Susana Veiga Branco construiu um percurso profissional marcado pela diversidade de áreas de atuação, conjugando literatura, artes visuais, ilustração, investigação, coordenação editorial, formação e gestão empresarial. Mestre em Gestão de Organizações de Economia Social e licenciada em Comunicação Social, é atualmente empresária, fundadora e diretora-executiva da SBBS Investments & Consulting, formadora, artista plástica e visual, ilustradora, autora, investigadora, consultora e coordenadora literária e de projetos.
Paralelamente à atividade empresarial e artística, desempenha funções como vice-presidente da Associação Portuguesa de Poetas (APP), entidade através da qual tem participado na promoção da literatura, da criação artística e da valorização dos autores portugueses em Portugal e no estrangeiro. Ao longo dos últimos anos, tem desenvolvido trabalho na área da ilustração editorial, da coordenação de obras literárias e da investigação ligada ao património cultural, acumulando também distinções internacionais no campo das artes plásticas.
Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, Susana Veiga Branco, abordou o seu percurso multidisciplinar, o papel da imagem na aproximação do público à literatura, os bastidores da criação de capas e projetos editoriais, a sua participação na Feira do Livro de Lisboa 2026, os novos desafios literários que prepara, incluindo o lançamento de mais um livro de poesia, e a sua visão sobre o futuro da cultura e da criação artística em língua portuguesa.
A sua carreira reúne literatura, artes plásticas, ilustração, coordenação editorial, formação e gestão empresarial. De que forma estas diferentes áreas se complementam e contribuem para a construção da sua identidade profissional e artística?
O percurso plural que constrói a minha identidade e carreira tem exatamente a mesma orientação: a do foco e estratégia do ser individual conjugado com o networking e a noção de que tudo na vida está interligado, tudo é muito maior e mais amplo que uma área ou um grau académico ou uma profissão ou um projeto… enfim, quando há conjugação de sinergias, de partilha de contributos e possibilidades, de conhecimentos e aprendizagens, os benefícios surgem de uma forma muito positiva e gratificante. Agora, há que lutar muito, haver uma preparação e trabalho constantes, uma atualização premente e até um certo afastamento perante dados acontecimentos. Por outro lado, há a necessidade de uma base sólida e essa vem como posicionamento de seriedade e equilíbrio, um envolvimento consolidado com o facto de saber que tudo é transitório, que há muito a alcançar e muito que não se alcançará e a vida é este evoluir. A diversidade é muito positiva, é abrirmos a nossa caixa e estarmos despertos e recetivos, não esquecendo o processo basilar de constante autoconhecimento, reflexão e crescimento interior.
Como artista plástica responsável pelas capas da “Revista Etcetera”, organizada pela Adriana Mayrinck, da In-finita Editorial, e autora da rubrica dedicada à arte na publicação, qual considera ser o papel da imagem na aproximação do público à literatura e à produção cultural contemporânea?
Nós somos seres muito visuais; os nossos olhos deslocam-se automaticamente e em primeiro lugar para o movimento, cor, o que se destaca e alerta os sentidos. E em primeira instância vem a capa e a ilustração como um fio condutor primário para o conteúdo, neste caso escrito. Já está mais do que demonstrado que a maioria dos leitores compra pela capa. Assim, ela ser chamativa é crucial. Esta aproximação ao público e sabermos aquilo que ele quer é mesmo primordial. A fusão ilustração e escrita é a demonstração de uma simbiose perfeita. Elas cooperam para um fim comum, o objetivo de satisfazer os desejos do leitor, do observador.

A revista de literatura e arte “Etcetera” faz isso de uma forma perfeita. Tem o apelo, a força, o dinamismo, um design muito bem conseguido, uma paginação muito “clean” da Julia Mayrinck. E depois, tem os autores cuidadosamente selecionados, bons artigos e uma qualidade global excelente. É precisamente isto que defendo nos meus artigos de arte, a perceção deste poder extraordinário que é juntar as artes e optar sempre pela qualidade, pelo facto do menos ser mais e pela premissa de que quando se faz é para ser bem feito, com determinação e estrategicamente.
A ilustração de capas e o desenvolvimento gráfico de livros ocupam um lugar de destaque no seu percurso. Como é o processo criativo para transformar o conteúdo de uma obra numa identidade visual capaz de despertar o interesse do leitor sem revelar a essência da narrativa?
