
O conselheiro das Comunidades Portuguesas eleito pela Venezuela, Fernando Campos Topa, acredita que os 45 anos do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP) representam um “momento de afirmação da instituição e de preparação para os desafios futuros”, destacando igualmente a necessidade de o Estado português “continuar a apoiar a comunidade lusovenezuelana” após a tragédia que recentemente atingiu aquele país.
As declarações foram prestadas à Agência Incomparáveis no âmbito da cerimónia comemorativa dos 45 anos do CCP, realizada, no dia 29 de junho, no Palácio das Necessidades, em Lisboa, onde atuais e antigos responsáveis governativos, deputados e conselheiros refletiram sobre o percurso da instituição e os desafios futuros das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo.
Ao fazer um balanço da evolução do Conselho, Fernando Topa considerou que a crescente visibilidade alcançada nos últimos anos constitui o resultado de um percurso iniciado há mais de quatro décadas.
“Eu penso que é importantíssimo celebrar estes 45 anos. Sem dúvida que representam a continuidade e talvez, neste momento específico que estamos a viver, como já disse o nosso presidente várias vezes, a visibilidade que nos últimos anos tem sido dada ao Conselho das Comunidades, é precisamente o coroar destes 45 anos, precisamente daqueles inícios que foram tão difíceis”, salientou.
“Com os desafios que temos hoje em dia, que são muitos, uns são novos, outros continuam a ser de antes, penso que é importantíssima a celebração destes 45 anos para continuar a viver e a preparar, de alguma maneira, as gerações futuras, porque o desafio é grande”, acrescentou.

Prosseguindo a reflexão sobre a evolução das comunidades portuguesas, este responsável explicou que a realidade atual da diáspora exige uma abordagem diferente daquela que existia quando o Conselho foi criado.
“Nós já tratámos, de alguma maneira, de erradicar um bocadinho a palavra “emigrantes” e falar só de “comunidades”, porque realmente, e falo no caso específico da Venezuela, 80% da nossa comunidade já são portugueses nascidos na Venezuela, segunda, terceira e até quarta gerações”, assinalou.
Na mesma linha, sustentou que as novas gerações obrigam também a novas formas de intervenção por parte das instituições portuguesas.
“Nós temos de ter uma visão muito mais abrangente, porque os desafios são diferentes. Os portugueses hoje em dia, nas cidades onde nós estamos, no estrangeiro, têm outras expetativas, têm muito mais que dar, mas temos de continuar a semear neles a portugalidade, o amor por Portugal e pelas tradições antepassadas e por tudo aquilo que há por fazer nas comunidades”, acrescentou.
Questionado sobre a tragédia que recentemente atingiu a Venezuela, Fernando Topa descreveu um cenário de enorme devastação, alertando para o elevado número de portugueses e lusodescendentes afetados.
“São 47 anos que tenho na Venezuela, de 66 de idade que tenho hoje. A Venezuela tem sido um país que tem sido fustigado muito durante todos estes anos com várias catástrofes naturais, mas estes tremores claramente foram devastadores. A resiliência do povo venezuelano e da comunidade portuguesa, que está super integrada na Venezuela, penso que, neste momento, vai ser a fortaleza que nós necessitamos para seguir em frente e continuar”, salientou.
Sobre a evolução dos acontecimentos, Fernando Topa alertou para a dimensão humana da catástrofe.
“A situação é ainda incalculável. Há muita gente desaparecida e dessa gente desaparecida seguramente uma altíssima percentagem será também de origem portuguesa, porque a zona mais afetada era uma zona onde viviam muitos portugueses. Não é muito alentador. É muito provável que encontrar pessoas vivas seja já muito difícil. É devastador”, lamentou.
“Vêm momentos muito complicados, pois há famílias que perderam tudo, perderam a sua casa, perderam os seus negócios, famílias que foram cortadas, filhos que morreram, pais que morreram, órfãos. Num país que atravessa uma crise económica muito difícil, isto só vem agravar ainda mais. Renascer das cinzas vai ser difícil”, admitiu.
Apesar da gravidade da situação, o conselheiro valorizou a resposta internacional que começou, entretanto, a mobilizar-se.
“O apoio internacional está a chegar e é importante. Não há nenhum país que esteja preparado para resolver uma situação como esta sozinho. Agradecemos profundamente o apoio de todos os países e Portugal também, com certeza, dentro das suas possibilidades também chegou, mas acredito que há muito mais por fazer”, reconheceu.
Ao mesmo tempo, defendeu que o maior desafio começará precisamente depois da fase de emergência.
“Agora vem uma fase importante. Os falecidos ficam na sepultura, mas temos de pensar nos vivos, que vão sofrer psicologicamente, vão estar muito afetados e depois provavelmente muitos até queiram regressar a Portugal porque realmente a situação lá não lhes vai permitir continuar”, realçou.
“Temos de estar preparados para isso e aí penso que o Estado português tem um papel fundamental de não abandonar a sua comunidade, e tenho a certeza que vai ser assim, que não nos vai abandonar.”, disse.

Fernando Topa explicou ainda que, apesar de se encontrar em Portugal aquando da tragédia, manteve contacto permanente com os colegas e dirigentes associativos na Venezuela.
“Escapei por quatro dias porque vim para Portugal mais cedo do que estava previsto. Os meus filhos estão aqui e tenho lá alguma família, que, graças a Deus, está toda bem. Mas temos o coração ferido porque sempre há pessoas conhecidas muito próximas que faleceram. Tenho o caso específico de um grande amigo cuja filha de 30 anos ficou soterrada. Ainda ontem estive até às duas da madrugada aqui em Portugal a acompanhar a informação, em conversa com os meus colegas conselheiros e, como continuo a ser dirigente associativo, também as associações me contactam, mas sentimos uma grande impotência de não poder estar lá ao lado de todos neste momento”, confessou.
Por fim, Fernando Topa destacou o trabalho desenvolvido pelas associações portuguesas e pelas autoridades diplomáticas portuguesas na coordenação da ajuda humanitária.
“As associações portuguesas estão muito debilitadas há vários anos, mas o Centro Português de Caracas praticamente não sofreu danos e está preparado para receber apoios e donativos para depois os distribuir. O nosso consulado e a nossa embaixada estão a articular-se com as instituições e penso que as coisas vão ser bem feitas, ainda que haja sempre margem para melhorar”, concluiu. ■






