Conselheira Sara Fernandes defende maior participação dos jovens e reforço da ligação entre Portugal e a comunidade portuguesa na Austrália

Recém-eleita presidente do Conselho Regional das Comunidades Portuguesas para a Ásia e Oceania para o mandato 2026-2027, esta responsável traça um retrato da diáspora portuguesa na Austrália e destaca o papel do associativismo, além de apontar os principais desafios e prioridades para o futuro

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Sara Fernandes, conselheira das Comunidades Portuguesas eleita pelo círculo da Austrália. Fotos: divulgação/arquivo pessoal
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A conselheira das Comunidades Portuguesas eleita pelo círculo da Austrália, Sara Fernandes, considera que a participação cívica dos jovens, a valorização do movimento associativo e a modernização dos serviços consulares serão “fatores decisivos” para garantir o futuro da comunidade portuguesa naquele país.

De igual modo, recentemente eleita presidente do Conselho Regional das Comunidades Portuguesas para a Ásia e Oceania (CRAO) para o mandato 2026-2027, a iniciar no próximo dia 8 de outubro, Sara Fernandes assume a liderança de uma estrutura que representa comunidades portuguesas dispersas por diferentes geografias da região, incluindo Macau, e que pretende “reforçar a proximidade com os cidadãos através de reuniões regulares e de novas ferramentas de comunicação dirigidas à diáspora e aos lusodescendentes”.

Em entrevista exclusiva à Agência Incomparáveis, esta conselheira abordou o trabalho desenvolvido junto das comunidades portuguesas na Austrália, analisou o papel das associações lusa australianas, avaliou a resposta diplomática portuguesa no país e partilhou a sua visão para o futuro da comunidade e do Conselho das Comunidades Portuguesas (CCP).

Enquanto conselheira das comunidades portuguesas na Austrália, como descreve as principais linhas de atuação do seu trabalho no país?

Enquanto conselheira das Comunidades Portuguesas, eleita pela Austrália, procuro representar de forma abrangente as comunidades espalhadas pelo país, tentando garantir que as suas preocupações, necessidades e expetativas sejam transmitidas às entidades competentes em Portugal. No entanto ainda tenho um longo percurso a seguir para que esta minha missão seja mais eficaz. Divido o meu mandato em duas fases distintas. Na primeira fase, foquei-me em conhecer presencialmente a realidade das comunidades portuguesas nas diferentes regiões. Procurei visitar todas as principais cidades australianas, como Sydney, Melbourne, Brisbane, Adelaide, Perth, Darwin e Canberra, sendo apenas ficado por concretizar a Gold Coast, cuja visita já está planeada para junho de 2026. Este contacto direto permitiu-me recolher testemunhos, identificar desafios locais e compreender melhor as dinâmicas específicas de cada comunidade. É muito importante ter contacto direto com a população. Na segunda fase, concentrar-me-ei na consolidação do trabalho desenvolvido: acompanhar as associações e promover iniciativas que aproximem a diáspora de Portugal. Uma das prioridades para esta segunda fase é apresentar recomendações fundamentadas no seio do Governo Português, seguindo os azimutes institucionais próprios. Colaborar com as autoridades diplomáticas para melhorar o acesso a serviços, a informação e ao apoio institucional também estará na minha agenda como continuação de um trabalho já iniciado. Estreitar ligações com o Governo Federal Australiano, no âmbito do multiculturalismo, é também um dos meus principais eixos nesta segunda fase. O meu objetivo central é garantir que os portugueses na Austrália, independentemente da região onde vivem, se sintam representados, ouvidos e valorizados.

O movimento associativo português na Austrália tem longa tradição. Que papel desempenham hoje as associações lusa australianas na preservação da identidade cultural da diáspora?

As associações portuguesas na Austrália continuam a ser pilares fundamentais da nossa vida comunitária. São espaços onde a identidade portuguesa é vivida, celebrada e transmitida às diferentes gerações. Através de festas tradicionais, iniciativas culturais, gastronomia, eventos desportivos e atividades de solidariedade, estas associações mantêm viva a ligação à nossa história, à nossa língua e às nossas tradições. Além disso, desempenham um papel determinante na integração social dos novos emigrantes, criando redes de apoio que facilitam a adaptação ao país e fortalecem o sentido de pertença. No entanto, é importante reconhecer que o associativismo na Austrália, apesar da sua relevância e do trabalho notável de muitos dirigentes e voluntários, precisa de ser mais valorizado e reconhecido, tanto dentro das próprias comunidades como pelas novas gerações.

Sara Fernandes, conselheira das Comunidades Portuguesas eleita pelo círculo da Austrália. Fotos: divulgação/arquivo pessoal

A participação juvenil é essencial para garantir continuidade e renovação, mas, por vezes, os jovens não se sentem plenamente chamados ou integrados nas estruturas tradicionais. Por isso, considero fundamental reforçar a comunicação, modernizar práticas, abrir espaço à criatividade e envolver mais ativamente os portugueses de segunda e terceira geração, para que vejam no associativismo não apenas um legado dos seus pais e avós, mas também um lugar onde podem construir identidade e portugalidade.