O truque está em articular o meu trabalho com o do autor e potencial leitor. Ao ilustrar, acompanho sempre o cliente e o manuscrito, conheço bem o conteúdo, objetivos e visão. Sinto uma realização enorme ao criar capas, ao dar essa identidade visual à obra e confesso que me desgosta por demais concluir que uma capa foi feita por quem nunca leu a obra. Até os recursos que utilizo vão de encontro ao autor. Por exemplo se é comprometido com a vertente ecológica e da sustentabilidade e o amor à natureza, como foi o caso da obra “Ondas de paz e contentamento”, de M. Helena Pereira, onde utilizei uma técnica mista sobre um cartão reciclado de 1,80X80. Espelhei o pensamento e a sensibilidade da autora, a calma que encontramos em nós e no mar e que a autora transmite. O mesmo com todo o processo criativo do miolo das obras e igual aquando da definição gráfica de uma obra cuja paginação é completada por editora específica, havendo uma interligação de trabalhos. É curioso perguntar-me como procedo sem revelar a essência da narrativa, porque a área que mais gosto de trabalhar é o abstrato. Por exemplo no “Faísca sem medos” de Ana Coelho usei o abstrato em todo o livro e quando a obra foi apresentada em escolas os alunos puderam desenhar a partir das minhas ilustrações, ir mais longe, e isso é mesmo a minha linha, o deixar espaço para a imaginação, a hipótese de a cada dia se visualizar algo diferente. Também faço trabalhos mais realistas e a partir de fotografia; cada caso é um caso. Ilustrei um livro de culinária e nesse caso fotografei, mas mesmo assim dei um toque diferente. O mercado está muito saturado de ideias similares, há que apostar em pormenores que façam a diferença. E, claro, tenho a base, as minhas telas e instalações, em que recebi três prémios internacionais. Essas são sempre arte abstrata, intituladas e com certificado de autenticidade.
A Feira do Livro de Lisboa continua a afirmar-se como um dos principais encontros literários do espaço lusófono. Que significado tem para si participar neste evento enquanto autora, ilustradora, coordenadora editorial e vice-presidente da Associação Portuguesa de Poetas, acompanhando a diversidade de projetos e escritores presentes? Como foi participar na Feira este ano?
Evidentemente que, tanto no âmbito profissional no mercado literário como vice-presidente da Associação Portuguesa de Poetas, falamos de promoção literária, mas há pelo menos mais dois fatores essenciais: alargar horizontes, pelo conhecimento de outras obras, autores e editoras, trazendo novas ideias que geram outras novas ideias e a nível macroestrutural, ou seja, estar presente no mundo e para o mundo, ir além fronteiras nesta abertura à diversidade, multiculturalidade e alargamento do conhecimento, potenciando novos projetos, parcerias e uma dinamização atualizada do mercado literário e artístico. Isto é incrível para todos os autores, incluindo, claro, os da Associação Portuguesa de Poetas, que aliás também participaram na Feira do Livro enquanto jograis, declamando poesia. Também os lançamentos dos seus livros, sessões de autógrafos, convivência, apoio partilhado, enfim, é todo um conjunto. A Feira do Livro de Lisboa, assim como outras, e os festivais e encontros literários e artísticos nacionais e internacionais, presenciais e online, são, a meu ver, repletos de interesse. Temos ainda eventos não tão falados, mas que têm grande importância. Dou os exemplos do Festival Literário Internacional Conexões Atlânticas ou do Mulherio das Letras, ambos promovidos pela Editora Infinita e a percorrerem Lisboa, Paris e Recife; o Encontro Internacional de artistas Pictorin, que se realiza na cidade de Santarém e que este ano alarga o leque à poesia e outras artes e ainda o Fórum da Sociedade da Excelência Luso-Brasileira, que tem parceria entre o Porto e São Paulo. E não só espaço lusófono, mas global; a língua portuguesa, nas suas variantes, transmitida entre os estados membros da CPLC, a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, e em todo o mundo. Voltando à questão, tenho um grande sentido de pertença com a Feira do Livro de Lisboa, inclusive de estar lá com a minha família. Os meus filhos adoram e acompanham-me em todas as participações. Tenho bons amigos que conheci lá.
Tem publicados trabalhos de investigação, contos e poesia, além de preparar o lançamento de mais um livro, este intitulado “Atreves-te a abrir?”. O que pode revelar sobre este novo projeto literário e quais os desafios de transitar entre géneros tão distintos sem perder a sua identidade enquanto escritora?
