Eduardo Daemon Teixeira dos Santos tem 23 anos, é estudante de Engenharia Elétrica no Brasil. É lusodescendente, tendo as suas raízes na terra do tataravô, na Madeira. Recentemente, integrou o grupo seleto de colaboradores e pesquisadores do CERN, organização europeia para a investigação nuclear, fundada em 1954, de acordo com a Convenção assinada pelos Membros Fundadores.
Em entrevista ao Gazeta Lusófona, este jovem, que coleciona bons resultados no campo dos estudos, explicou como surgiu a oportunidade no CERN.
“O meu amigo baiano Lael enviou-me uma imagem de banner de uma IC (iniciação científica) no LPS (Laboratório de Processamento de Sinais) com esse projeto de colaboração com o CERN, porque ele sabia que eu me interessava por física e processamento de sinais e eu apliquei sem muitas expetativas porque estava cansado com o meu estágio da época. Acho que acabei conseguindo porque mostrei confiança na entrevista na hora de dizer que era fluente em inglês, um grande diferencial, e que tinha bastante experiência com computação voltada a pesquisa bancos de dados no meu estágio”, revelou, sublinhando que, hoje, trabalha “completamente com programação”.
“Atuo numa equipa brasileira que faz o software que centraliza toda a parte organizacional do CERN. O nosso sistema é essencial para o funcionamento da organização, porque é o único que é capaz de unir todos os diferentes experimentos independentemente das suas particularidades”, frisou.
“Basicamente escrevo código e, por meio de incrementos bissemanais, contribuo para um repositório enorme que contém o funcionamento dos diferentes sistemas organizacionais do ATLAS. O ATLAS é o principal “experimento” do CERN, é o maior e o mais famoso. Dentro da organização existem quatro diferentes experimentos, que são núcleos de pesquisa com focos distintos. O foco do meu experimento são os fundamentos da física, foi nele que em 2012 evidenciou-se o bóson de higgs, uma partícula nova, nunca antes identificada, que existe apenas no âmbito teórico e matemático”, continuou.
Este desenvolvedor de software pelo CERN, um “dev”, atualmente, e porque está recém-chegado ao CERN, há apenas um mês e meio, vive num hostel da organização, mas pretende morar no bairro de Servette, em Genebra, num prédio com outros colegas brasileiros do CERN.
É natural do Rio de Janeiro, nascido no bairro de Laranjeiras, e, mesmo com pouca experiência, avalia a vida na Suíça como “muito boa”.
“Hoje estou empenhado em conhecer a cidade, me familiarizar com os bairros e descobrir lugares para frequentar. Acho que a palavra que eu usaria para descrever a cidade é “confortável”. Parece ser uma vida muito mais fácil”, atestou.
Confessa conviver com a comunidade portuguesa e brasileira na Suíça.
“Sim. Especialmente com os brasileiros. Já fiz muitos amigos brasileiros que trabalham no CERN, o grupo é muito unido e eles sempre convidam uns aos outros para atividades de lazer. Ir para a praia, parque, bar. Também conheci muitos outros brasileiros que são agregados, não são da organização, mas são amigos desses amigos. Em relação aos portugueses, é impossível morar em Genebra e não conviver com a comunidade portuguesa, eles estão bem presentes aqui. Eu já fui duas vezes a um restaurante português muito bom de um casal da Beira Baixa, chamado “Zé do Pipo”. Também conheci um bar de bilhar com um misto de portugueses e brasileiros chamado “Poolmania55”, reforçou.
Eduardo Daemon sublinha ter sido bem recebido na Suíça, “não reparei muita xenofobia, mas acho que isso se deve muito às minhas circunstâncias, eu estou numa cidade extremamente cosmopolitana, cujo caráter foi moldado nos últimos anos pela migração”.
“Sinto que se existe alguma xenofobia por parte dos genebrenses de família suíça, é dirigida a outros tipos de imigrantes, não a um brasileiro e não a um funcionário do CERN”, avaliou.
Sobre a experiência no CERN, Eduardo não esconde a ansiedade.