Como avalia o trabalho diplomático português no país, em particular o relacionamento das associações e da comunidade com o Consulado-Geral em Sydney e a Embaixada em Camberra?

O trabalho diplomático português na Austrália tem evoluído de forma positiva, com um esforço visível no reforço da proximidade entre as instituições oficiais e a comunidade. O Consulado-Geral em Sydney e a Embaixada em Camberra têm procurado manter canais de diálogo permanentes, respondendo com maior rapidez a necessidades administrativas e promovendo iniciativas culturais e educativas que valorizam a presença portuguesa no país. De salientar que o Consulado-Geral aumentou as permanências consulares em todas as cidades, para minimizar o impacto das longas listas de espera para renovação de cartões de cidadão. Tem sido um reflexo do esforço e empenho tanto da chefia do posto como de toda a equipa envolvida. Há, naturalmente, áreas a melhorar, como a modernização de processos consulares e a descentralização de alguns serviços, de modo a dar uma maior resposta à comunidade. No entanto, o Governo Central Português tem de ter um papel mais ativo e atento neste aspeto.

A diáspora portuguesa na Austrália enfrenta desafios específicos, desde a distância geográfica até questões de integração. Quais são, na sua perspetiva, as principais dificuldades sentidas pelas famílias portuguesas no país?

As dificuldades mais referidas pelas famílias portuguesas na Austrália relacionam-se sobretudo com a distância física e emocional a Portugal, que afeta a ligação intergeracional e a preservação cultural. A adaptação ao contexto laboral australiano, embora frequentemente bem-sucedida, pode ser exigente, especialmente para recém-chegados que enfrentam diferenças linguísticas e burocráticas. Também se destacam desafios relacionados com o acesso à habitação, à educação, ao emprego qualificado e à conciliação entre a vida profissional e familiar. Para muitos, manter viva a língua portuguesa entre os mais jovens é outra preocupação central. Ainda assim, a comunidade demonstra grande capacidade de resiliência, integração e empreendedorismo.

Que perfil traçaria dos emigrantes portugueses que vivem atualmente na Austrália?

O perfil da comunidade portuguesa na Austrália é hoje bastante diversificado. Às gerações compostas por homens e mulheres que chegaram entre as décadas de 1950 e 1980, e que com muito trabalho, sacrifício e perseverança construíram as bases da nossa presença no país, juntam-se agora jovens qualificados nas áreas da saúde, engenharia, tecnologia, investigação, hotelaria e outras profissões especializadas.

Sara Fernandes, conselheira das Comunidades Portuguesas eleita pelo círculo da Austrália. Fotos: divulgação/arquivo pessoal

A geração pioneira teve um papel absolutamente essencial: criou associações, ergueu espaços comunitários, transmitiu tradição, preservou a nossa língua e deixou um legado de orgulho e identidade que ainda hoje une a comunidade portuguesa na Austrália. Sem o contributo dessa geração, feita de resiliência e espírito comunitário, não seria possível o crescimento e reconhecimento de que beneficiam as gerações mais novas. A nova vaga caracteriza-se por elevados níveis de formação, mobilidade profissional e integração em setores altamente competitivos. Muitos procuram oportunidades de carreira e qualidade de vida, mantendo simultaneamente um forte vínculo cultural com Portugal. Assim, coexistem na Austrália uma comunidade histórica, profundamente respeitada e valorizada, e uma geração emergente, altamente qualificada, que beneficia das referências construídas pela geração anterior e que contribui para renovar e diversificar a imagem da diáspora portuguesa no país.

Quais são as suas expetativas relativamente ao futuro da comunidade portuguesa na Austrália e que projetos pretende desenvolver?

O futuro da comunidade portuguesa na Austrália pode ser muito promissor, contudo existem desafios fundamentais: a necessidade da crescente presença de jovens na participação comunitária e cívica; o fortalecimento das associações no envolvimento da portugalidade; e uma maior modernização dos serviços consulares, sendo o Governo Português a chave para essa concretização. Todos estes pontos só serão bem-sucedidos com a colaboração e o empenho de todos os intervenientes. As minhas expetativas passam por continuar a acompanhar a dinâmica que reforça a transmissão da língua e cultura portuguesas entre pares e organizações, assim como promover junto das entidades governamentais competentes as necessidades presentes das nossas comunidades. Para além disso, existe a minha necessidade de estar presente, na medida do possível, junto das comunidades que represento. Em articulação com o Conselho das Comunidades Portuguesas, pretendo contribuir para projetos que facilitem o acesso e a resolução das necessidades das comunidades, assim como iniciar pedidos de revisão de alguns acordos ainda pendentes que requerem a minha total atenção. ■

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