Opinião: “Latada de Luz e Saudade”, por Diniz Borges

“A poesia de Arlindo Alves como memória viva, ilha portátil e sobrevivência da diáspora”

47
Diniz (dennis) Borges, Portuguese Beyond Borders Institute-Director, Portuguese Language-Lecturer - California State University, Fresno. Foto: divulgação/acervo pessoal
- Publicidade -

Onde a memória acende uma vela,
o exílio deixa de ser noite.

A latada onde Arlindo Alves pendura as suas quadras não é apenas vinhedo nem sombra: é o lugar secreto onde o emigrante guarda o que não quer perder. Entre as ilhas e o continente, entre o berço e o barco, entre a infância pobre e o trabalho duro da emigração, há um corredor de luz que só a poesia consegue atravessar. E é por esse corredor que este livro caminha, carregando no regaço a voz de um homem que escreve como quem fala, e fala como quem resiste ao esquecimento. Victor Rui Dores afirma que o autor tem “um ouvido que escreve” e que das suas quadras nasce uma “vibrante sinceridade” — e não podia haver definição mais justa. O prefácio acrescenta que estamos perante “uma poesia autobiográfica, de memórias soltas e olhares cruzados, que fixa emoções, sensações e estados de alma.” E é precisamente isso que sentimos: Arlindo Alves escreve como quem abre o álbum da vida ao vento da saudade.

Filho das Manadas, na ilha de São Jorge, lavado e vestido pela vizinha parteira, criado ao sopro do mar e ao colo da terra, Arlindo Alves leva para a emigração a mesma bagagem com que tantos atravessaram o Atlântico: uma manta de retalhos, o cheiro da cozinha pobre, a fé de uma vela acesa e a saudade dobrada na algibeira. Escreve quadras porque a quadra é o refúgio portátil do homem que está longe: pequena o suficiente para caber no bolso, grande o suficiente para guardar o mundo inteiro. E como bem nota Victor Rui Dores, ele “faz de cada poema um alerta e um aviso à navegação”, porque quem nasce numa ilha sabe que cada palavra pode ser farol.

E quem ergueu estas quadras em livro foi Liduíno Borba, editor incansável, artesão de memórias e pontes, homem que, há décadas, recolhe, regista e ilumina as vozes tantas vezes esquecidas da diáspora açoriana. O seu gesto é profundamente comunitário. Ele recolhe manuscritos, escuta pessoas, organiza arquivos, costura fragmentos de vida, transforma papéis dispersos em obras que sobrevivem ao tempo. Graças ao seu olhar atento e à sua fidelidade à verdade da experiência emigrante, muitos autores que não tinham palco encontram, finalmente, lugar e dignidade. O meu amigo Liduíno Borba atua como cronista das margens, guardião dos nossos contos de partida e regresso, e cuidador das pequenas invenções poéticas que florescem longe da terra natal. Cada livro que publica é uma espécie de milagre social: uma casa que se abre, um nome que se inscreve, uma existência que se legitima. Não só edita — conserva. Não só organiza — dá voz. Não só imprime — eterniza. Por isso, esta latada não é só de Arlindo Alves: é também parte de um arquivo vivo que Liduíno Borba tem vindo a construir para que a criatividade dos nossos emigrantes não se desfaça no vento e para que a alma açoriana, espalhada pelo mundo, possa sempre encontrar o caminho para casa.

As quadras de Arlindo Alves são uma dádiva de terra e mar e, por isso, merecem ser vistas não como folclore, mas como forma de sobrevivência. A primeira que se impõe é a definição do próprio emigrante:

“Emigrante é respirar / outra nacionalidade / levar o sonho a voar / tão longo quanto a saudade.”
Victor Rui Dores escreve que o poeta vive “ancorado na terra, no mar e no sonho”, e aqui encontramos exatamente isso: o emigrante como ser anfíbio, suspenso entre o que deixou e o que procura, sempre com a respiração dividida entre geografias.

