deixa de ser suficiente. Este livro pertence claramente à segunda categoria.

Se me perguntassem, há três ou quatro anos, se alguma vez escreveria um livro como “Os Livros Que Me Fizeram Americano”, provavelmente teria respondido que não. Nunca senti necessidade de justificar a minha identidade americana. Nunca senti necessidade de explicar como um rapaz que chegou dos Açores aos dez anos de idade acabou por encontrar neste país não apenas uma casa, mas também uma consciência.

Talvez este livro não existisse se estivéssemos a viver outros tempos. Talvez não existisse se a América continuasse suficientemente segura de si própria para não precisar discutir, todos os dias, quem pertence, quem pode reclamar esta nação e quem tem o direito de contar a sua história.  Mas os últimos anos obrigaram muitos de nós a fazer perguntas que julgávamos já respondidas. Obrigaram-nos a regressar às origens daquilo em que acreditamos. Obrigaram-nos, sobretudo, a perguntar o que significa, afinal, ser americano.

Foi essa inquietação que deu origem a este livro.  Não é um manifesto político. Não é uma história da literatura americana. Nem sequer é um cânone literário. Como escrevo na introdução, «este não é um cânone académico. Não é um cânone institucional. Nem sequer é um cânone objetivo. É, antes, o meu cânone pessoal — o mapa de livros que me ajudaram a navegar as imensidões desconcertantes da América».

Durante quase dois anos vivi com este projeto. Fiz listas. Retirei nomes. Voltei a colocá-los. Reli romances que me acompanharam durante décadas. Descobri outros que tinha deixado para trás. Reescrevi centenas de páginas. Muitas vezes senti que não estava simplesmente a escrever sobre livros; estava a revisitar a minha própria vida.

Este livro é, talvez acima de tudo, uma autobiografia contada através das bibliotecas dos outros.  Cada livro aqui escolhido representa um momento em que compreendi melhor este país. Ou compreendi melhor em quem eu me estava a tornar dentro dele.

Por isso organizei este livro em cinco grandes secções, cada uma correspondendo não apenas a um período da literatura americana, mas também a uma etapa da própria construção da América.

A Alma Americana em Construção procura mostrar como nasceu a consciência literária de um país que ainda nem sabia exatamente o que era. Era importante começar aí porque nenhuma democracia nasce pronta. Também a sua literatura cresce lentamente, entre esperança, culpa, violência, liberdade e imaginação.

Depois vem A América e as Suas Feridas, porque nenhuma celebração honesta dos 250 anos deste país pode ignorar a escravatura, a segregação, a expulsão dos povos indígenas, a exploração dos trabalhadores, as sucessivas ondas de intolerância ou as muitas promessas ainda por cumprir.

Segue-se As Muitas Américas, talvez a secção que mais profundamente me representa. Porque a América nunca foi uma única voz. Sempre foi um coro.  E foi precisamente aí que tomei uma decisão que alguns talvez estranhem.

Há quem espere encontrar, num projeto desta natureza, apenas os grandes clássicos. Whitman, Melville, Faulkner, Hemingway, Fitzgerald, Morrison, Baldwin. Eles estão aqui, naturalmente. Não podia ser de outra forma.  Mas este livro nunca quis celebrar apenas os autores que já pertencem ao consenso literário.  Quis também celebrar aqueles que ajudaram milhões de americanos a compreenderem-se a si próprios.

Por isso aqui aparecem escritores mexicanos, vietnamitas, haitianos, chineses, filipinos, dominicanos, árabes, japoneses, coreanos, indígenas, afro-americanos, judeus, porto-riquenhos, italianos, portugueses e tantos outros.

Porque eles também escreveram a América.  E porque, honestamente, foram eles que, muitas vezes, me ensinaram aquilo que eu próprio precisava compreender.

Como emigrante açoriano, descobri frequentemente que compreendia melhor a minha experiência ao ler romances de Amy Tan, Ocean Vuong, Jhumpa Lahiri, Viet Thanh Nguyen ou Sandra Cisneros do que ao ler muitos livros escritos por autores que partilhavam a minha origem europeia.  Não porque as nossas histórias fossem iguais.  Mas porque partilhávamos uma condição.  A condição de quem chega.  De quem traduz.  De quem vive entre línguas.  De quem aprende lentamente que pertencer não significa esquecer. Todos trazíamos connosco uma travessia.