Percorrer vários estilos define-me, sem dúvida, e não há uma perda de identidade, há um ganho. Para mim, ficar apenas num género é muito redutor, não consigo mesmo, dou por mim a organizar mentalmente novos projetos, a buscar novas formas criativas; os horizontes e criatividade precisam de novos espaços, novos cenários. Daí ter vários trabalhos prontos para editar e outros em elaboração e vou fazendo-o ao longo do tempo, com calma, porque tenho de sentir a energia que me diga que é o momento certo. A investigação surgiu com a defesa e salvaguarda do património material e imaterial português, sobretudo da preservação da dimensão humana e do que não está documentado, para que não haja barreiras no tempo. Os meus contos são sempre a transmissão de uma mensagem, como o “Mãe, fala o ouvido bom…”, bilingue, que é a história real da vida de uma jovem com surdez unilateral, um tema pouco conhecido. Outro exemplo é “A mochila do medo” e por aí fora. Gosto de escrever e ilustrar para várias idades.

A poesia que escrevo é como um jogo de palavras e situações, sem regras rígidas, num estilo livre. E é também essa que prefiro declamar. Escrevo poesia a qualquer hora e em qualquer lugar, é algo mais simples, no sentido da experimentação. A obra que vai ser lançada brevemente – “Atreves-te a abrir?” – consta de livro de bolso que me desafiaram a fazer, com capa azul céu, cuja sinopse deixo: “Que segredos mostramos ou escondemos? A própria vida é uma possibilidade de histórias reais e sonhadas, é poesia a cada fragmento de instante. Entrar nesta caixa-segredo é como olhar as nuvens, descobrindo novas formas em cada poema, em gradações de felicidade, dor, gratidão, amor, saudade, serenidade, agitação, foco, persistência, resiliência ou apenas a apreensão de breves momentos que nos fazem respirar mais profundamente e bater o coração…”. É poesia. Sugiro que abra!
Num momento em que o mercado editorial enfrenta profundas transformações e os leitores procuram experiências cada vez mais completas, que legado pretende deixar através do seu trabalho na literatura, nas artes visuais e na coordenação de obras, contribuindo para valorizar a criação artística e a cultura em língua portuguesa?
Atualmente vivemos uma época de efemeridade. Tudo é muito rápido e descartado e há simultaneamente uma proliferação de conteúdos ao segundo. Por isso, para começar, temos de estar atualizados acerca dos dados, da procura e preferências dos leitores. Até de pormenores como o número de páginas que o público-alvo de cada tipo de literatura prefere, tipo de ilustração, gramagem e cor do papel. É também necessária uma paginação, ilustração, capa e impressão excelentes, uma sintonia entre coordenação/editora/autor/ilustrador. Igualmente a divulgação e promoção, estar presente, numa grande proximidade com os leitores. Muitos autores pensam que basta fazer uma impressão numa gráfica barata de algum conhecido e está resolvido, que poupam dinheiro, sendo para eles o preço tudo, mas depois ficam com caixas de livros em casa, sem os conseguir vender, com cores pobres, má revisão/paginação, obras com potencial, mas resultado fraco, em suma. O barato sai caro, como se costuma dizer. O mesmo com a ilustração, usando imagens de IA ou de plataformas de bancos de imagens, mas perde-se a alma. Outro caso a evitar é pensar que a ilustração e coordenação têm pouco impacto ou que podem ser gratuitas, que qualquer pessoa as faz Esquecem-se das muitas horas de planeamento e trabalho envolvido, dos gastos altíssimos dos materiais como os de pintura e de que quem trabalha tem de ser remunerado. Não me refiro a casos como voluntariado para entidades de solidariedade ou cooperações com amigos. Depois, muitos autores esquecem-se da autorrealização e ficam desiludidos com o resultado da sua obra, sem vontade de continuar, porque aquela dada obra era o seu bebé mas afinal trataram-no mal.… os autores precisam de uma boa consultoria e coordenação geral, que vá de encontro às suas expetativas. Tudo parte daí. Sem dúvida de que a criação artística e a cultura em língua portuguesa precisam de ir mais além, por isso ser tão importante a união entre quem esteja dentro do ramo de atuação e quem não está. Por exemplo a Associação Portuguesa de Poetas é uma boa resposta, porque é um projeto educativo e cultural que oferece apoio e rede de contactos aos autores e no domínio de todas as artes. Promove a literatura e os seus associados e tendo um vasto conjunto de parcerias, faculta inclusive consultoria aos autores, dinamiza encontros, publicações, incentiva a criação literária/artística e divulga-a nacional e internacionalmente, estando de portas abertas para novas gerações e para a inclusão social. E assim, em cada dia, trabalhando-se em conexão e de formas bem pensadas, em constante atualização e melhoria, se vai construindo um legado forte e duradouro. ■