Outra quadra, lembrada como quem despe as botas à porta da infância, fala da chuva dos beirais:

“Da chuva dos meus beirais / juntei as gotas à vida.”
O prefaciador reforça que o poeta se move “num roteiro sentimental e afetivo,” onde até a água da infância se torna matéria existencial. Arlindo Alves recolhe gotas como quem recolhe princípios, lições, pequenas claridades. Da chuva nasce-lhe o caráter.

“À janela”, Arlindo observa o açoriano como ser paradoxal: “O Açoriano é todo ele uma janela / exposta à luz da fé / velado por uma vela.” A imagem encaixa-se perfeitamente na ideia de que “não é impunemente que se nasce numa ilha, onde a terra é pequena, o mar é grande e o sonho é enorme.” As quadras são a prova: nelas, o açoriano é sempre um corpo iluminado por dentro, uma alma que resiste ao vento.

Há também o “Adeus”, essa ferida que nunca cicatriza: “Partir será o preço da saudade / que não mais deixará de existir.”  Victor Rui Dores lembra que o poeta vive “o sonho ilhéu e o sonho feito diáspora,” e é isso que aqui se cumpre: o adeus como juramento vitalício, a saudade como renda que nunca deixa de ser cobrada pelo passado.

Mais adiante, uma quadra que é uma cozinha inteira: “Uma porta, uma janela, / o forno, o lar e a mesa / compunham a aguarela / da cozinha portuguesa.”

Esta memória confirma o que Victor Rui Dores afirma sobre a poesia de Arlindo Alves: que nela há “as vivências e tradições,” e a cozinha é o primeiro templo, a primeira pátria, o lugar onde a identidade se acende ao lume.

A quadra “Ser Ilhéu” devolve a essência interior: “E porque a vida acontece […] fiquei pra sempre ilhéu.” Aqui ressoa a afirmação contida no referido prefácio: “uma poética sensorial da ilha enquanto espaço imagético e afetivo.” O ilhéu não se desfaz no continente: carrega a ilha como uma pátria portátil.

Outra peça preciosa é a “Manta de Retalhos”: “Minha manta de retalhos… / aconchego a gerações.”  A manta é a herança que se passa de mãos calejadas para mãos inquietas, e nela se confirma o que Victor Rui Dores escreve: Arlindo é “um jorgense que escreve com os olhos da memória.” Cada retalho é uma genealogia de afeto.

E, por fim, no autorretrato breve que tece, volta ao ventre da infância: “Pela vizinha parteira / lavado, enxuto e vestido / e deitado à cabeceira.”  É a origem humilde, magistralmente escrita no prefácio: “o autor encontra, na terra-mãe, a liberdade… o fluir do tempo, o sonho, a saudade.” É o nascimento não só de um menino, mas de um poeta que nunca deixou de regressar à cabeceira da própria vida.

A verdade é que Folhas da minha latada não é apenas coleção de quadras: é reflexão sensorial, crítica social, humor popular — sim, até “um poema sobre o papel higiénico”, como Victor Rui Dores nota com ironia — e indignação justa contra o desconcerto do mundo. Arlindo Alves sabe resmungar, bater o pé e reclamar pela justiça e pelo decoro. Entre o lírico e o satírico, desenha-se o retrato completo de um homem que viu, viveu e não esqueceu.

No fim, o que o livro nos ensina é simples: o emigrante não vive só de trabalho e de sonhos. Vive, sobretudo, das minúsculas relíquias que transporta dentro de si: uma palavra do pai, uma oração da mãe, o barulho da rocha ao rebentar da onda, um pedaço de terra escondido no sapato, o sabor da sopa antiga, o brilho de uma gaivota no céu.

E é destas pequenas coisas — as mais humildes, as mais silenciosas, as que ninguém vê — que nasce a força que mantém o emigrante de pé, mesmo nas noites em que o exílio pesa como pedra. Porque quem guarda no peito um lume de ilha nunca anda completamente perdido. E quem aprende a amar as pequenas coisas encontra nelas a grande ciência de sobreviver. Este é, definitivamente, um canto vivencial que sustém o mundo. ■

Diniz (dennis) Borges

Portuguese Beyond Borders Institute-Director

Portuguese Language-Lecturer

California State University, Fresno

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

- Publicidade -

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.