“Espero que esta passagem pela organização agregue bastante profissionalmente, é claro, mas eu espero também que me ajude a descobrir várias coisas sobre mim mesmo e sobre o meu país. Eu quero continuar vivendo no Brasil. Certamente quero continuar os meus estudos na Europa, mas eu criaria uma família aqui? Eu espero saber melhor como responder a essas perguntas depois desse meu um ano e meio”, confessou, reconhecendo que atuar no CERN era um desejo.
“Sim. Eu penso bastante sobre o CERN, desde que fiz a matéria de Física 4 na faculdade e aprendi sobre quântica e assuntos mais relacionados às fronteiras do conhecimento científico. Algo sobre o facto de não termos certeza ainda de muita coisa e descobrir exatamente quais coisas ainda não fazem sentido me fascinou. E o CERN está trabalhando exatamente nessa fronteira, na ponta da lança. Além de eu sempre ter achado essa colaboração entre os países algo admirável. Estar aqui representando o meu país é algo surreal. Nunca esperei que algo assim pudesse acontecer e me sinto extremamente sortudo e feliz por estar aqui”, afirmou.
Eduardo esclarece, porém, que o trabalho está a ser bem “desafiador, pois nunca trabalhei por oito horas por dia, e o que eu faço é bem difícil, eu tenho me dedicado bastante para conseguir me adaptar”.

“Em relação às oportunidades, elas estão aparecendo a toda hora. Chamaram-me para várias viagens a países europeus, e eu quero visitar o máximo que puder, mas eu diria que o que mais me interessa é a possibilidade de fazer alguma pesquisa por aqui mais ligada à minha área de elétrica, de processamento de sinais voltada à física. Poder fazer uma colaboração mais concreta a algum experimento seria uma honra enorme”, confirmou Eduardo, que disse que, na sua opinião, a Suíça significa “um modelo”.
“Acho que é uma sociedade muito peculiar e eu estou sempre tentando entender como funciona a mente do suíço. Eles parecem ter um enorme senso de confiança pelos seus compatriotas”, enalteceu. Já sobre a imagem que tem de Portugal, este lusodescendente conta “sentir identificação por Portugal”.
“É uma nação muito interessante e complexa, com um passado muito glorioso e uma nostalgia melancólica. Parece ser um povo muito sensível também, com uma alma muito grande. Eu sei que os índices de ansiedade são altíssimos em Portugal, às vezes acho que lá as pessoas sempre foram inquietas por natureza. Não sei se o que eu estou falando é um bando de falsas impressões que tive por ter lido muito Fernando Pessoa e Luís de Camões e outros poetas na escola, por isso, preciso conhecer pessoalmente”, destacou.
Ao Gazeta Lusófona, Eduardo disse esperar do futuro “poder viajar bastante e descobrir onde quero morar a longo prazo. Espero poder trabalhar como engenheiro, onde quer que eu acabe morando e poder criar uma família que eu ame com conforto e sem abrir mão de quem eu sou”.
Um dos pontos a melhorar é o aprendizado da língua: “o meu francês ainda não é muito bom, estou longe de ser fluente e aqui as pessoas falam bem rápido. Eu vou fazer aulas de francês providas pelo CERN. Prometi à minha mãe que vou voltar fluente. Mas, felizmente, grande parte das pessoas aqui fala inglês”.
A interação no país helvético tem sido importante para melhor compreender o seu momento de vida.

“Tenho ficado basicamente com os meus colegas brasileiros do CERN e quando conheço melhor outras pessoas de fora elas costumam ser brasileiras também. Acho difícil de me inteirar com os locais, especialmente sem falar francês fluente”, realçou, assumindo que Genebra, com ou sem o francês na ponta da língua, é uma “cidade linda, organizada, internacional e com uma identidade própria forte. Mas ainda acho estranho o facto de as ruas ficarem mais ou menos vazias lá pelas sete da noite”.
“Na Suíça quero conhecer as cidades grandes do lado alemão, como Zurique, Berna, etc. Mas também quero ir para os vilarejos nos Alpes como Sils-Maria, perto de Saint Moritz. Quero muito fazer trilhos por lá, esquiar e apreciar a paisagem incrível. (…) Acho que posso dizer que em Genebra o meu coração de imigrante está tranquilo e em casa”, finalizou Eduardo Daemon Teixeira dos Santos. ■





