Opinião: “O Milagre de Miami”, por Maritza Rosabal

“Se Cabo Verde ganhar, os especialistas dirão que foi uma surpresa histórica. Eu direi apenas que os “Tubarões Azuis” voltaram a fazer das suas. Se perder, continuarei a acreditar que este Mundial já lhes pertence um bocadinho, porque há campanhas que se medem em troféus e outras que se medem em orgulho”

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Maritza Rosabal, antiga ministra da Educação e antiga ministra da Família e Inclusão Social, em simultâneo, entre 2016-2020, no Governo de Cabo Verde, além de ter atuado na “ONU Mulheres” e de ter sido docente. Hoje está reformada. Foto: Adriana Carvalho
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Há momentos em que a lógica devia ter a delicadeza de tirar férias. Este é um desses.

Os entendidos já fizeram as contas. As probabilidades estão publicadas. Os algoritmos trabalharam horas extraordinárias. A inteligência artificial foi consultada. Há gráficos, percentagens, projeções e especialistas muito sérios a explicar por que razão a Argentina é favorita. Tudo impecável.

Os algoritmos continuam convencidos de que a Argentina vai ganhar, mas os “Tubarões Azuis” ainda não foram informados – Chegaram ao Mundial discretamente, como quem entra numa festa onde ninguém conhece o seu nome. Depois empataram com a Espanha. A seguir empataram com o Uruguai. E, de repente, começaram a estragar o trabalho dos especialistas.

Há um pequeno arquipélago no meio do Atlântico que decidiu estragar a lógica.

Chama-se Cabo Verde.

Agora dizem que vem aí a Argentina. Excelente. Os argentinos trazem campeonatos do mundo e os cabo-verdianos trazem… Cabo Verde. E isso, convenhamos, também pesa bastante na bagagem: Trazem nove ilhas habitadas e uma décima, ainda maior: a diáspora.

Trazem um povo que aprendeu, há muito tempo, que resistir também é uma forma de vencer.

Trazem um hino que consegue ser cantado com a mesma emoção na Praia, em Roterdão, em Boston, em Lisboa ou em Paris.

E trazem milhões de treinadores de bancada, todos absolutamente convencidos de que o selecionador devia fazer uma substituição diferente. Tudo como acontece em qualquer país verdadeiramente apaixonado por futebol.

Na sexta-feira 03/07, proponho uma coisa: Durante noventa minutos, suspendamos a lógica. Guardemos as estatísticas numa gaveta. Façamos de conta que as probabilidades adormeceram. E deixemos apenas a bola decidir, porque convenhamos, se o futebol obedecesse sempre à lógica, ninguém perderia tempo a vê-lo, porque já saberíamos o resultado antes do apito inicial e isso teria muita pouca graça.

Se Cabo Verde ganhar, os especialistas dirão que foi uma surpresa histórica. Eu direi apenas que os “Tubarões Azuis” voltaram a fazer das suas. Se perder, continuarei a acreditar que este Mundial já lhes pertence um bocadinho, porque há campanhas que se medem em troféus e outras que se medem em orgulho.

Mas…

Tenho um pequeno pressentimento, daqueles que não aparecem nas folhas de cálculo, que os algoritmos ainda não aprenderam a medir.

Quem sabe?

Quem sabe não estaremos, daqui a uns dias, todos a falar do “Milagre de Miami”? ■

Maritza Rosabal

Antiga ministra da Educação e antiga ministra da Família e Inclusão Social, em simultâneo, entre 2016-2020, no Governo de Cabo Verde

Atuou na “ONU Mulheres” e foi docente

*Os artigos de opinião são de inteira responsabilidade dos seus autores e não refletem, necessariamente, a visão do nosso órgão de comunicação social

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