
O jornalista correspondente internacional e assessor da Câmara Portuguesa de Comércio em São Paulo e do projeto Terras de Cabral, Fabiano de Abreu, considera que o crescimento do investimento brasileiro no mercado imobiliário português resulta sobretudo da atual política fiscal brasileira, que está a levar empresários e detentores de património a procurar mercados mais estáveis e previsíveis.
A análise surge depois de dados recentes revelarem que os brasileiros residentes no Brasil já detêm cerca de 1,45 mil milhões de dólares em património imobiliário em Portugal, ultrapassando os 1,21 mil milhões de dólares investidos nos Estados Unidos.
Segundo Fabiano de Abreu, o atual contexto económico brasileiro constitui o principal fator de mudança no destino do investimento.
“O governo brasileiro tem implementado políticas de forte aumento da carga fiscal, taxando não apenas os mais ricos, mas também a classe média em geral. Vigora um sistema onde, quanto mais se tem, mais impostos se pagam. Face a esta asfixia fiscal e à complexidade burocrática, os investidores estão ativamente a procurar países mais seguros e menos burocráticos para proteger e rentabilizar o seu dinheiro”, explicou.
Na perspetiva do especialista, Portugal conseguiu ultrapassar os Estados Unidos porque reúne um conjunto de características que vão além da rentabilidade do investimento. A língua portuguesa, a proximidade cultural, a integração na União Europeia e a possibilidade de uma mudança de vida relativamente simples para toda a família tornaram-se fatores decisivos para muitos investidores brasileiros.
“Os EUA continuam a ser um mercado forte, mas Portugal oferece algo que a América não tem: a facilidade do idioma, uma profunda proximidade cultural e, acima de tudo, a possibilidade real de uma transição de vida tranquila e segura para toda a família”, vincou.
América Latina continua sem convencer os grandes investidores
Na análise do assessor da Câmara Portuguesa de Comércio em São Paulo, os restantes mercados da América Latina ainda não conseguem competir com Portugal em termos de confiança e estabilidade.
Sobre o Paraguai, o responsável explica que, apesar do crescimento do investimento brasileiro, continua a existir uma forte resistência por parte dos investidores tradicionais.
“Temos assistido a um crescimento do investimento brasileiro no Paraguai, mas o país ainda carrega uma imagem desfavorável no imaginário brasileiro, muito associada ao histórico de contrabando e informalidade. Isso faz com que os investidores mais tradicionais e de perfil elevado ainda tenham bastante receio de alocar ali grandes quantias”, frisou.
Quanto à Argentina, considera que o histórico de crises económicas continua a afastar o grande investimento.
“A Argentina voltou a atrair atenções recentemente, mas a insegurança com o país continua altíssima. Trata-se de uma economia que passou por crises severas e que já quebrou no passado. O investidor de património médio e alto procura previsibilidade, algo que a Argentina ainda não consegue garantir a longo prazo”, salientou.
Já o Uruguai mantém uma imagem de estabilidade, mas sem o potencial económico procurado pelos investidores.
“Punta del Este sempre foi o refúgio tradicional de veraneio e investimento da elite do sul do Brasil. No entanto, o Uruguai mantém-se numa estabilidade de baixo crescimento que, embora segura, não convence quem procura uma valorização patrimonial mais robusta ou uma inserção direta no mercado europeu”, assinalou.
Além dos fatores económicos, Fabiano de Abreu considera que Portugal beneficia atualmente de um fenómeno de enorme visibilidade digital, impulsionado pelas redes sociais.
“Portugal está na moda devido à enorme exposição digital. O país é massivamente promovido por influenciadores digitais e canais de lifestyle, o que gera um desejo aspiracional muito forte na classe média-alta brasileira”, referiu.
Contudo, o especialista alerta que essa imagem muitas vezes não corresponde totalmente à realidade.
“O reverso da medalha é que estas plataformas propagam, muitas vezes, a impressão de que entrar, legalizar-se e viver em Portugal é um processo extremamente simples e sem barreiras, o que nem sempre corresponde à realidade burocrática e prática do país”, sustentou.
Apesar desse desfasamento entre expectativa e realidade, Fabiano de Abreu garante que o fluxo de investimento continua a crescer. No âmbito das funções que desempenha na Câmara Portuguesa de Comércio em São Paulo e no projeto Terras de Cabral, o responsável tem acompanhado diariamente empresários interessados em instalar capital em Portugal.
“O investidor brasileiro moderno já não procura apenas um local para passar férias; procura um porto seguro contra a instabilidade fiscal da América Latina, e Portugal, com o seu mercado imobiliário dinâmico e inserido na União Europeia, preenche todos os requisitos”, concluiu. ■