Uns vieram do México. Outros do Vietname. Outros do Haiti. Da China. Da República Dominicana. Do Gabão. Das Filipinas. Da Guatemala. Da Ucrânia. Da Síria. Do Afeganistão. Da Itália.  Eu vinha dos Açores.  As geografias eram diferentes.  Mas a pergunta era a mesma.  Como nos tornamos americanos sem deixar de ser quem somos?

Foi com eles que compreendi, talvez pela primeira vez com verdadeira profundidade, que a imigração não é uma nota de rodapé da história americana.  É a própria história americana.

Também por isso dediquei uma secção inteira às vozes contemporâneas e multiculturais. Porque reduzir a América a uma única tradição é empobrecê-la. A sua verdadeira identidade sempre residiu na capacidade — nem sempre conseguida, mas sempre perseguida — de alargar o círculo do pertencimento.

Outra secção centra-se nas grandes lutas sociais. Não podia ser diferente.  Os direitos civis.  O movimento operário.  Os direitos das mulheres.  As reivindicações das minorias.  As batalhas contra a segregação. As vozes LGBTQ+.  Os sindicatos.  Os trabalhadores agrícolas.  Os esquecidos.  Os invisíveis.

Há sempre, em todas as épocas, a tentação de demonizar quem pede igualdade. A história americana está cheia desses momentos. Mas também está cheia daqueles que tiveram a coragem de resistir. E sem essas lutas, a América seria hoje um país muito menor do que o que conhecemos.

Ao longo destas páginas, há certamente algumas repetições.  Não as escondo.  Provavelmente não as conseguiria evitar.

Quando passamos quase dois anos a escrever sobre os livros que mais nos marcaram, há ideias que regressam porque também regressaram à nossa própria vida. Há palavras como liberdade, pertença, democracia, justiça, memória, imigração, esperança, compaixão, que reaparecem continuamente porque elas próprias constituem o vocabulário moral da América.

Não são apenas repetições, são também recorrências da memória.

Este livro não pretende convencer ninguém sobre quais são os melhores livros americanos.  Pretende apenas explicar quais foram os que me fizeram ser americano.  Talvez outro leitor escolhesse outros duzentos e cinquenta.  E teria toda a razão.  Porque não existem apenas duzentos e cinquenta livros capazes de explicar a América.  Existem milhões.  Estes são apenas os meus.

No final da introdução, escrevo que «esta lista não é apenas uma celebração de livros». É uma cartografia do tornar-se. Um mapa de como uma criança emigrante aprendeu, lentamente, a habitar a bela, fraturada e contraditória imensidão chamada América».

Talvez essa continue a ser a melhor definição deste projeto.  Este livro é a minha forma de agradecer à América.  Não a uma América perfeita, porque nunca existiu.  Mas à América que se corrige.  À América que discute consigo própria.  À América que lê.

À América que continua a acreditar que um livro pode transformar uma consciência e que uma consciência pode, por sua vez, ajudar a transformar uma nação.

Ao celebrar os 250 anos dos Estados Unidos, muitos falarão das batalhas, dos presidentes, das Constituições ou das grandes vitórias nacionais.

Eu escolhi celebrar as bibliotecas.  Porque acredito profundamente que este país foi construído não apenas pelos homens e mulheres que fizeram a sua História, mas também pelos escritores que lhe deram consciência.

E, se hoje me sinto plenamente americano, devo-o naturalmente aos meus pais, ao trabalho, à comunidade, à escola, aos amigos, à família e às oportunidades que este país me ofereceu.  Mas devo-o também, e de uma forma muito especial, a estes duzentos e cinquenta livros.

Foram eles que me ensinaram que patriotismo não é veneração.  Que crítica não é falta de amor.  Que democracia é uma conversa permanente.  E que a América, tal como cada um de nós, permanece para sempre uma obra inacabada. ■

Diniz (dennis) Borges

Portuguese Beyond Borders Institute-Director

Portuguese Language-Lecturer

California State University, Fresno

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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